Ticket to Heaven – Ep. 03


“I’m not God’s favorite son”
“I don’t understand”
“I like guys. Tanrak… I like you”
“[…]”

“Are you mad at me?”
“I’m not God’s favorite son either”

 

Sinto muito, mas na indústria BL atual, apenas o Aof poderia entregar essa história com essa força e essa sensibilidade… a direção de um homem gay faz toda a diferença na contagem de uma história que de fato conversa com a comunidade LGBTQIA+ e se torna relevante para ela, para além de uma fantasia que não é apenas utópica, mas que em nada de fato conversa com a comunidade e sua vivência, como é o caso de 90% das produções BL. Aof é um movimento interessante em um mercado que utiliza elementos gays e pouco de realidade em produções que não são voltadas para esse público de fato… ele é um exemplo de retomada dessa narrativa, alguém com vivência e com experiência que disse: “Se essas histórias serão contadas, que sejam por nós mesmos”.

No episódio anterior, acompanhamos Tanrak lidando com sentimentos e desejos que estavam latentes dentro dele e que despertaram com a aparição de Barth. Foi bonito acompanhar todo o processo contido em detalhes – o olhar da direção experiente e que sabe do que está falando não precisa escancarar em diálogos expositivos o que se deseja que o público entenda e sinta… está ali no olhar, no enquadramento de câmera, em cada detalhe que nos convida a sentir o que Tanrak está sentindo. Inclusive, sentimos a audácia e o prazer despertado pelo desejo que se tornou irrefreável após as interações daquela noite, ao mesmo tempo em que sentimos a angústia e a repressão que vem da sociedade e, principalmente, desse contexto religioso no qual Tanrak está inserido.

Depois de lutar contra o que estava sentindo e de acabar trancado em um banheiro onde ele colocou isso tudo para fora, Tanrak lida com algum sentimento de culpa… é assim que ele parece, durante muito tempo, “distante” de Barth nesse episódio – como se ele não conseguisse olhar em seus olhos ou interagir normalmente com ele; em parte pelo que sentira e pelo que fizera, em parte porque ele talvez deseje se afastar desses pensamentos. Isso não quer dizer que o Barth não esteja ali: uma presença constante e pouco silenciosa, que faz com que o corpo de Tanrak grite por ele, e ele sabe o que está fazendo… eu gosto particularmente daquela cena na qual ele desenha um jogo da velha em sua própria perna, por exemplo, e de como isso mexe com Tanrak.

O que mexe com Tanrak, também, é um sentimento recém-descoberto de ciúmes. Ainda que ele não queira falar sobre isso, e talvez esteja também jogando os pensamentos o tempo todo para o fundo de sua mente para que não tenha que lidar com eles, os sentimentos por Barth já são evidentes, e a aparente aproximação de Barth com uma garota chamada Cherry, que aparece ocasionalmente para “visitar”, lhe causa sentimentos ruins que são fruto de seus sentimentos anteriores… ele não quer que Barth esteja interessado em outra pessoa que não seja ele, apesar de não saber o que fazer a esse respeito. E eu gosto dos olhares atentos e doídos de Tanrak em qualquer interação de Barth com Cherry, especialmente quando os comentários tornam tudo muito maior do que já é.

Barth sabe de muito o que está acontecendo… talvez não saiba bem de algumas outras coisas. E, de todo modo, ele vai compreendendo cada vez mais, porque ele sabe ler o Tanrak melhor do que o Tanrak jamais imaginou que alguém soubesse. Amo o momento em que ele o convida a “escapar” par o mercado da frente e de como, dessa vez, Tanrak vai com ele, e como ele e Barth compartilham a atividade de separar donuts e isso lhes traz alguma “paz” – por alguns momentos, eles compartilham um mundo só deles, com sorrisos e entendimento, e eu adoro como o Barth diz mais tarde que “temeu que ele estivesse bravo com ele”, e pede desculpas caso ele tenha feito algo que o magoou… mas Tanrak insiste que não é nada e eles combinam de ser francos um com o outro.

Ainda não é fácil, no entanto.

A dor escancarada de Tanrak quando Barth recebe o convite para ser José na encenação de Natal ao lado de Cherry, que será Maria, é algo que ele adoraria não estar sentindo, mas está ali – tanto que, quando ele vê os dois conversando e provando figurinos, ele não tem coragem de se aproximar porque “ele não quer atrapalhar”, e ele acaba “escapando”, pedindo para ser liberado mais cedo naquela noite porque supostamente “está com dor de cabeça”. É muito bonito como o Tanrak é um livro aberto à audiência, e como tudo é evidente sem que ele precise necessariamente dizer nada… em grande parte, essa é a beleza de “Ticket to Heaven”, que foge de explicações demasiadas em cenas que não seriam naturais: tudo o que precisa ser dito está ali, dito ou não.

Basta sabermos ler.

Naquela noite, as coisas mudam drasticamente… talvez mudem tanto que não possam nunca mais voltar a ser o que foram um dia. Enquanto uma chuva se aproxima e a luz ameaça acabar, Barth e Tanrak se encontram no banheiro onde todos tomam banho, e existe tanta tensão sexual entre os dois nos momentos em que eles estão sozinhos que, se Barth tinha alguma dúvida de que seus sentimentos eram correspondidos, eles deixaram de ser ali. Eu gosto de como o Barth olha para Tanrak, de como ele checa seu corpo, de como ele se aproxima com a desculpa de verificar se Tanrak está com febre e toca seu rosto, seu pescoço, seus ombros, seus braços, seu peito… de como Tanrak se permite fingir que aquilo é apenas uma brincadeira e que ele está sentindo cócegas para deixar que Barth o toque.

E, então, ele foge.

Mais tarde, eles compartilham o que talvez seja a cena mais importante de “Ticket to Heaven” – não apenas até aqui, mas de toda a série. Ele some sem dizer nada a Barth, mas ele fica por perto, talvez inconscientemente querendo “ser descoberto” novamente, e é o que acontece. Quando Barth tenta se aproximar dele novamente e fala sobre querer conversar, Tanrak o fecha do outro lado de uma porta, mas os dois conversam sem olhar um para o outro, em uma cena que visualmente se assemelha a uma confissão… e é exatamente esse o sentimento. Aqui, Barth provoca Tanrak a ser sincero. Tanrak finge não entender, finge não saber o que dizer, e Barth lhe pergunta se ele de fato não sabe ou não se permite saber; se ele não sabe o que dizer ou se ele não tem coragem.

Assim, chegamos às linhas de diálogos mais lindas e mais impactantes do episódio, quando Tanrak diz que “ele não é o filho favorito de Deus”, e ele diz a Tanrak que “gosta de garotos… que gosta dele”. Há um momento breve de silêncio antes que Tanrak abra a porta e derrube essa barreira entre eles, literal e metaforicamente, e Barth entende isso quando dá um passo à frente, quando se aproxima sem resistência alguma, quando o beija cuidadosamente pela primeira vez, e depois se afasta perguntando se Tanrak está bravo com ele, mas ele não está; tudo o que ele faz é dizer a Barth que “ele também não é o filho favorito de Deus”, e então ele o beija novamente, com mais avidez e urgência do que Barth o beijara. Há muita realidade, muito sentimento e muita sensibilidade ali…

É um dos beijos mais significativos e mais belos da indústria.

Fiquei arrepiado. QUE SÉRIE INCRÍVEL!

 

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