O Filho de Mil Homens (2025)

“O amor estraga tudo ou é espera?”

DOR, BELEZA E POESIA. Com direção e roteiro de Daniel Rezende e baseado no livro homônimo de Valter Hugo Mãe, “O Filho de Mil Homens” é um belíssimo e intenso filme brasileiro que foi lançado na Netflix em dezembro de 2025, contando a história de um pescador solitário que se diz “um pai sem filho que busca um filho sem pai”, e acaba encontrando muito mais do que isso… “O Filho de Mil Homens” é uma obra sobre cicatrizes, convergências e pertencimento, conduzido com inteligência maestra em suas antagonias: de um lado, a brutalidade cruel de um mundo adoecido de tantas formas; de outro, a sensibilidade e a pureza que se apresentam como alternativa. Não como escapismo ou como utopia, mas como possibilidade real de encontros significativos.

No elenco, temos Rodrigo Santoro dando vida a Crisóstomo, o primeiro protagonista dessa história e que é um símbolo por si só. A ele, se unem o pequeno Miguel Martines como Camilo, um filho sem pai que é “entregue” aos cuidados do pescador; Rebeca Jamir como Isaura, uma mulher com um trauma em seu passado e um casamento sem sentido em seu presente; e Johnny Massaro como Antonino, um rapaz sensível, incompreendido e rejeitado dentro da própria casa, buscando um lugar no mundo no qual ele possa existir. Suas histórias são, inicialmente, peças de um quebra-cabeças que custam a se encaixar, mas, quando o fazem, revelam sem pudor a magnitude dessa imagem completa, a grandiosidade admirável dessa obra.

Qualidades técnicas inegáveis engrandecem ainda mais “O Filho de Mil Homens”: além do roteiro, da direção e das atuações, a ambientação, as cores, a trilha sonora… tudo contribuem para a construção de algo que impacta e marca a audiência. Há um quê de melancolia alinhado à poesia que fascina, e um envolvimento característico da literatura na prosística da narrativa visual que é dividida em partes. Os recortes que se sucedem e cujo poder de se complementarem só se revela mais tarde conferem ao filme um tom quase contemplativo. Por muito tempo, eu me permiti sentir e interpretar cada uma daquelas histórias, sabendo que, mais cedo ou mais tarde, elas convergiriam, e ainda que conscientemente eu soubesse disso, o efeito catártico é quase inesperado.

A primeira parte da história é protagonizada por Crisóstomo. Sua estranheza peculiar chama a atenção, afasta pessoas da vila que, se tivéssemos a chance de conversar com elas, adorariam falar sobre “normalidade” e se vangloriar dessa limitação ridícula imposta de fora para dentro e seu conformismo não-reconhecido, e, curiosamente, encanta o espectador. A representação de uma companhia em uma vida “isolada” na forma de um boneco é um artifício eficiente e conhecido do audiovisual: temos o Wilson em “Náufrago”, por exemplo, ou o próprio tigre em “As Aventuras de Pi”. Aqui, o boneco-ainda-sem-nome é uma figura que “sempre sorri de volta” e que vai gradualmente se tornando obsoleto a partir do momento em que Crisóstomo recebe companhia…

Camilo é um garoto órfão, foi encontrado sozinho com o corpo do avô morto na casa em que vivia, tendo passado sabe-se lá quantos dias se alimentando apenas de atum enlatado – e alguma coisa, que você pode querer chamar de “destino”, leva até a mulher que o encontrou o bilhete em papel azul no qual Crisóstomo dizia: “Pai sem filho busca filho sem pai”. É exatamente o que Camilo é. A relação dos dois nasce de pequenas interações como um pedido por geleia de jabuticaba ou uma bola lançada para lá e para cá, e ambos se reconhecem de algum modo: o desejo compartilhado por companhia e por uma relação de pai-e-filho, a necessidade de proteção… e, assim, Crisóstomo começa a construir uma família que vai além do que é conservadoramente definido como “tradicional”.

A segunda parte da história nos apresenta a Francisca e, com ela, aos arredores da casa afastada na qual Crisóstomo mora. Se aquele lugar dele é um refúgio distante e, a cada momento se torna mais um santuário, essa divisão do filme começa a escancarar os horrores da vila próxima, e nessa vila reconhecemos o mundo no qual vivemos… é um contraponto crescentemente chocante a cada nova história que se desvela. Francisca, uma mulher com nanismo, é tratada por um trio de vizinhas fofoqueiras como incapaz, em uma demonstração clara de preconceito que é fantasiado de “cuidado” e “preocupação”. Grávida, mas sem saber quem é o pai do filho que espera, Francisca dá à luz sem qualquer apoio familiar e morre no parto, nomeando seu filho “Camilo” antes de morrer.

A terceira parte nos apresenta a Antonino, um jovem descrito como “delicado” e “sensível” como se essas fossem características indesculpáveis para um homem. Antonino se reconhece diferente e desvenda sua identidade e seus desejos, o que é visualmente representado em uma montagem profundamente dolorosa na qual ele vê outros homens pelados e é descoberto e espancado. A violência, no entanto, não é apenas física – e a violência psicológica e contínua dentro da própria casa é a mais traumatizante e duradoura. A convivência com uma mãe religiosa que o fiscaliza, o julga e o renega faz com que ele viva com uma sensação de medo e de vergonha constante… sentimentos que não são naturais e que lhe foram impostos pela tentativa de apagamento.

Por fim, conhecemos Isaura, uma garota que não sabe se “o amor estraga tudo”, como diz a mãe, ou se “o amor é espera”, como diz o pai. De casamento marcado com um infeliz que se aproveita de sua inocência, ela é abusada primeiro pelo namorado/noivo e, depois, pela mãe que quer “verificar se ela ainda é virgem”. A dor se materializa e se perpetua em seu rosto e em seu silêncio nos anos seguintes, e ela se fecha dentro de si mesma, confinada em um lugar do qual ela jamais poderia se libertar enquanto estivesse naquela casa. Isaura é forçada a se casar com Antonino porque, segundo a família, “um marido maricas é melhor do que nada”, e eles vivem sob aquela ideia antiga de que ela foi “desonrada” e que, portanto, “nenhum homem a vai querer”.

Eventualmente, as histórias convergem. São quatro (cinco?) histórias poderosas por si só que são reunidas para falar sobre acolhimento. Tudo o que cada uma daquelas pessoas nunca teve e/ou encontrou na “sociedade tradicional”, representada pela vila, eles encontram naquele refúgio oferecido por Crisóstomo, com toda a sua simplicidade, generosidade e sinceridade. Ele não planeja nada… ele simplesmente está ali e é o que é. É a humanidade em sua forma mais pura e honesta. Não a humanidade como sinônimo de “todos os seres humanos da Terra”, mas a humanidade como um conceito de ideal, como uma forma de se portar perante outro ser humano… é mais do que empatia: é a capacidade de amar. E isso tudo tem uma atmosfera de esperança bem-vinda no mundo em que vivemos.

Infelizmente, esse tipo de história sempre será atual.

Camilo é um personagem importantíssimo para exemplificar essa mensagem e essa travessia de “O Filho de Mil Homens”, como fruto de tudo o que veio antes dele… sua reação a Antonino na casa do pai não vem de algo inerente a ele, como ambas as cenas dos churros provam, mas como algo que foi deliberadamente ensinado a ele. O preconceito não é próprio do ser humano… ele é socialmente construído e propositalmente preservado. Seu ato de homofobia, que nos pega de surpresa e nos revolta e angustia, é imediatamente repreendido por Crisóstomo e posteriormente contextualizado pela criação de um avô homofóbico que imputou preconceito dentro da mente de uma criança, e contou uma história sobre “um garoto que cresceu sozinho em uma caverna”.

Ironicamente, o “garoto que cresceu sozinho em uma caverna” era o próprio Crisóstomo, e o filme nos surpreende com a amplitude de sua abrangência, e nos permite entender muito sobre a sua reclusão e seu comportamento de modo geral. É perversamente curioso como as histórias, como a contada pelo avô de Camilo, colocam a culpa de o garoto ter crescido sozinho na mãe, que chamam de “perdida” por ter relações com outra mulher, mas não no grupo de pessoas que a perseguiu, a condenou, a amarrou, a assassinou em praça pública e a deixou pendurada para que o seu filho, uma criança, a encontrasse… não é o tipo de discurso que Crisóstomo vai querer que seu filho, Camilo, reproduza – e ele começa a contornar isso com tamanho cuidado, delicadeza e sabedoria…

A segunda cena dos churros é lindíssima e ecoa na cena final do filme.

Porque o filme termina com uma nova família formada: Crisóstomo, Camilo, Isaura e Antonino. Talvez não seja “tradicional”, mas é muito mais forte e mais real do que tantas outras… a chance de escolher quem queremos ao nosso lado é muito mais significativa do que qualquer coisa imposta por “sangue”. Crisóstomo chama Camilo de “seu filho” orgulhosamente; ele e Isaura vivem uma relação que é verdadeira ao que sentem, independente e despreocupada com qualquer julgamento externo; Antonino encontrou e escolheu um lugar no qual ele não é só visto, mas aceito, entendido, acolhido. A cena de Camilo pedindo desculpas a Antonino e correndo para abraçá-lo me fez chorar bastante, talvez seja a mais linda do filme, mas principalmente porque é o ápice de tudo o que foi construído até ali.

E, então, Isaura e Crisóstomo se unem àquele abraço, como a família que se tornaram.

“O Filho de Mil Homens” é LINDÍSSIMO, do início ao fim.

 

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