Codinome Daniel
Anatomia do Amor.
Existem
experiências que te tocam para sempre… “Codinome
Daniel” é uma delas. O musical, apresentado no Núcleo Experimental em São
Paulo, acompanha a vida e a luta de Herbert Eustáquio de Carvalho, de 1971,
quando ele estava sozinho em um aparelho, escondido como uma das pessoas mais
procuradas pela Ditadura Militar no Brasil, até 1992, quando ele morre em
decorrência da AIDS – o musical traz, com sensibilidade, verdade e força, a
realidade sangrenta de um período vergonhoso na história de nosso país e
relações forjadas durante a luta armada contra um regime ditatorial, bem como
toda a luta do ativista Herbert Daniel contra a homofobia e a
heteronormatividade, responsável por preconceito, desinformação e descaso
durante a epidemia de AIDS no Brasil.
Algumas
vezes na vida temos a oportunidade de dizer que vemos algo que nos transforma.
Quando eu deixei, talvez a contragosto, o teatro depois de assistir “Codinome Daniel”, eu senti que eu
jamais seria o mesmo… a força da vida e da história de Herbert Daniel, contada
de maneira tão humana e intensa em um musical maravilhoso mexeram comigo de
maneiras indizíveis. Não me lembro de já ter chorado tanto enquanto no teatro e aquelas lágrimas minhas
alinhadas com a sensação de justiça por termos histórias como essa sendo
contadas lavaram a minha alma. Saí
tentado a dizer que “nunca assisti a um musical tão bom e importante antes”, e
com vontade de gritar ao mundo para que vão e vejam… uma história curiosamente atemporal, porque PRECISAMOS falar sobre
o assunto.
Precisamos
estar atentos e vigilantes para que algumas coisas não se repitam.
Herbert
Eustáquio de Carvalho – ou Herbert Daniel, como ele ficou conhecido mais tarde,
assumindo o “codinome” que ele utilizava durante o período de luta armada – é
uma figura importantíssima tanto na luta contra a Ditadura Militar, tendo
participado de várias organizações, como a POLOP, a VAR Palmares e a VPR e sido
o último exilado do regime a receber a anistia e retornar ao Brasil, quanto
para a comunidade LGBTQIA+, na sua luta contra o preconceito e pela vida. James
N. Green, historiador e brasilianista norte-americano, escreveu a biografia “Revolucionário e gay: A extraordinária vida
de Herbert Daniel – Pioneiro na luta pela democracia, diversidade e inclusão”,
publicada em 2018, que, de certa maneira, torna esse musical possível…
“Codinome Daniel” é uma produção do
Núcleo Experimental e é, atualmente, conhecido como o terceiro musical da
Trilogia Para a Vida – que conta com “Lembro
Todo Dia de Você” e “Brenda Lee e o
Palácio das Princesas” anteriormente. Zé Henrique de Paula é o responsável
pela dramaturgia, letras e a direção do musical, enquanto Fernanda Maia cuidou
da música original e da direção musical, além de ser a pianista da atual (e
curtíssima) temporada. O elenco, encabeçado pelo talentosíssimo e absurdamente
carismático Davi Tápias, no papel de Herbert Daniel, conta também com Luciana
Ramanzini, Fabiano Augusto, Robson Lima, Bruna Guerin, Cleomácio Inácio, Renato
Caetano e Fábio Enriquez, e são eles que dão vida a essas pessoas, sentimentos
e histórias.
São tantos
temas e tantas camadas em “Codinome
Daniel” que eu sinto que poderia assisti-lo quantas vezes fossem possíveis
e ainda descobrir detalhes e me emocionar a cada nova sessão… a história começa
nos apresentando a Herbert em uma interação com a família no que julgamos ser a
sua casa, para depois entendermos que ele já está isolado em um aparelho, sem
qualquer tipo de companhia, porque ele é uma das pessoas mais procuradas pelo
regime. Todo o primeiro ato de “Codinome
Daniel” acontece em 1971, e o seu isolamento forçado e a cabeça a mil dá ao
musical a liberdade poética de nos trazer “alucinações” de Daniel que revelam
trechos de sua vida, histórias da luta armada e dos absurdos do regime, pessoas
que ele conheceu e ao lado de quem lutou…
Isso nos
entrega uma das sequências mais bonitas, surpreendentes e avassaladoras do
musical, a partir da chegada de Wanda, uma companheira que ele não via há muito
tempo – e que não está vendo naquele momento, na verdade, porque ele percebe
que ela não está ali e que ela “caiu”. Uma vez que ele percebe isso, Wanda transforma a música dos dois, “Anatomia do Amor”, em uma reprise
angustiante chamada “Anatomia do Horror”,
na qual escancara os horrores enfrentados a partir do momento em que ela foi
pega pela Ditadura Militar, como tantas pessoas que “caíram” durante a luta. A
dor na descrição das torturas que enfrentou e a força descomunal que foi
necessária para que ela não quebrasse e não
revelasse nenhum nome em nenhum momento são abismais.
E, então, o
musical dá um passo à frente ao nos revelar quem
é essa mulher, e ainda me arrepia lembrar desse momento em que, tomado por
lágrimas, eu percebi a grandiosidade destemida do que eu estava assistindo.
James N. Green, o biografista de Herbert Daniel, é transformado pelo musical em
um personagem/narrador que segura a nossa mão e nos ajuda a encaixar as peças, e é ele quem nos
chama a atenção para essa amizade forjada na clandestinidade, em organizações
da luta armada contra a ditadura, e como “Daniel” e “Wanda” se chamaram, o
tempo todo, por seus codinomes, sem saber quais eram seus nomes de verdade
naquela época… Daniel, como sabemos, é o Herbert Eustáquio de Carvalho; já
Wanda, como descobrimos, é Dilma Rousseff.
Não posso sugerir que eu tenha “adivinhado” que se
tratava de Dilma antes de James N. Green fazer sua interferência, mas todo o
trecho de Wanda já tinha me feito pensar nela e em tudo o que ela sofreu em um
regime que algumas pessoas têm a desfaçatez de pedir de volta, ou cujos
horrores negar. É por causa dessas pessoas que SE PRECISA FALAR SOBRE A
DITADURA MILITAR, porque urge que essa história não se repita… e o país caiu,
na última década, em um flerte preocupante com o fascismo em um governo de
direita que defende os absurdos do
regime instaurado a partir de um golpe em 1964. “Codinome Daniel” ainda traz outras figuras históricas da luta
armada contra a Ditadura Militar e que fizeram parte da vida de Herbert, como
Carlos Lamarca, Iara Iavelberg e Zequinha Barreto.
A vida de
Herbert Daniel dá uma guinada talvez inesperada por ele mesmo ainda naquele
aparelho. Herbert passou muitos anos de sua vida querendo amar e ser amado… todo o preconceito de uma sociedade
heteronormativa pesa sobre um homem homossexual que nos entrega algumas cenas
brilhantes ainda durante o primeiro ato, com uma humanidade gigantesca –
dúvidas, angústias e medos nos quais nós, enquanto comunidade LGBTQIA+, nos
reconhecimentos dolorosamente. A chegada de Cláudio Mesquita inusitadamente
transforma o aparelho símbolo de solidão em uma “Vizinhança do Amor”, e a intervenção de James N. Green que nos
conta que eles viverão os próximos 20
anos como um casal faz com que respiremos aliviados durante o intervalo…
O segundo
ato do musical cobre a vida de Herbert Daniel até sua morte em 1992, e a sua
relação com Cláudio é uma das coisas mais lindas de “Codinome Daniel”… inicialmente, é algo calmo e que notadamente
demora a engrenar, e eventualmente se torna algo tão belo e essencial que é
quase como se não pudéssemos ver um sem o outro – o amor incondicional é tão
imenso e tão verdadeiro que os dois entregam algumas das cenas mais
emocionantes do musical juntos. Os dois conseguem fugir do Brasil e exilar-se
em Portugal e na França, e demoram a retornar porque a anistia de Herbert só vem
muito tardiamente, e Herbert passa muitos anos vivendo com o diagnóstico de
AIDS, sendo ignorado por um governo conservador e lutando contra o preconceito
de todas as formas possíveis.
“Codinome Daniel” explora o estigma
sobre a comunidade e sobre o paciente com AIDS, a falta de uma política pública
de saúde ou interesse mesmo das
autoridades em trazer para o país remédios contra a doença e pincela a história
dos comissários de bordo que foram tão importantes na década de 1980 trazendo
AZT dos Estados Unidos para pacientes no Brasil, mesmo que o remédio fosse
propositalmente não autorizado por aqui. Herbert Daniel foi um ativista ávido
que lutou para ser visto e que falou sobre VIVER, mais do que “sobreviver”. O
musical tem um texto poderoso que é sustentado com vida e propriedade por Davi
Tápias, quando ele faz um discurso de conscientização no Pela Vidda, corrigindo
mentiras que incentivavam o preconceito contra pessoas com AIDS.
Somos
conduzidos e arrebatados, por fim, pelo último aniversário de Herbert Daniel,
em dezembro de 1991, ao lado da família e do amor de sua vida – essa é, talvez,
a expressão da complexidade, do cuidado e da maestria de “Codinome Daniel”, que consegue entregar uma sequência absurdamente
linda e emocionante que é triste, sincera e ocasionalmente engraçada. Os atores
estão todos envolvidos de tal forma com aqueles personagens e aquele momento
que você sente que também está convidado àquele jantar e àquele “amigo secreto”
na casa da família, no qual você ri, você se emociona e você chora (no meu
caso, descontroladamente). A força e a sensibilidade daquele “Parabéns” fecha o musical como a
obra-de-arte importante que ele é.
Embora já
mencionados anteriormente no texto, destaco aqui obras que sentimos a vontade
de conhecer ao fim de “Codinome Daniel”
para nos aprofundarmos em sua história: a biografia “Revolucionário e Gay”, de James N. Green, para saber mais detalhes
sobre a vida e luta de Herbert Daniel, e os musicais “Lembro Todo Dia de Você” e “Brenda
Lee e o Palácio das Princesas”, para conhecer mais do trabalho do Núcleo
Experimental em obras que falam sobre a comunidade LGBTQIA+ e a luta contra o
HIV/AIDS. Também trago, ainda, “Anos
Rebeldes”, minissérie brasileira de Gilberto Braga, de 1992, que ajuda
muito a entender a luta armada contra a Ditadura Militar, e a recente “Máscaras de Oxigênio Não Cairão
Automaticamente”, que se aprofunda na história dos comissários que
trouxeram AZT para o Brasil.
“Codinome Daniel” é INTENSO.
Revolucionário, como o título da biografia de Herbert Daniel sugere, o musical
capta a sua urgência pela vida, sua humanidade – seus anseios, desejos e
angústias. É uma história sobre a Ditadura Militar, sobre a luta armada e a
revolução, sobre o preconceito da nossa sociedade, sobre a epidemia de AIDS no
Brasil nas décadas de 1980 e 1990 e, acima de tudo, sobre pessoas. Pessoas que vivem, que sentem, que lutam, que amam… e que
querem ser amadas. Ter estado no teatro não para assistir, mas para VIVER “Codinome Daniel” é uma alegria imensa…
e embora o musical tenha estreado em 2024 e tenha uma temporada curtíssima
agora em 2026, eu desejo a ele todo o sucesso que sua grandiosidade merece e
demanda.
Poderoso,
necessário… e imperdível!
Para mais
musicais, visite nossa Página.







Esse musical é poderosamente profundo e inesquecível ❤️
ResponderExcluirNossa, esse musical é INCRÍVEL! Pena que a temporada de 2026 foi tão curta e terminou ontem...
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