A Temperatura entre Você e Eu (Brian Zepka)

Quando o crush é “quente demais”.

Publicado em 2022, “A Temperatura entre Você e Eu” é o livro de estreia de Brian Zepka, que deve ganhar uma adaptação pela Disney+ em breve. Com um leve toque de ficção científica, o livro é a história de amor entre dois adolescentes com a temperatura corporal mais elevada do que o normal. Gosto muito do fato de “A Temperatura entre Você e Eu” ser um romance gay adolescente, mas não ser sobre a descoberta da homossexualidade: Dylan Highmark é um jovem gay que se assumiu há alguns anos e que, como a maioria dos adolescentes, sonha com um namorado… e, é claro, seus olhos parecem vidrados em Jordan Ator, o garoto mais lindo que ele já viu na vida, quando ele parece saído diretamente de um catálogo ou qualquer coisa assim e entra na Dairy Queen para pedir um sorvete e uma situação no mínimo inusitada se desenrola ali.

Gosto muito de histórias de descobertas, para dizer a verdade. Em “Aristóteles e Dante descobrem os Segredos do Universo”, por exemplo, vemos Ari descobrindo que pode estar apaixonado pelo seu melhor amigo, e ele demora para se dar conta disso; em “Heartstopper”, vemos Nick se descobrir bissexual quando se aproxima de Charlie. Esse tipo de história geralmente rende bons roteiros que conversam diretamente com os nossos sentimentos mais íntimos, como pessoas LGBTQIA+, porque é muito fácil de se reconhecer nos personagens e em seus dilemas… ainda assim, sinto que durante muito tempo as histórias gays foram sobre esse despertar, e “A Temperatura entre Você e Eu” é um romance menos crítico, talvez, mas traz um fator importante à história ao apresentar um protagonista gay sem que a sua homossexualidade seja o centro da narrativa.

Temos, aqui, uma típica história adolescente… não acho que Brian Zepka tenha criado um clássico, ou uma leitura imperdível do gênero nem nada assim (deixo esse título a autores como David Levithan), mas ele brinca bem com elementos que funcionam na ficção, como superpoderes, a luta pela sobrevivência e a tentativa de se viver um grande amor. Dylan Highmark é um adolescente comum e com uma vida boa: ele tem as mesmas melhores amigas há, sei lá, uns 10 anos ou mais, e consegue passar despercebido na escola na maior parte do tempo, e tenta não reclamar demais… mas, como todo adolescente, ele reclama; e deseja coisas que não têm. Sua vida muda totalmente com a chegada de Jordan Ator, um garoto misterioso, mas extremamente bonito, que aparece no seu trabalho um dia, explode um sorvete e tenta escapar sem explicações…

Ninguém pode julgar Dylan por segui-lo.

Gosto de como se desenvolve a relação entre Dylan e Jordan – e devo admitir que Brian Zepka fez com que eu me sentisse adolescente outra vez. Dylan está naquela fase em que ele é meio que “dominado” por seus hormônios, ele age sem pensar, e o seu corpo está lhe mandando uma mensagem muito clara: ele tem que se aproximar daquele garoto. As primeiras interações de Dylan e Jordan funcionam muito bem, e nos vemos no lugar de Dylan, esperando que Jordan, em algum momento, explique as dúvidas que começam a surgir a partir de suas interações, como aquele sorvete que explodiu misteriosamente ou o fato de que Jordan parece ser “mais quente” que o normal. Parece bem direto, e talvez um tanto quanto simplista, mas minha parte adolescente adora o fato de Jordan ser obsessivamente descrito como “quente”, sabendo que isso significa mais do que uma coisa.

Com Jordan Ator em sua vida e o plus de ele querer entender o motivo de ele ser tão quente, Dylan não consegue pensar em outra coisa… e começa a tentar encontrar o garoto dos seus sonhos novamente. Ele tem perguntas a fazer… e ele não pode deixar de notar, por exemplo, a barriga definida dele quando ele levanta o moletom para limpar o rosto da bagunça do sorvete. E, quanto mais se aproxima de Jordan, mais sua vida parece mudar, até o momento em que o que quer que esteja acontecendo com Jordan também começa a acontecer com ele – amo a sequência em que Jordan inadvertidamente acaba passando seus “poderes” para Dylan, e Dylan passa algumas horas ardendo em febre, trancado no banheiro de Jordan, tentando entender um pouco do que está acontecendo, se perguntando como poderá voltar para casa naquelas condições.

A ideia de “A Temperatura entre Você e Eu” é a de um casal de adolescentes que se aproximam e se apaixonam, mas precisam lidar com mais do que isso: superpoderes causados por experimentos realizados por cientistas em uma empresa chamada Hydro Pro. Jordan e Dylan precisam entender a si mesmos enquanto se aproximam, se conhecem e desenvolvem uma relação, ao mesmo tempo em que escapam da Hydro Pro, cujos carros prateados parecem segui-los aonde quer que eles vão… então, todo e qualquer encontro entre eles é marcado por certa tensão, porque eles estão o tempo todo precisam fugir de pessoas que querem pegá-los para transformá-los em ratos de laboratório, e eles precisam guardar esse segredo de todos ao seu redor, se não quiserem colocar mais pessoas em perigo… Jordan já se culpa demais pelo que fez a Dylan.

É interessante a ideia de Dylan ter que aprender a lidar com as transformações em seu corpo. Aparentemente, ele passa a ser constituído mais por hidrogênio do que por oxigênio, o que o leva a questionar exatamente quem ele é agora… então, o livro ainda traz um processo de descoberta, de alguma maneira. Enquanto Jordan parece ter poderes relacionados ao calor e a chamas (incêndios são recorrentes em “A Temperatura entre Você e Eu”), Dylan lida com alguns poderes semelhantes, mas que não são o seu poder mais notável: ele também pode flutuar no ar… o que é um grande incômodo, na verdade, porque ele ainda não sabe como controlar esses poderes, e eles surgem nos momentos mais inoportunos, quando ele está muito agitado, nervoso ou estressado, por exemplo, e não é algo que ele pode esconder com facilidade se acontece no meio da escola.

Mas nada importa a Dylan se ele estiver com Jordan… gosto do romance entre eles, gosto de todo momento fofo que eles compartilham, gosto de como Brian Zepka consegue traduzir esses sentimentos adolescentes que nos remetem ao primeiro amor e à primeira vez em que sentimos uma conexão especial com outra pessoa. Como vemos Jordan apenas pelo olhar de Dylan, que certamente é um narrador não-confiável, nos apaixonamos com muita facilidade por ele: ele é estonteantemente belo e de tirar o fôlego, mas ele também é educado e gentil, sendo o que Dylan chama de “namorado perfeito”. Ou quase, tendo em vista que ele também está causando alguns incêndios pela cidade (ele não pode controlá-los, e escolhe lugares não habitados para isso, ao menos), colocou a vida de uma amiga de Dylan em perigo (mas também se arriscou para salvá-la) e pode o estar matando…

Isso é o que Jordan acredita, ao menos – embora eventualmente descubramos que não é verdade. A razão de Jordan se sentir tão culpado por ter transferido seus poderes a Dylan, algo que ele nem sabia que era capaz de fazer, é que ele acredita que essas transformações no seu corpo o estão conduzindo à morte, e ele não queria ter feito o mesmo a Dylan. Eventualmente, então, depois do que era para ser o encontro mais perfeito de Dylan e Jordan (e o beijo mais apaixonado), Jordan acaba desaparecendo… ele deixa Dylan sob os cuidados de uma médica em quem confia, a Dra. Ivan, e some sem deixar nenhum contato, achando que assim vai conseguir impedir que as pessoas da Hydro Pro venham atrás de Dylan também. E, naturalmente, Dylan sofre com a ausência do namorado e, particularmente, eu o entendo. Queria que eles tivessem mais tempo juntos.

Uma boa parte do livro acontece sem o Jordan.

Uma das relações mais bonitas de “A Temperatura entre Você e Eu” é a de Dylan com suas melhores amigas: Kirsten e Perry. Há tanto amor, cumplicidade e confiança entre eles, que um dos dramas principais do livro vem justamente quando Dylan começa a esconder coisas dela… com a sua “transformação”, o segredo de Jordan que ele não pode compartilhar e a perseguição da Hydro Pro, Dylan acaba entrando em um mundinho só seu e se fechando perigosamente, enquanto as amigas fazem de tudo para entender o que está acontecendo com ele… afinal de contas, eles se conhecem desde sempre e sempre contaram tudo uns aos outros! É bonito ver como a preocupação é genuína e, principalmente, como Kirsten e Perry “esquecem” tudo rápido quando Dylan finalmente resolve compartilhar com elas as informações e elas percebem que ele precisa de ajuda.

Também acho interessante a personagem de Savanna. Savanna é rica, esnobe, potencialmente maldosa e deve ter feito o Dylan sofrer em muitas ocasiões durante a vida… é muito difícil gostar dela inicialmente, e as coisas que vamos descobrindo não chegam a anular os seus maus-feitos, mas, assim como Dylan, aprendemos a olhar para Savanna de uma maneira diferente, e a maneira como ela parece se transformar conforme abaixa um pouco sua guarda e deixa que Dylan se aproxime é bacana. Aos poucos, Dylan vai percebendo que Savanna é mais complexa do que ele imaginava, e pode estar enfrentando problemas que ele desconhece, e conforme ele se aproxima e a mostra que ela pode confiar nele, descobrimos a possibilidade de uma nova Savanna – no fim de “A Temperatura entre Você e Eu”, ela está perfeitamente integrada ao grupo, depois de tudo!

E é lindo!

Acho que “A Temperatura entre Você e Eu” infelizmente peca demais em seu clímax… temos uma construção crescente que envolve os poderes dos meninos, a investigação de Kirsten, os incêndios pela cidade e os segredos da Hydro Pro – mas isso tudo culmina em uma conclusão que me parece um pouco simplista demais; eu estava esperando por algo mais grandioso e/ou mais impactante. Dylan planeja uma invasão à Hydro Pro com as amigas, que acontece de maneira muito mais fácil do que o esperado, e ele se depara com algumas verdades escutando uma conversa da Dra. Ivan com um dos cientistas do projeto, que era o homem que passou o livro todo o perseguindo, mas que Dylan descobre agora (como desconfiamos) que, na verdade, só queria chegar até ele para que eles pudessem conversar… aparentemente, ele sempre esteve do lado deles.

É simples, batido, um pouco desanimador, confesso.

Conveniente demais.

E, então, esperamos ansiosamente pelo reencontro de Dylan e Jordan. Depois de descobrir que na verdade eles nunca estiveram morrendo, Dylan envia uma carta para Jordan para contar sobre isso e sobre como a base da Hydro Pro na cidade pegou fogo e eles estão sendo investigados, e passa a assumir turnos extras na Dairy Queen na esperança de que, em algum momento, Jordan Ator volte a passar por aquela porta, exatamente como ele fez da primeira vez, no dia em que Dylan o viu pela primeira vez e ele se apaixonou no mesmo instante… e é romântico que Jordan faça exatamente o que Dylan espera, no fim das contas: ele aparece ali, depois do fim do expediente, para um reencontro apaixonado, cheio de amor e com direito a mais um sorvete explodido – dessa vez, no entanto, isso é resultado do agito de Dylan, e não de Jordan.

Gostaria de tê-los visto mais juntos.

Infelizmente, não posso terminar meus comentários sobre o livro sem fazer uma crítica à edição brasileira. A sensação, ao ler o livro, era de que ele tinha sido traduzido às pressas para agilizar uma publicação nacional e, então, o livro não passou por uma revisão mais rigorosa que era necessária. Existem alguns erros de tradução (“Isso não pode ‘ser’ acontecendo”, por exemplo), mas, mais do que isso, existem erros grotescos de concordância ou de organização textual que me incomodaram bastante – pode não ser um grande problema para alguns leitores, e eu não acharia que era se não fossem tão constantes, mas é algo que me fez parar por alguns segundos toda vez que acontecia e, consequentemente, isso quebra a imersão. É necessário que a edição publicada pela Buzz passe por uma revisão urgente antes das possíveis/prováveis futuras impressões.

Minha opinião final sobre “A Temperatura entre Você e Eu”? Eu gostei de ler o livro, e estou satisfeito por tê-lo feito antes da estreia na Disney+, quando provavelmente a obra ganhará mais destaque e comentário por todo lugar. Brian Zepka faz uma boa estreia na literatura; embora não extraordinária, eu voltaria a ler um livro do autor. Um de seus protagonistas pode ser cansativo e um pouco pedante, às vezes, e o outro é exageradamente idealizado, a ponto de nos perguntarmos se ele é real; no entanto, o livro consegue construir uma boa história de primeiro amor e deixar transparecer a ideia de desejo que tem a ver com os hormônios à flor da pele, característicos da idade, principalmente através da narrativa de Dylan. Talvez eu esperasse mais da promessa de ficção científica da proposta, mas isso não quer dizer que não é uma aventura bacana!

 

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