O Telefone Preto 2 (Black Phone 2, 2025)

“You of all people know that ‘dead’ is just a word”

Dirigido por Scott Derrickson, que também é responsável pelo roteiro ao lado de C. Robert Cargill, “O Telefone Preto” estreou em 2021 e foi um sucesso de crítica e público, se tornando um dos filmes mais comentados de 2022, quando ele chegou de fato aos cinemas depois da estreia prévia em festivais, e eu confesso que o anúncio de uma sequência me pegou desprevenido e pode ter me deixado apreensivo, porque “O Telefone Preto” é um filme excelente e redondinho que encerra a história de Finney Blake, um garoto de 13 anos que é a última vítima de um serial killer conhecido como “O Sequestrador”, e que recebe a ajuda de suas vítimas anteriores através de ligações misteriosas em um antigo telefone preto desconectado há muito tempo.

A mesma equipe criativa do primeiro filme retorna para “O Telefone Preto 2”, e se o primeiro é a adaptação do conto homônimo de Joe Hill, essa sequência parte de uma ideia original do mesmo autor, e é uma grata surpresa. Quatro anos se passaram desde que Finney Blake matou o Sequestrador e escapou, e agora ele e a irmã são “levados” para o Acampamento Alpine Lake, onde a mãe trabalhara como conselheira há muitos anos, em uma trama sobrenatural, íntima e emotiva que envolve passado, vingança e traumas. Meu maior elogio a “O Telefone Preto 2” talvez seja o fato de que ele se sai incrivelmente bem (é um filme excelente!) sem precisar ser uma repetição da fórmula do filme original… é de fato uma sequência que expande a história, os personagens e o universo.

Mason Thames retorna para o papel de Finney, agora como um adolescente de 17 anos que supostamente “não tem medo de nada”, mas que age de maneira fechada e possivelmente destrutiva como uma maneira de se proteger e de não deixar transparecer o quanto ele está com medo e o quanto ele está com raiva; Madeleine McGraw, por sua vez, retorna ao papel de Gwen, a irmã mais nova de Finney, agora em um papel de protagonismo como a garota cujos sonhos conduzem toda a narrativa; e Miguel Mora, que interpretara Robin no primeiro filme, o melhor amigo de Finney, agora interpreta Ernesto, o irmão de Robin. Por fim, Ethan Hawke retorna ao papel do Sequestrador e, dessa vez, ele é um espírito vingativo que revisita o seu próprio passado.

Como disse ao comentar “O Telefone Preto”, eu não considero nenhum desses dois filmes como terror, embora tenha uma pegada psicológica macabra e tensa que funciona muito bem. Os classifico como excelentes suspenses, que são escritos, dirigidos e conduzidos de maneira inteligente para criar sensações, angústias e tensões. Tudo trabalha harmoniosamente para um filme coeso, em roteiro, visual e som… é uma experiência completa. Gosto muito da trilha sonora, do uso de estática que caracteriza o contato entre os dois mundos e de como o estilo de filmagem dentro dos sonhos de Gwen são propositalmente diferentes da realidade para que saibamos exatamente onde cada coisa está acontecendo – mesmo quando diferentes planos compartilham uma mesma realidade.

O filme abre em 1957, nos apresentando a uma garota chamada Hope Adler atendendo a um telefonema no Acampamento Alpine Lake tal qual os telefonemas atendidos por Finney Blake durante o primeiro filme, e que agora ele vem ignorando enquanto pode… Hope é a mãe de Finn e Gwen, que morreu há sete anos e tinha as mesmas habilidades de conexão com o mundo dos mortos que seus filhos agora vivenciam. Gwen está sendo atormentada por sonhos de garotos mortos sob um lago congelado que parecem estar tentando lhe dizer algo ou, quem sabe, lhe pedir ajuda. O pedido de ajuda e o telefonema da mãe, que ela atende em um sonho, fazem com que Gwen tenha a certeza do que ela precisa fazer: ela precisa ir até o acampamento no qual a mãe trabalhara.

Gosto de quão intrincado é o roteiro e de sua astúcia em conectar pontas e justificar sua existência – ainda que “O Telefone Preto” seja uma excelente história fechada e independente, “O Telefone Preto 2” não soa desnecessário em nenhum momento. Os sonhos de Gwen colocam ela, o irmão e Ernesto no acampamento cristão do passado da mãe, que também é o passado do Sequestrador… Finn atende a um telefonema do Sequestrador que parece quase nostálgico, e sua ameaça de vingança e seu aparente poder nos revela a necessidade de uma conexão dele com Alpine Lake, de alguma maneira, e eles descobrem que o Sequestrador é o “Wild Bill”, alguém que trabalhara no acampamento e que fora responsável pela morte de três garotos ali há muito tempo…

Suas primeiras vítimas.

Há quatro anos, quando Finney Blake o matou depois do seu sequestro, o seu espírito ficou preso a esse mundo e retornou ao lugar onde tudo começou, e coisas estranhas têm acontecido no Acampamento Alpine Lake desde então. É o medo e o desejo de justiça que prende o espírito daqueles três garotos ao acampamento que também alimentam o espírito do Sequestrador, que atrai os Blake para aquele lugar como parte de um plano seu… agora, a missão de Finn e Gwen é ajudar a encontrar os corpos Felix, Cal e Spike, para que seus espíritos possam descansar em paz e, com isso, o Sequestrador/Wild Bill perca a sua força. E, para isso, eles precisam entender como funcionam os sonhos de Gwen Blake e quanto poder ela tem lá dentro: quem está no controle, afinal?

O filme explora toda a tensão da perseguição do Sequestrador, com o pé ainda mais enfiado no sobrenatural, mas ainda que tenhamos excelentes sequências de ação e pitadas de terror, que é um gênero paralelo ao suspense, a força do filme está na sua carga emotiva e tem muito de terror psicológico. O Sequestrador sempre mexeu com a mente de suas vítimas, e segue fazendo isso… ele revela a Gwen, por exemplo, que a mãe não se matara, como eles passaram todos esses anos acreditando que tinha acontecido: ela foi assassinada por ele, que fez com que a morte parecesse um suicídio, porque ela sonhara com o sequestro de um garoto que entregava jornais, e que foi uma das primeiras vítimas do Sequestrador. Agora, ele quer terminar o serviço

Uma das cenas mais impactantes do filme, a meu ver, é a cena na qual o pai de Gwen e Finney aparecem para levá-los embora daquele acampamento onde ficaram presos por causa de uma nevasca, e embora Finn esteja disposto a partir imediatamente, Gwen se recusa a sair dali, porque ela sente que ainda não cumpriu sua missão e precisa achar a encontrar o corpo daqueles garotos. É uma cena forte porque, curiosamente, explora muito da psique e do estado atual de Finn: há uma parte dele apavorada pela irmã e que quer protegê-la a qualquer custo e, por isso, não liga de ir embora sem se livrar do espírito de Wild Bill; mas também existe uma parte dele que sente raiva e sente medo, e é fortíssimo vê-lo admitir isso… que essas são coisas que ele sente o tempo todo.

E ele não quer mais precisar se sentir assim.

 

“Shut up! All right, you don't think I know it was real? You think I don't fucking know it was real? It's all I ever think about. All right, you don't... you don't know what it was like down there. Nobody fucking knows. All right, I was... I was so fucking scared. God, I don't want to be angry anymore. I don't want to be afraid anymore”

 

O clímax do filme é uma sequência eletrizante que acontece no gelo e é uma corrida contra o tempo, porque os corpos dos garotos mortos precisam ser encontrados antes que o Sequestrador consiga impedi-los, e é uma cena riquíssima para vários personagens, que desempenham diferentes funções… e o que Finney fizera no primeiro filme é feito agora por ele e por Gwen. É diferente, mas é talvez igualmente catártico. A ajuda de Gwen permite o retorno dos espíritos dos garotos que pediram sua ajuda desde o início do filme, e eles são a prova de que ela não está sozinha. E enquanto ela e os meninos enfrentam o Sequestrador em um plano espiritual, Finn o faz no plano físico, ao enfrentar com as próprias mãos uma força que não pode ver, mas sabe que está ali…

E muita coisa é despejada naquele momento.

“O Telefone Preto 2” é um filme excelente. É diferente de seu antecessor porque as propostas são diferentes e, como eu disse anteriormente, eu fico feliz que seja! O filme de 2025 é uma sequência competente que dá ainda mais corpo a seus personagens – tanto o Sequestrador, que ganha algo próximo a uma história de origem e um envolvimento prévio com a Família Blake, quanto Finn, em quem podemos ver as consequências dos eventos traumáticos que vivera há quatro anos – e mantém o estilo, o tom e, principalmente, a qualidade do primeiro filme. Não sei se existem mais histórias que se precise contar nesse universo, mas espero que, se isso vir a acontecer, tenhamos sequências que se preocupem tanto em se fazerem necessárias quanto essa se preocupou.

Um ótimo filme!

 

Para a review do primeiro “O Telefone Preto”, clique aqui.
Para outros filmes, clique aqui.

 

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