Cara de Um, Focinho de Outro (Hoppers, 2026)

“Coração vermelho. Coração vermelho. Batata”

E SE ESTIVÉSSEMOS, MESMO, “TODOS JUNTOS NESSA”? Em março de 2026, chegou aos cinemas o novo filme da Pixar que, no Brasil, recebeu o título de “Cara de Um, Focinho de Outro”, e é fofo, divertido e emocionante como o estúdio sabe tão bem fazer! Eu acho que talvez não chegue à novidade inventiva de “Divertida Mente” ou à emoção descomunal de “Viva: A Vida é Uma Festa”, mas a animação se debruça sobre um tema interessante e o aborda de maneira divertida, com o seu quê de criatividade, e nos entrega personagens carismáticos que levam essa história à frente de maneira bonita. Terminei o filme com um sorriso no rosto e apaixonado pela relação estabelecida por Mabel Tanaka com os animais que vivem em uma clareira que significa tanto para ela.

Mabel Tanaka sempre gostou de animais. Desde pequena, ela tentava resgatar todos os animais aprisionados nas salas de aula e laboratórios de sua escola porque não gostava de como as outras crianças os tratavam, e nunca foi muito bem entendida por isso… foi em um dia no qual ela teve que ser retirada da escola pela mãe e ficou na casa da avó enquanto a mãe voltava ao trabalho que a avó a levou até à clareira à beira de um lago no qual ela fez com que Mabel escutasse – e a ensinou que é difícil ficar brava quando percebemos que somos parte de algo muito maior. O lugar que transbordava de vida se tornou um verdadeiro refúgio, e um lugar que ela visitou diariamente com a avó pelos anos seguintes, até que a avó partisse e a deixasse a cargo de cuidar dele…

Agora, aos 19 anos, Mabel Tanaka herdou o casaco e a paixão pela natureza da avó, e ela precisa salvar o local ameaçado por um anel rodoviário. A clareira outrora transbordante de vida se tornou a materialização não apenas da relação que Mabel sempre teve com os animais e que forjou com a natureza como um todo com a mediação da avó, mas também da própria relação das duas, porque eram ali que elas se sentavam sobre uma pedra, olhavam para o lago com uma represa erguida por castores e sentiam que eram parte de algo maior que elas. Quando o Prefeito Jerry, em sua campanha de reeleição, tenta explodir a represa e acabar com a clareira para construir uma estrada, Mabel tenta fazer de tudo para impedir que isso aconteça… e, para isso, ela precisa trazer os animais de volta.

Trazer os animais de volta para a clareira pode depender de um único castor. Se um retornar para construir uma nova represa, talvez o retorno do lago torne possível o retorno dos demais animais, e Mabel se coloca nessa missão – o que a leva a todo um experimento científico inesperado no qual a consciência de humanos pode ser transferida para corpos robóticos de animais que se infiltram com perfeição no meio de animais de verdade. Então, sem pensar em mais nada, Mabel assume o corpo mecânico de um castor muito fofo e se infiltra no meio da mata, iniciando uma revolução! Quando encontra um castor pouco interessado em ajudar e o salva de ser devorado por um urso, Mabel é levada até – esperem só – um castor chamado George… o Rei da Floresta.

O filme é uma aventura divertida com pitadas de ficção científica e que se volta à conscientização ambiental, e o faz nos convidando a nos preocupar com o lago e a clareira como Mabel se preocupa. A amizade que ela faz com os animais é linda, mas especialmente com George, que a torna “Pata do Rei” e passa a confiar nela plenamente e querer sua companhia e seus conselhos. E, no meio disso tudo, o humor bem colocado nos arranca risadas sinceras continuamente – como a descrição dos animais ao “barulho” que eles escutam na clareira e que explica por que eles não querem voltar para lá… Mabel descobre uma árvore falsa com caixas de som que emitem um som insuportável para os animais e que os afastou de lá, para que Jerry pudesse dar sequência ao seu projeto sem parecer estar “expulsando os animais”.

É extremamente catártica a cena na qual vemos Mabel derrubar a árvore que emitia o som que fazia mal aos animais, bem como tudo o que vem depois: a maneira como ela se torna uma espécie de líder revolucionária entre os animais e como os castores se juntam para construir uma nova represa e encher novamente a clareira de vida… quando Jerry contra-ataca com várias novas árvores falsas e muitas caixas de som, no entanto, a coisa começa a sair de controle – e tudo parece desandar para uma região caótica quando o Conselho é convocado e George, como Rei dos Mamíferos, parece subjugado por outros figurões que são os Reis e Rainhas do restante do Reino Animal… e que Mabel inconsequentemente faz entender que o problema da clareira é de todos.

De fato, o é. Mas aquela revolução sai de controle muito rapidamente – e eu gosto do exagero descabido que me deixou tanto intrigado quanto incrédulo. Temos um tubarão chamado Diane carregado por pássaros para ser jogado sobre o carro do prefeito e “o esmagar”, por exemplo, ou a Mabel ainda no corpo de um castor tentando se comunicar com Jerry através de mensagens no celular, e um novo Rei dos Insetos que faz os cientistas reverterem a tecnologia para colocar a sua consciência em um corpo robótico humano, em uma espécie de tentativa de se tornar mais poderoso… e a construção narrativa funciona porque Jerry é o inimigo primário, mas Tito espelha as suas atitudes de uma forma muito mais exagerado, mas não diferente de como os humanos agem de modo geral.

A emoção é garantida pela relação de Mabel com George, especialmente quando ele se decepciona com ela por ter mentido e, talvez, por os ter usado, e é lindo como eles “fazem as pazes” quando ele percebe que ela está usando o discurso que ele fizera a ela lá no começo… no fim, ela entende o que ele queria dizer com “Estamos todos juntos nessa”. Inusitadamente, o próprio Jerry precisa ajudar quando o Rei dos Insetos megalomaníaco coloca a vida de muitos humanos em risco e, mais do que isso, de toda a clareira e a floresta ao redor, e é desesperador ver toda a destruição causada por isso tudo – mas também é emocionante ver os animais, inclusive a Diane, trabalhando juntos para derrubar uma represa cuja água pode enfim acabar com o incêndio iniciado no “comício”.

E, assim, a casa dos animais e a casa dos humanos são salvas.

Não é uma coisa tão separada quanto muitas vezes se pensa… alguns animais estavam errados em pensar que o problema na área sob a vigilância do Rei dos Mamíferos não lhes cabia, assim como os humanos estavam errados na maneira como avançam e avançam sem planejamento e sem nenhum respeito ao meio ambiente, tomando cada vez mais espaço para si e empurrando animais para espaços cada vez mais afastados e reduzidos. Mabel causou uma confusão tremenda, a ponto de muitas vezes questionarmos seus métodos, mas houve alguma união bonita entre os animais como resultado, bem como o fim do projeto do anel rodoviário – os homens que trabalhavam para Jerry, no fim, ajudam a limpar o local e fazer parecer que “nunca estiveram ali”.

A clareira se enche de vida novamente.

E, nela, Mabel se senta sobre a mesma pedra que se sentou durante anos com a avó, escuta a natureza ao seu redor e se sente e se reconhece como parte de algo maior. É muito bonita a cena final do filme, na qual quem a acompanha naquela pedra é George… a comunicação entre eles pode não acontecer mais de maneira tão literal quanto outrora, quando ela conseguia andar por aí no corpo de um castor mecânico, mas a sinceridade da amizade que eles construíram de maneira tão improvável é toda a comunicação da qual eles precisam. Quando eles se sentam lado a lado naquela pedra, não há mais nada que precise ser dito. “Cara de Um, Focinho de Outro” é, como tantas outras boas obras da Pixar, um filme competente, carismático e, além disso, importante.

 

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