Cruella (2021)

“The thing is… I was born brilliant, born bad, and a little bit mad. I’m Cruella”

O aguardado live-action protagonizado pela perversa Cruella de Vil, de “101 Dálmatas”, é tudo o que podíamos esperar e um pouco mais… um filme de origem que nos apresenta uma Cruella diferente de tudo o que sempre projetamos à personagem, e agora estou achando difícil associá-la àquela figura maligna que estava disposta a roubar 101 filhotinhos de dálmatas para fazer um casaco de pele – a Cruella de Emma Stone realmente seria capaz disso? O filme é divertido, de uma forma quase macabra, e traz uma narrativa competente que preenche lacunas e nos permite conhecer melhor a criança e a mulher que se tornariam “Cruella de Vil”, tudo em um visual deslumbrante que mistura o cenário de época, do mundo da moda e um toque de punk – é perfeito para a personagem! E, falando nela, Emma Stone faz um trabalho excelente, nos conquistando com todo seu carisma.

Ao lado dos cenários e figurinos bem concebidos e da ótima atuação de Emma Stone, o filme ainda tem um clima muito bacana e já quase nostálgico garantido pela trilha sonora e pelas constantes referências. Na trilha sonora, há uma tentativa bem-sucedida de recriar a época a que o filme se refere, trazendo clássicos de Tina Turner, Queen, Beatles, David Bowie, Rolling Stones… nas referências, eu achei muito legal como o filme conseguiu o tempo todo brincar com elementos de “101 Dálmatas”, como a semelhança entre os cachorros e seus donos, observada por Pongo na animação e presente em uma rápida cena de referência aqui, ou o icônico carrinho que é dirigido por Cruella e, é claro, a presença de Anita (uma amiga de Cruella da época da escola que ela reencontra como jornalista na fase adulta) e de Roger (o ex-advogado da Baronesa).

E o filme ainda tem uma cena pós-créditos perfeita.

Não tem como não se apaixonar pela personagem ao longo de “Cruella”. A conhecemos, primeiro, como Estella Miller, uma garota que nasceu com o cabelo meio preto e meio branco, que é constantemente provocada por causa disso e que nunca deixou barato… eu gosto de como a Disney não ficou tentando aliviar as coisas por ser um filme também para o público infantil, e como trouxe assuntos bem sérios e tratados com clareza: a morte da mãe de Estella, por exemplo, foi algo que me surpreendeu. Quando Estella e a mãe estão se mudando para Londres, elas param na Casa da Baronesa, onde um elegante desfile de modas está acontecendo, e durante uma confusão causada por Estella desobedecer a mãe e não ficar esperando no carro, três dálmatas (!) a perseguem e, depois, atacam sua mãe, a derrubando de cima de um penhasco e, consequentemente, a matando.

Estella passou todos os anos seguintes se sentindo responsável pela morte da mãe, aos poucos preparando o terreno para a adulta cruel que já conhecemos – em Londres, ela acaba encontrando dois garotos órfãos que roubam para sobreviver, e os três formam uma espécie de família. Na fase adulta, Estella é UM MÁXIMO, essa é a verdade. Ela é uma clássica anti-heroína: imperfeita, com algumas atitudes talvez questionáveis, mas do tipo que faz com que torçamos para ela… e Emma Stone entrega exatamente isso: uma personagem problemática e carismática, com excelentes cenas como aquela em que, bêbada, ela refaz a vitrine da loja em que estava trabalhando como zeladora e chama a atenção da Baronesa, um grande ícone da moda, uma estilista famosa exatamente como ela quer ser… exatamente como ela sempre quis ser, desde a infância.

Gosto muito da construção de Estella como estilista, gosto de vê-la ganhando oportunidades, gosto de vê-la chamando a atenção com produções exuberantes. Naquele momento, até nos perguntamos qual é o caminho que o filme está seguindo, se Estella vai ser tomada pela ganância para se tornar a vilã de “101 Dálmatas”, mas o filme dá uma guinada interessantíssima (e não totalmente inesperada) quando ela vê o colar que a mãe usava (e que deixou com ela antes de morrer) no pescoço da Baronesa, e a Baronesa explica que aquela é uma joia de família que chegou a ser roubada por uma funcionária uma vez… sabendo que a joia é sua por direito, porque a mãe a deixou com ela, Estella resolve roubar a joia de volta – e, assim, Cruella vem à tona pela primeira vez na vida adulta… e, bem, naquele momento queríamos mesmo ver mais de Cruella.

É uma sequência praticamente PERFEITA. A Baronesa está dando uma festa elegantíssima, o Baile Preto e Branco, e Cruella aparece pronta para chamar a atenção e causar uma distração enquanto Jasper e Horace invadem a casa e o cofre da Baronesa para conseguir o colar de volta. Cruella está de volta em seu cabelo preto e branco, o que combina perfeitamente com a proposta do baile, eu acredito, mas por baixo de uma capa branca, ela está usando um belíssimo vestido vermelho, no melhor estilo Cruella de ser – e aquela cena me faz pensar muito em “O Fantasma da Ópera”, quando o Fantasma invade o baile de máscaras para trazer o roteiro de “Don Juan Triunfante”. E é essa sequência incrível do baile que faz a transição de Estella a Cruella e, a partir de então, quando a vemos novamente caracterizada como Estella, é apenas uma “personagem”.

Muito dessa “transição” se deve ao fato de a Baronesa jogar seus três dálmatas para cima dela soprando um apito que, agora, Estella se lembra de a ter visto soprar na noite em que sua mãe morreu – durante todo esse tempo, ela se culpou pela morte da mãe, mas a verdade é que quem a matou foi a Baronesa, por algum motivo que ela ainda não entende. Agora, no entanto, Cruella tem uma nova missão e uma nova fase do luto: VINGANÇA. A estreia completa de Cruella movimenta o filme, mudando novamente o seu tom… aqui, podemos dar uma olhada na vilã escrachada de “101 Dálmatas”, enquanto até Jasper e Horace começam a ficar cansados dela e anseiam pela velha Estella de volta, e Cruella também sequestra dálmatas pela primeira vez, dessa vez porque um deles engoliu o colar que pertencera à sua mãe, e ela quer resgatá-lo de qualquer maneira.

Uma das melhores partes do filme é, sem dúvida, essa guerra entre estilistas, essa briga entre Cruella e a Baronesa, algo que fica cada vez mais exagerado e, consequentemente, mais divertido. Com a ajuda de Anita, a antiga amiga de escola de Cruella que agora é uma jornalista, e de Artie, um talentoso dono de brechó, Cruella desenha os melhores vestidos possíveis, sempre com uma identidade muito forte, e aparece chamando a atenção em todos os eventos possíveis da Baronesa, a ofuscando e fazendo com que as suas vendas caiam vertiginosamente. Os jornais da cidade só falam ou da queda da Baronesa ou da aparente ascensão de Cruella, cada vez mais vista e mais notada… gosto muito do vestido que cai do caminhão de lixo, é certamente um dos melhores momentos de Cruella – e então eu pergunto: como não torcer por Cruella?

O filme ainda tem mais uma mudança drástica de ritmo e tom quando entra em seu último ato, que é quando a Baronesa tenta matar Cruella depois daquele show magnífico no Regent’s Park, e Cruella acaba sendo salva por John e descobrindo a importância do colar, no fim das contas: ele continha a chave para uma verdade que muda a vida de Cruella – ela é filha da Baronesa, e agora não foi a primeira vez que ela tentou matá-la. A Baronesa é uma vilã cruel, e é esse contraponto que não nos permite desgostar de Cruella: temos alguém muito pior contra quem torcer. Quer dizer, ela mandou John matar a sua filha recém-nascida! Sabendo de toda a verdade, Estella se torna Cruella para o seu último plano, e eu devo dizer: É UMA DAS MELHORES SEQUÊNCIAS DE TODO O FILME. Cruella conseguiu pensar em tudo para derrubar a Baronesa de uma vez por todas.

Tudo começa com Cruella enviando uma mensagem a todos os convidados da Baronesa, como se fosse da própria anfitriã, convidando todos a irem ao evento de gala com perucas preto e branco, como o cabelo de Cruella – supostamente para “homenageá-la depois de sua trágica morte”, o que, naturalmente, confunde os seguranças que esperam por Cruella e desestabiliza completamente a Baronesa. Então, Cruella só precisa continuar jogando, e ela manipula tudo à perfeição, com a ajuda de seus aliados, para que a Baronesa seja vista fazendo algo terrível… Cruella se torna Estella uma última vez para conversar com a Baronesa no mesmo lugar em que ela matou sua mãe, porque, como ela diz, ela sabia que a Baronesa faria algo de ruim… e quando a Baronesa a empurra deliberadamente de cima do mesmo penhasco, todos seus convidados estão ali para assistir, testemunhas de um crime.

Estella “morre”, a Baronesa é presa e Cruella fica com todo o dinheiro

Afinal de contas, Estella era a herdeira do Barão e deixou tudo para “sua grande amiga” Cruella.

O filme é incrível, de fato. Com 74% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes, mas 97% de aprovação do público (!), “Cruella” entrega, com competência e carisma, uma das melhores histórias de origem da Disney… e certamente uma das melhores releituras de um clássico, com essa inversão de ponto de vista. E depois de um filme brilhante, ele ainda nos brinda com uma divertidíssima cena pós-créditos que nos mostra um presente de Cruella enviado a Roger e Anita, antes de eles se conhecerem: Pongo e Perdita, preparando o terreno para “101 Dálmatas” enquanto Roger se senta ao piano cantando “Cruella de Vil”, exatamente como no início da animação… eu só ainda tenho dificuldades para acreditar que essa Cruella que conhecemos agora realmente teria coragem de sequestrar 101 cachorrinhos para fazer um casaco de pele deles.

Quer dizer, ela teve a oportunidade e não fez isso!

Vamos ver como a sequência, já confirmada, aborda isso…

 

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