Leviticus (2026)

“If I'm going to live with this, I don't want it to look like some other dickhead. I want it to look like you”

Lançado originalmente no Festival de Cinema de Sundance em janeiro de 2026, “Leviticus” chegou a algumas telas de cinema em junho desse ano, e eu gostaria que ele tivesse tido uma melhor distribuição para que chegasse a ainda mais pessoas. O filme australiano escrito e dirigido por Adrian Chiarella, com Joe Bird e Stacy Clausen nos papeis principais, é uma excelente obra LGBTQIA+ que se utiliza de sua premissa de terror para ir além, com uma entidade que é a materialização do fanatismo religioso e da homofobia institucionalizada que faz com que as pessoas vivam com uma sensação constante e persistente de medo… e da qual Naim e Ryan tentam se livrar.

Desde o seu lançamento, o filme tem chamado a atenção do público a que consegue chegar, com sua distribuição pequena. Em sites especializados em críticas, o filme é considerado uma “aclamação universal”, tendo 93% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes e uma nota 83/100 no Metacritic, por exemplo. Com uma premissa excelente, bom uso de símbolos e atuações competentes, “Leviticus” é claro e intenso, conversando diretamente com seu público e apresentando cicatrizes causadas pelas agressões mascaradas de religiosidade que permeiam nossa sociedade. Talvez toque ainda mais fundo em pessoas que cresceram em um ambiente marcado por religião e homofobia.

Naim e Ryan vivem um romance escondido por causa do preconceito de uma cidade pequena comandada pela igreja e que vê a homossexualidade como “pecado”. Seus encontros furtivos acontecem em um galpão abandonado de uma antiga fábrica, e tudo é ameaçado quando Naim vê Ryan com outro rapaz e, em um momento impulsivo de raiva, ele expõe a relação para os pais de ambos – e tanto Ryan quanto Hunter são submetidos a uma espécie de “terapia de conversão” que parece muito com um exorcismo em uma cena chocante que pode selar o destino deles para sempre… depois do “exorcismo”, coisas estranhas começam a acontecer e Naim presencia algumas.

Ele vê Ryan olhar para ele com uma expressão de medo, por exemplo, e o observa de longe enquanto ele parece estar interagindo com alguém, ou quando ele é atacado em uma cabine de fotos na qual ele aparentemente estava sozinho… algo similar acontece a Hunter, e ali Naim não pode negar o que vê: alguma coisa que ele não enxerga está vindo atrás deles depois do ritual. Naim não pode fazer nada enquanto Hunter é assassinado, e o desespero toma conta dele porque ele sabe que a mesma coisa virá atrás do Ryan… suas tentativas de ser ouvido, no entanto, fazem com que a mãe também o leve no mesmo homem que fez o ritual com os meninos antes.

Os seus sentimentos se convertem em medo. E é através do medo que se manipula e subjuga.

Agora, ele também é um alvo.

O tamanho da violência daquele ritual é muito notável no momento em que a mãe de Naim o leva e coloca a sua vida em risco, sob a desculpa de que “quer o seu melhor”. É de embrulhar o estômago. Naim entende no funeral de Hunter o que ele e Ryan estavam vendo, porque ele conversa com quem ele acha ser o Ryan e então é violentamente atacado, mas logo depois vê o verdadeiro Ryan saindo de dentro da casa… o que quer que fosse a entidade que o atacou não é o Ryan de verdade, apenas estava usando o seu rosto – a criatura de “Leviticus” assume a forma da pessoa que você mais deseja e ataca quando você está sozinho… por isso, você nunca sabe se é a pessoa de verdade ou a coisa.

Não é sutil e não é para ser. “Leviticus” é uma grande crítica à homofobia institucionalizada pelas igrejas, e a criatura assumir a forma da pessoa que você deseja é o principal instrumento dessa crítica: é você olhar para o rosto da pessoa que você ama e sentir medo, e fugir, e buscar a companhia de qualquer outra pessoa. Em determinado momento, os personagens dizem que “o que eles querem é fazer com que eles sintam medo”: medo de estarem juntos, medo de serem quem são, medo de amar. É angustiante toda a sequência de Niam procurando companhia, qualquer que seja ela… abandonado pela mãe, literal e metaforicamente, ele aceita qualquer pessoa…

Ele só não pode estar sozinho.

E quantas pessoas já não fizeram isso?

Gosto demais da construção da trama e de como ela explora o amor e o desejo de Naim e Ryan, bem como das complicações eventuais. Gosto de como o filme explora o clássico do terror de espírito através de uma entidade que pode aparecer a qualquer momento, e de como simultaneamente evidencia a realidade de tantas pessoas LGBTQIA+ quando eles são enganados e caem em uma armadilha na qual eles são covardemente encurralados por homens dispostos a espancá-los até a morte pelo simples fato de eles serem gays… qualquer tipo de cena nesse sentido mexe demais comigo, e é um alívio quando eles conseguem sair de lá.

Adoro a maneira como eles escolhem, inicialmente, lutar contra a entidade. Como Naim pensa em se afastar porque isso vai fortalecer a criatura, enquanto Ryan quer estar o tempo todo ao seu lado porque, como ele diz, se eles ficarem longe um do outro aquilo só vai assumir o rosto do próximo idiota por quem Naim se sentir atraído e assim por diante, e ele não quer que a criatura “tenha o rosto de um otário qualquer” – ele dizer que quer que a entidade tenha o rosto de Naim é a forma mais inusitada e bonita de declarar seu amor. E a intimidade deles nos entrega cenas como aquela do ônibus, que eu amo, e é contrastada com cenas como a do banheiro do colégio…

Quando Ryan quase perde parte da orelha… no lugar onde Naim a lambera no ônibus.

Os dois eventualmente se afastam… mas porque Ryan descobre que foi Naim quem contou para os seus pais e os de Hunter sobre eles e, portanto, deu início a isso tudo. Lidar com isso é pesado. Sem Ryan, Naim se sente mais isolado do que nunca. O medo se equipara apenas à ânsia de ter o Ryan por perto e de o ouvir dizer que o perdoa, e é disso que a entidade se aproveita quando aparece na porta de sua casa se passando por Ryan novamente… e Naim corre, o atraindo até o galpão abandonado que já foi o refúgio do seu amor. Tendo descoberto que o fogo é a fraqueza da criatura, é isso o que Naim usa para se livrar dela… pelo menos naquele momento.

A conclusão do filme não poderia ser mais bonita – e é muito mais feliz do que eu podia esperar. Naim encontra Ryan no ponto de ônibus e, por algum tempo, os dois olham um para o outro com cautela, porque não sabem se é de fato a pessoa que amam, mas quando o lugar se enche de gente e eles permanecem ali, um de frente para o outro, eles entendem: entendem que eles são reais, entendem que há perdão, que há amor e que só há uma coisa a ser feita e é ir embora… partir daquela cidade, se afastar da homofobia, da igreja e, quiçá, da entidade, que ainda aparece do lado de fora da janela do ônibus, mas a quem Naim não dá atenção…

Ele a deixa pra trás enquanto segue em frente com Ryan…

Sem medo, sem culpa.

FILMAÇO!

 

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