Em Um Piscar de Olhos (In the Blink of an Eye, 2026)

Três recortes. Uma história.

A EFEMERIDADE DA VIDA NA INFINITUDE DO TEMPO. Dirigido por Andrew Stanton e escrito por Colby Day, “Em Um Piscar de Olhos” é um filme de ficção científica e drama que foi lançado no Festival de Cinema de Sundance no início de 2026 e chegou às plataformas de streaming pouco tempo depois, oscilando em termos de crítica, mas apresentando uma trama competente que acompanha três histórias em períodos distantes uma da outra no tempo, interligadas de alguma maneira – muito mais do que por uma noz fossilizada e descoberta milhares de anos mais tarde, se tornando símbolo da eternidade, mas por experiências. As relações entre as pessoas, a finitude da vida, o luto, o recomeço, o planejar do futuro… são temas que baseiam as três histórias contadas.

Na primeira história, acompanhamos uma família de neandertais há mais de 40.000 anos, em uma vida simples e significativa que está prestes a mudar drasticamente; a segunda história começa em 2025, e acompanha uma doutoranda em Antropologia cuja pesquisa pode trazer resultados e descobertas importantes; por fim, a terceira história começa em 2417 e se passa em uma nave espacial rumo a Kepler 16b, onde uma mulher com longevidade ampliada se prepara para uma missão da qual depende o futuro da humanidade. Aparentemente tão distantes e tão “independentes”, as histórias apresentam paralelismos interessantes, bem como uma inevitável codependência que faz com que o filme trabalhe com a ideia de ecos – ação e consequência.

Vejo o filme em três momentos: o primeiro deles é o estabelecimento das bases das histórias; uma morte importante é o ponto de virada de cada uma delas, cedendo lugar ao segundo momento, que envolve a vivência do luto e a reconstrução da vida a partir de novidades; o terceiro momento é quase um epílogo que acentua a mensagem de finitude sem a melancolia de antes, marcada pela beleza. Em parte, é muito gostoso acompanhar a maneira como as histórias conversam entre si… como existe alguma familiaridade da pesquisadora do presente com os neandertais do passado através de seus estudos e, quiçá, uma promessa de que algo em sua pesquisa tornará viável a existência de uma vida que dura séculos no futuro e torna a missão em Kepler possível.

Cada história é marcada por uma morte que muda tudo, e que acompanhamos quase que simultaneamente. No passado, é a de Hera, a esposa de Thorn e mãe de Lark, que morre dando à luz a um bebê depois de ter perdido outro, com a filha assumindo algumas responsabilidades novas com o pai doente. No presente, é a da mãe de Claire, que padecia de uma doença a algum tempo, e a filha precisa deixar para trás o doutorado para retornar para a sua cidade, abrindo mão de sua pesquisa e, quem sabe, de Greg, o homem com quem namorava. No futuro, a aparição supostamente impossível de uma doença nas plantas que produziam oxigênio ameaça a conclusão da missão e ROSCO, a inteligência artificial que é a única companhia de Coakley, cede o espaço dos seus servidores para a construção de uma estufa reserva.

Gosto do jogo do filme com a intensidade do luto contrastando com a prosperidade de algo novo que vem em seguida para as três histórias. Thorn e Lark se deparam com um grupo de homo sapiens com quem compartilham momentos singelos e bonitos, como a flauta em um acampamento ou a recepção na pequena sociedade na qual aquelas pessoas viviam. A relação de Claire e Greg, por sua vez, sobrevive à distância até que a distância se extingua e elas construam uma vida juntos, uma família e ela encontre uma maneira de dar continuidade à sua pesquisa. E Coakley segue viagem a Kepler 16b, com oxigênio o suficiente graças à segunda estufa, dando vida a embriões em úteros artificiais e iniciando a terraformação de um novo planeta que sustentará a vida humana.

A emoção transborda da reta final do filme, daquela vida que foi criada apesar das adversidades. A felicidade e o alívio de Thorn em saber que a filha está bem conforme eles se tornam parte daquela tribo pela qual foram acolhidos, com direito ao casamento e a um parto, com destaque para ele correndo para ver se está tudo bem com ela depois de ouvir o bebê chorar. A sensação de dever cumprido de Claire e de Greg ao verem, em 2056, o filho deles discursar no lançamento da ELIXIR, que pode ajudar os humanos a viverem muito mais tempo. O momento em que Coakley deixa a nave em um planeta finalmente apto a receber a vida humana, que será reiniciada a partir de seus “filhos”, que são todos os embriões que deram certo… a missão cumprida também.

O tempo passa diferente em cada história, ainda que desempenhe narrativamente funções similares. “Em Um Piscar de Olhos” é esse registro do momento fugaz em que estamos aqui, em comparação ao universo, e valoriza a finitude de nosso tempo como algo que viabiliza significado em nossa passagem – é saber que termina que faz com que valha a pena, com que cada momento e experiência importe. Vemos mais algumas mortes, em todos os tempos, bastante simbólicas na conclusão do filme: a de Thorn, a de Claire e a de V, a primeira “filha” de Coakley. O tom dessas partidas, no entanto, é absurdamente diferente daquele que tivemos antes, nas mortes anteriores… aqui, são encerramentos de ciclos e partidas em paz e arrematam o filme com emoção e beleza.

Uma experiência interessantíssima. Gostei do filme!

 

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