Handsome Devil (2016)

“If you spend your whole life being someone else, who’s gonna be you?”

COMPLETAMENTE APAIXONANTE! “Handsome Devil” é um filme jovem e gay com um tom leve que me deixou com um sorriso no rosto e uma sensação de “queria viver nesse filme para sempre” durante a maior parte do tempo. Com personagens carismáticos, um visual incrível e colorido, o filme tem personalidade e um coração imenso, e toca em assuntos sérios e traz reflexões sem ser aquele filme que nos deixa melancólicos no final… eu terminei o filme com um sorriso no rosto e lágrimas nos olhos – e com a sensação de que queria mais. Fionn O’Shea e Nicholas Galitzine estavam perfeitos nos papeis principais, mostrando uma química incrível, embora não cheguem a, de fato, namorarem durante o filme, e Andrew Scott interpreta Dan Sherry, o novo professor de inglês da escola, que é o terceiro protagonista e entrega alguns dos melhores momentos e melhores frases de “Handsome Devil”.

O filme é diferente do que eu esperava, mas exatamente o que eu precisava assistir agora. Logo de cara, fui surpreendido com o tom que lembra a comédia dado pela narração de Ned Roche, um garoto desajustado em uma escola que só valoriza o rúgbi e que sonha, mais do que tudo, em ser expulso… pelo menos até conhecer Conor Masters, um garoto que veio transferido de uma outra escola (porque ele “brigava demais”) e que se torna o seu companheiro de quarto – e, como Ned diz, ele é “o garoto que mudou tudo”. Esse início do filme traz sensações mistas, na verdade, e nos afeiçoamos a Ned quase que instantaneamente, e embora já estejamos amando, detestamos ver a maneira como ele é tratado pelo simples fato de que ele é gay e todo mundo sabe disso… as constantes demonstrações de homofobia que fazem com que Ned fique sozinho.

Não foi apenas Conor Masters, o bonito e popular jogador de rúgbi, que mudou as coisas na escola… com a morte do antigo professor de inglês, o Mr. Sherry assume essa posição, e ele é totalmente fora do convencional, e eu adorei. Ele é intenso, até um pouco assustador às vezes, mas apaixonado e motivador – ele é o tipo de professor por quem me apaixono, e foi impossível não se apaixonar por ele. Ainda mais em paralelo ao terrível, preconceituoso e quadrado treinador de rúgbi. O filme brinca com aquela velha dicotomia de artes e esportes. De um lado, temos o rúgbi, algo que a escola supervaloriza… de outro, temos um professor interessado no que está ensinando e para quem está ensinando, alguém que valoriza a literatura e a música… amei aquela cena do Mr. Sherry indo levar um livro ao dormitório dos garotos e ajudando Ned com o violão!

Mr. Sherry é um personagem complexo, e eu acho que é por isso que Ned, por exemplo, acaba se tornando seu fã… ele é legal na parte do violão, por exemplo, mas ele expõe Ned por ter usado a letra de uma antiga canção para “escrever” sua redação, mas talvez fosse algo de que Ned precisava, de qualquer maneira… afinal de contas, há quanto tempo que ele fazia isso e deixava o seu real talento de lado? E o professor utiliza esse momento para dar uma lição em toda a sala, e percebemos que existe muita pessoalidade quando ele pede, clama, que eles “não usem vozes emprestadas”, que eles “tenham suas próprias vidas”, afinal de contas: “Se vocês passarem a vida inteira sendo outra pessoa, quem vai ser você?” Eu até pausei o filme depois dessa frase, para que ela tomasse o tempo necessário para assentar. QUE ROTEIRO BEM ESCRITO.

Vários outros momentos provam isso… e, de quebra, ainda temos aquela dinâmica perfeita entre Ned e Conor. Inicialmente, Ned não acha que ele e Conor podem ser amigos, e detesta dividir um quarto com ele, tanto é que ele ergue uma espécie de “Muro de Berlim” entre eles – afinal de contas, Conor é um atleta e deve ser como cada um dos caras que sempre pegam no seu pé… ele não tem tempo para isso. Depois da aula do Mr. Sherry em que ele mostra a todos a música da qual Ned tirou sua redação, Conor fala de verdade com ele pela primeira vez, e aquela primeira interação entre as caixas que os separam é incrível, porque mostra o quanto eles não precisam nem estar perto para funcionarem incrivelmente bem. A maneira como Conor tenta mostrar que é mais do que Ned imagina e que realmente gostou da música, como está dizendo.

Inicialmente, Ned é fechado, uma medida de autoproteção que aprendeu com os anos… mas Conor parece estar sendo sincero, e então eles descobrem algo em comum: a música. É muito bom ver o “Muro de Berlim” cair, e ver como a amizade entre eles floresce – e talvez, inesperadamente, o filme seja mesmo sobre a amizade e não sobre o romance. Embora eles compartilhem uma química tão latente que eventualmente levará ao romance, inevitavelmente. É um pouco triste como Ned comenta que “não sabia o quanto era solitário até ter um amigo”, e é perfeito vê-los conversando, ver Ned dando um presente de aniversário a Conor, ver a maneira como Conor o ajuda a aprender a tocar o violão, e como eles compartilham um espaço antigo da escola cheio de vinis antigos que parece ser um lugar apenas deles… e o Mr. Sherry os incentiva a se escreverem para um show de calouros.

Amo vê-los ensaiando, tocando o violão e cantando juntos!

As coisas mudam depois de um jogo de Conor no qual ele leva o time à vitória, algo que a escola não está habituada, e o pai de Conor leva ele e os colegas de time para beber… no fim, Conor diz ao pai que vai pegar o trem de volta para a escola. Enquanto isso, Ned está em um cinema, vendo um filme que acaba sendo longo demais e, por isso, perde o ônibus de volta para a escola e também precisa pegar o trem… é quando ele vê Conor na rua e pensa em surpreendê-lo, mas acaba saindo surpreso ele, porque Conor entra em um bar no qual não o deixam entrar, um bar que, como ele descobre, É UM BAR GAY. Ou seja, esse tempo todo Conor também era gay e Ned não fazia ideia… para completar a PERFEIÇÃO que é essa cena do bar gay, vemos Conor lá dentro, encontrando um outro rosto conhecido… o do Mr. Sherry, que está ali com o seu próprio namorado.

Depois disso, a tensão sexual que paira no ar entre Conor e Ned durante o próximo ensaio para o show de calouros é PALPÁVEL, e a interpretação é incrível – como disse, os dois compartilham uma química quase inigualável! A maneira como Ned custa a se concentrar nos acordes, na voz ou na letra da música, porque tudo o que ele consegue é ouvir a voz de Conor e mal consegue conter o desejo de olhar para ele com curiosidade… com interesse. Ele quase fala que o viu entrar em um bar gay no dia anterior, mas acaba não tendo coragem, e então as coisas seguem como antes – pelo menos até serem tomadas pela pressão dos colegas de rúgbi, e o preconceito acentuado daqueles jovens imbecis que não aceitam o que é “diferente”. Um dos garotos do time, que descobre o motivo pelo qual Conor brigava tanto na antiga escola, ameaça Conor e o faz se afastar de Ned.

Aquele típico momento em que as coisas dão errado… e nós sofremos.

Ned acaba ficando sozinho no show de calouros, o que é uma injustiça sem tamanho, mas eu adoro como ele não fica necessariamente bravo com Conor… mas ele quer conversar com ele, não quer permitir que as pessoas o afastem do seu amigo sem ele lutar por isso. É quando ele acaba arrumando confusão com um dos babacas do time, leva um soco, e o Conor o manda embora, sem fazer nada para de fato ajudá-lo… naquele momento, Ned implora para que Conor “conte para eles”, e ele não está pedindo que ele conte para o time que é gay, como pode parecer e como Conor talvez tenha acreditado: ele só está pedindo que ele conte que eles são amigos, e não apenas companheiro de quarto. Mas é tarde demais, o Muro de Berlim volta a separá-los e, dessa vez, é uma iniciativa de Conor… é mais transponível que o de Ned, mas está ali de todo modo.

Perto do grande jogo final de rúgbi, então, Ned é forçado a “ensaiar a torcida” como os demais, e, naquele momento, no qual ele se recusa a cantar e é arrastado à frente por um babaca, para ser humilhado, ele deixa que algo tome conte de si e faz algo que pode não ter sido muito certo… mas, naquele momento, EU O ENTENDI. Aquela narração de Ned que nos dá uma visão para dentro de sua cabeça é um máximo, porque nos ajuda a entender o que ele está sentindo: por que ele é constantemente segregado e humilhado por ser gay, enquanto Conor, que é gay assim como ele, é idolatrado? Então, um pouco por raiva por causa da injustiça, outro pouco com raiva porque Conor abandonou a amizade deles, ele pega o alto-falante e diz que vai dizer quem é gay, e conta: “Conor Masters é gay”. No momento, ele ficou aliviado, se sentiu um máximo, mas enquanto é levado para fora do auditório, ele sabia que tinha feito merda.

Ou não.

Porque esse acaba sendo o chacoalhão que Conor e o próprio Mr. Sherry precisavam.

O diálogo da cena de Conor com Mr. Sherry, depois disso tudo, é um dos textos mais bem-escritos de todo o filme… o momento em que Conor o enfrenta e percebemos não o quanto eles são parecidos, mas o quanto eles são diferentes. Naquele momento, Conor está decidido e diz que não vai jogar a final, que “não pode fazer isso”, e fala sobre não mais mentir e sobre ser quem ele é… se, naquele dia da música, a lição do Mr. Sherry não era apenas para Ned, mas para todos, Conor sente que também era para ele: não falar com voz emprestada, não ser uma ovelha, não fingir ser quem não é… é quase um grito pela liberdade e um clamor por apoio, mas o Mr. Sherry também precisa assumir algumas coisas e enfrentar seus medos, e é perfeito como ambos fizeram a diferença na vida do outro mutuamente. O crescimento para o Mr. Sherry também é visível e recompensador.

Destaque, também, para quando o Mr. Sherry enfrenta o diretor quando ele vem falar sobre o rúgbi: Some boys don’t play rugby. What about those boys?

A cena de Conor e Mr. Sherry é fortíssima, certamente o ponto alto do filme, e Nicholas Galitzine e Andrew Scott entregaram tudo naquele momento, é de arrepiar. Depois disso, as coisas felizmente melhoram. Quer dizer, Conor desaparece e parece que não vai jogar mesmo a final e Ned é expulso da escola, mas as coisas melhoram… isso porque Ned foge dos pais para correr até onde sabe que Conor estará e para fazê-lo ir até a partida, não pelo treinador, não por seus colegas, mas por eles – Ned diz que “esse será o seu time se Conor estiver nele”. É terno, é fofo, e é de uma força incrível que Conor levante a cabeça e aceite quem ele é e que as pessoas vejam isso finalmente, sem medo… juntos, Conor e Ned enfrentam o treinador, ganham apoio dos colegas de time que, afinal de contas, precisam de Conor e entendem que ele é o mesmo que sempre foi.

O filme termina em uma excelente partida, com belos momentos para Conor, para Ned e para o Mr. Sherry, e é impossível não sorrir com esse final tão mágico… eu acho que faltou um beijo entre Conor e Ned, e meu coraçãozinho gay queria muito ver isso, mas eu entendo que a proposta do filme era muito mais sobre quem eles eram separadamente e como influenciaram um ao outro do que sobre um romance – o romance virá com o tempo, agora que tudo o que podia dar errado foi tirado do caminho, e o abraço final dos dois mostra isso claramente, e eu vibrei com aquele breve momento de contato direto dos dois. O filme é incrível! Além do carisma e das atuações brilhantes, o filme tem um roteiro incrível e uma bela mensagem… atualmente, o filme tem 83% de aprovação no Rotten Tomatoes, foi aclamado pela crítica e recebeu vários prêmios em festivais… certamente, um filme LINDO que precisa ser assistido e sentido.

Amei demais.

 

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