Ticket to Heaven – Ep. 02
A racionalidade da culpa.
Eu já
comentei isso na minha review do
primeiro episódio de “Ticket to Heaven”,
mas eu fico muito contente que essa história esteja nas mãos de UM HOMEM GAY
para ser contada – Aof entrega mais um episódio que equilibra intensidade e
sensibilidade em uma trama que está muito contida nos símbolos, nos olhares,
nos pensamentos que não precisam ser escancarados por falas, mas que se tornam
notáveis pela maneira que a história é contada e, além disso, pela maneira como
se conecta com o espectador e as vivências desse… a identificação do homem gay
que, na adolescência, descobriu o desejo ao observar um amigo e que foi aos
poucos desvendando esse sentimento e, quiçá, lidou com a mesma culpa que Tanrak
está lidando durante a reta final desse episódio.
Está se
tornando concreto para ele, e isso
intensifica tudo.
No episódio
anterior, Tanrak e Barth adormeceram na piscina abandonada da escola depois de
terem ido buscar os materiais de Barth que haviam sido espalhados ali, e
despertaram com um grupo de olhares que os julgavam pelo simples fato de eles
estarem ali, juntos. Nesse segundo episódio, a relação dos garotos se
intensifica a ponto de as pessoas começarem a se perguntar “quando foi que eles
ficaram tão próximos”, embora eles tenham a desculpa perfeita para tal
aproximação, uma vez que Barth foi colocado “sob a responsabilidade” de Tanrak
– e ele adora aproveitar essa proximidade e buscar meios para que eles estejam cada vez mais próximos, seja trocando de
lugar na aula com a desculpa de que não vê o quadro do fundo da sala, ou se
juntando ao coral.
Gosto de
toda e qualquer cena compartilhada pelos personagens, e gosto de como o
episódio parece mais calmo e deixa
que os personagens se aproximem – ainda que haja uma evidente passagem de tempo
quando eles estão ensaiando juntos. Barth se torna uma constante na vida de
Tanrak… acho bastante emblemática a cena na qual ele pede que Tanrak seja seu
tutor, mais porque quer passar tempo com ele do que qualquer outra coisa, e
como alguns conceitos são trazidos à tona ali para serem resgatados na reta
final do episódio, que é uma complexidade de sentimentos explodindo dentro de
Tanrak. Eles falam sobre o conceito de luxúria e desejo, e tentam desvendar
juntos um enigma sobre o qual eles permanecem pensando até que Barth chegue a
uma resposta.
Barth também
encontra uma maneira de estar sempre com Tanrak nas preparações para a festa de
Natal que se aproxima… ele precisa escolher um grupo ao qual se juntar, e ele
escolhe ser parte do coral e se impõe ali apenas
porque Tanrak está lá – embora ele tenha realmente uma voz boa o suficiente
para estar ali, e ainda algum talento ao piano, o que nos entrega algumas das
melhores cenas do episódio. Gosto da sensibilidade dos olhares durante os
ensaios, da maneira como as mãos se unem sobre as teclas do piano
ocasionalmente e com a desculpa perfeita para que Tanrak não precise se
esquivar, e de como há profundidade e intimidade na conversa sobre “a nota
favorita”. Também há muita força na letra da canção que eles ensaiam juntos…
Toda a
sequência final do episódio traz muitos momentos interessantíssimos, e passos
importantes para a narrativa… Tanrak já está mexido e pensando em Barth durante
todo o episódio, mas ele consegue não deixar isso em primeiro plano em sua
mente por muito tempo, até que não possa mais escapar do que está sentindo.
Barth aparece de surpresa sentado na ponta da sua cama para contar que
“descobriu a resposta para o enigma” e eles são flagrados e punidos não por
estarem fazendo nada de “errado”, mas por estarem acordado além da hora – acho
um tanto curioso que a punição deles seja justamente
passar mais tempo juntos e sozinhos, porque os dois são mandados para o
cemitério para anotar nomes de santos, e é o que eles fazem…
Antes de
retornar, no entanto, Barth quer escapar da escola e ir até o lugar ali na
frente que vende comida, e essa é uma das melhores cenas do episódio! Toda a
simbologia de o Barth pedir a ajuda de Tanrak para subir o muro e, depois,
estender a mão para ele, o convidando a ir junto, mas Tanrak escolhe ficar. Retorna a ele a conversa sobre luxúria,
sobre desejo e sobre lutar contra isso quando aparece. É o que ele tenta
fazer naquele momento, e é sobre muito mais do que “pular um muro do colégio”.
A cena se completa mais tarde, quando Barth retorna com comida que comprou
também para ele e o oferece, e ele não aceita inicialmente – mas ele aceita a
que já estava mordida por Barth, talvez justamente
por estar mordida por ele? Há sensualidade presente ali…
Na mordida,
no movimento da boca, na limpeza dos lábios sob o olhar atento de Tanrak.
A MENTE E O
CORPO A MIL!
A atuação de
Fourth é realmente espetacular
durante toda a sequência, e alinhada à direção do Aof, tudo é claro, evidente,
excitante e sufocante – estranhamente ao mesmo tempo. E Barth sabe o que está
fazendo… ele sabe o que está fazendo quando pede a ajuda de Tanrak para subir
ao muro e o faz abraçar suas pernas; ele sabe o que está fazendo quando limpa a
boca e provoca Tanrak com os lábios; ele sabe o que está fazendo quando mostra
um lugar para ele fazer xixi antes de eles retornarem e faz xixi ao seu lado. A
tensão rígida de Tanrak com Barth ali ao seu lado em um momento tão vulnerável, cada detalhe daquela
noite – as pernas, os lábios e a cintura de Barth – habitando sua mente e o
consumindo quando ele está deitado na cama, incapaz de pegar no sono…
É aparentemente
silencioso, mas tudo transmite a sensação de barulho e inquietação interna.
Talvez muitos de nós já estivemos ali na posição de Tanrak naquela noite.
Quando ele fecha os olhos e a mão escorrega para dentro da calça, visões de
Barth tomam conta dele; quando ele caminha até o banheiro, ele tem dificuldade
para andar e segura a calça, afastando-a do corpo levemente, e sabemos por quê;
quando ele joga água fria no rosto, nós sabemos que os pensamentos e o desejo
não vão embora com ela; e, no fim, o próprio Tanrak sabe disso, e é por isso
que ele caminha em silêncio e com os ombros pesados de culpa para dentro de uma
cabine onde ele pode fechar a porta e estar sozinho com seus pensamentos e com
seu desejo sem que ninguém o veja…
Sem que ninguém o julgue. A não ser ele
mesmo.
Estou
curioso para ver o desenvolvimento dessa trama!
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