Ticket to Heaven – Ep. 01

“Maybe my God isn’t as kind as yours”

Provavelmente o BL que eu mais estava esperando em 2026, porque eu confio imensamente na direção do Aof, que entregou outras obras das quais gosto demais – “Bad Buddy”, em 2021, que usou o clichê de maneira excelente para além do que se fazia na época, embora atualmente não se entenda necessariamente o impacto que teve na época; “Last Twilight”, em 2023, que trouxe à tona um tema interessante e com uma discussão pertinente, embora eu tenha questões com a conclusão; “1000 Stars”, em 2021, um dos BLs de entrada para esse universo para muita gente; e, é claro, “Moonlight Chicken”, que segue até hoje sendo o meu BL favorito, por toda a carga emocional e por sua característica destemida de colocar um pé na realidade e escapar de armadilhas do gênero.

O anúncio de “Ticket to Heaven”, protagonizado por Gemini e Fourth e com direção do Aof, me deixou bastante empolgado e confiante desde o Dia 1. Ambientado em um internato católico dos anos 1990, lidando com temas como o luto, a culpa cristã e o questionamento da fé em uma sociedade absurdamente homofóbica, esse é o tipo de história que eu confio a alguém com vivência gay para contá-la – e é por isso que, estando nas mãos do Aof, eu me permiti confiar. O primeiro episódio, exibido no dia 30 de maio de 2026, é uma obra curiosamente mais sutil do que eu esperava e do que talvez o primeiro piloto sugeria, mas com um visual impecável, uma temática promissora e mãos competentes para desenvolver essa trama nos 6 episódios que comporão a série.

Iniciamos em 2025, quando Barth retorna à igreja para a ordenação de “alguém importante para ele” e cuja identidade ainda desconhecemos – e embora haja alguma intenção do roteiro de que acreditemos que trata-se de Tanrak, uma vez que ele não estava no carro com Barth rumo à igreja no momento em que o rádio anunciou a aprovação do casamento para pessoas do mesmo sexo na Tailândia, eu acho que dificilmente será o caso… quer dizer, não é como se não conhecêssemos o jogo do Aof. Acho competente como essa introdução será um contraponto com o Barth mais jovem que chega à escola em 1996, como o garoto novo que teve problemas em sua escola anterior, ganhou uma bolsa e agora é colocado “sob a responsabilidade” de Tanrak pelo padre.

A construção das cenas é inteligente e imersiva, embora eu acredite que converse com mais naturalidade com pessoas LGBTQIA+ que entendem e/ou vivenciaram essa repressão de sentimentos e identidade frente à repressão de uma sociedade estruturalmente homofóbica. Eu gosto de como aquela cena inteligente em que Tanrak observa Barth tomando banho, por exemplo, gera identificação com o homem gay que reconhece naquele olhar a curiosidade e o desejo que não foram necessariamente racionalizados. Tanrak não entende o que sentiu, não entende por que seu olhar é instintivamente atraído ao “garoto novo”, mas existe ali uma conexão e um reconhecimento silencioso que o cérebro demora mais para processar do que o corpo.

Tanrak e Barth são figuras muito distintas e facetas complementares da trama de “Ticket to Heaven”. Tanrak vive há anos no internato onde foi acolhido após a morte dos pais, sonhando com o dia em que “poderá se reencontrar com eles no Paraíso”, e cresceu com dogmas religiosos muito presentes, e acho particularmente curiosa a cena na qual o padre pede que ele explique o significado da pintura que dá nome à série. Barth, por sua vez, viveu um verdadeiro inferno na escola anterior por ser gay e foi retirado de lá depois de uma briga escalar colossalmente, mas a verdade é que pouco sabemos além disso por ora, e isso afetou a maneira como ele vê Deus e encara a própria fé… consequentemente, isso também afeta como ele se comporta em um internato religioso.

Gosto da atenção dispensada a Barth por Tanrak, que é sincera ainda que ela seja, também, uma ordem superior quando ele é colocado “à cargo do garoto novo”, e de como a rebeldia silenciosa de Barth o deixa na defensiva, fechado em si em quase todo momento, e aparentemente à beira de uma explosão, como quando ele é acusado por Kongkit de ter roubado seus fones de ouvido porque ficou com o armário que era dele. Barth se isola voluntariamente – destaque para a cena do basquete e para a cena da mangueira – porque ele acredita que fazer isso é a melhor maneira de, quiçá, não passar novamente por tudo o que ele passou na escola anterior… e, no meio disso tudo, existe o Tanrak que ameaça quebrar essa barreira em cada interação que eles têm, pequena ou grande.

Depois do suposto roubo dos fones de ouvido, Barth encontra sua mochila e suas coisas jogadas na antiga piscina abandonada do internato durante a noite, e Tanrak aparece para ajudar e fica por ali, ainda que Barth o mande embora dizendo que “não é nada” e que “ele se vira”. A mensagem de Tanrak é clara ainda que ele não precise dizê-la, e os dois acabam presos naquela região da escola com o fechamento do portão, e compartilham uma cena muito bonita antes de dormir olhando para o céu, no qual eles falam sobre Deus, sobre fé e Barth diz aquela frase icônica sobre como “talvez seu Deus seja menos bondoso que o de Tanrak”, e Tanrak a absorve em silêncio, sem qualquer reação externa – e essa também é uma escolha narrativa excelente para a história que se constrói.

Na manhã seguinte, eles despertam com vários pares de olhos que os julgam descaradamente.

É sufocante, preocupante, relacionável… um excelente início!

 

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