As Crônicas de Nárnia – O Sobrinho do Mago (C.S. Lewis)



“Esta é uma história sobre algo que aconteceu muito tempo atrás, quando seu avô ainda era uma criança. É uma história muito importante porque mostra como tiveram início todas as idas e vindas entre nosso próprio mundo e a terra de Nárnia”

 

Publicado pela primeira vez em 1955, “O Sobrinho do Mago” é um dos meus livros favoritos em “AS CRÔNICAS DE NÁRNIA”. Lançado depois de “O Cavalo e Seu Menino” e antes de “A Última Batalha”, o livro é o sexto volume escrito por C. S. Lewis nas suas obras sobre as aventuras ocorridas em Nárnia, mas, cronologicamente, é o primeiro livro da série – e, portanto, atualmente “recomendado” como o primeiro na ordem de leitura, embora eu ache ainda mais fascinante o ler depois de conhecer pelo menos “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”, porque ele é recheado de momentos de “Ah, então é por isso que…”. Aqui, ao lado de Digory e Polly, andamos entre mundos distintos e presenciamos o momento em que Aslan funda Nárnia com uma canção.

É mágico, envolvente e bonito – como todo livro de “As Crônicas de Nárnia”. Com uma narrativa que mistura aventura, filosofia e inspirações religiosas, C. S. Lewis cria uma trama rica e competente que encanta diferentes tipos de leitores. E tudo começa com os vizinhos Digory (no original, Digory) e Polly, que resolvem explorar um túnel que conecta as casas daquele lado da rua – um lugar que não pertence de verdade a nenhuma casa, mas que dá passagem a todas… uma “dica” de como funcionará, apenas páginas depois, o Bosque Entre Mundos, que é um dos meus conceitos e das minhas passagens favoritas de “O Sobrinho do Mago”, algo que me marcou profundamente desde a primeira vez que li o livro, tantos anos atrás…

Uma aventura pelo túnel que “não pertence a casa nenhuma e a todas as casas” e um erro de cálculo das crianças os leva até o escritório secreto do tio de Digory, enquanto eles tentavam adentrar a casa depois da de Digory, vazia. Naquele escritório, Tio André faz experimentos que envolvem magia e cria anéis que teoricamente podem dar passagem a outros mundos, mas que ele nunca teve coragem de testar por si próprio… ele fez testes com animais, que não sabem como retornar, e está esperando uma cobaia: a aparição de Polly e Digory vem bem a calhar. André convida Polly a pegar um dos anéis amarelos que a fascinaram desde o primeiro instante naquele escritório e, assim que ela o toca, ela desaparece… e Digory não tem outra opção a não ser ir atrás da amiga.

Digory, o sobrinho do mago, talvez seja a verdadeira cobaia do Tio André… é ele quem recebe as explicações sobre as teorias do tio e sobre as funções dos Anéis Amarelos, para sair desse mundo, e dos Anéis Verdes, para voltar a esse mundo – embora ele tenha concepções equivocadas a respeito de seu funcionamento e o “entrar” e “sair” esteja muito mais relacionado ao Bosque Entre Mundos do que com o nosso mundo, que é apenas um dentre tantos. Digory é enviado para “resgatar” Polly e para testar o funcionamento dos Anéis e, uma vez naquele lugar tão calmo, eles quase permanecem ali para sempre, acolhidos por uma paz quase inexplicável, mas acabam voltando a si, lembrando quem são, de onde vieram e como podem voltar.

No lugar de Digory e Polly, eu teria feito exatamente o que eles fazem: por que voltar para casa e para o velho e sem graça escritório do Tio André com tantas poças no Bosque Entre Mundos que levam a uma infinidade de possibilidades? Assim, eles resolvem “explorar”, e é aí que as coisas começam a mudar… e as ações daquelas duas crianças definem destinos em mais de um mundo. É curioso que C. S. Lewis leve seus dois protagonistas a dois lugares específicos: Charn, um mundo moribundo, e Nárnia, um mundo sendo criado agora. São opostos que têm as suas histórias inevitavelmente atreladas por causa das ações de Digory, que se tornam responsáveis por levara àquele lugar um “Malefício”, e em algum momento outras pessoas terão que lidar com isso.

Charn é um mundo à beira da morte. Estranhamente fascinante, mas assombroso, com suas ruínas, a luz vermelha de um sol moribundo e seus mistérios e tentações… Digory e Polly chegam ao que chamamos de “Sala das Imagens”, que parece povoado de estátuas de pessoas altas e belas que foram habitantes daquele mundo antes do que quer que tenha acontecido a ele – porque, agora, toda vida parece ter se esvaído. A curiosidade de Digory faz com que ele não consiga se impedir de tocar um sino com uma inscrição instigante embaixo e isso desperta a última das estátuas: a Rainha Jadis. Uma mulher cruel e implacável, que destruiu todo e qualquer tipo de vida além dela naquele mundo ao usar a “Palavra Deplorável/Execrável”. E que agora está desperta novamente.

Não demora para que Digory perceba o seu erro, e a frieza de Jadis e a certeza de que está correta causa calafrios, mas quando ele e Polly tentam escapar de Charn usando os anéis mágicos do Tio André, ainda sem saber que eles “funcionam como um ímã”, eles jamais imaginariam que levariam a perversa Rainha Jadis com eles… a feiticeira parece afetada profundamente pelo Bosque Entre Mundos, e de uma maneira estranhamente diferente ao modo como aquele lugar afetou as crianças: se eles sentiram uma paz e uma tranquilidade relaxante naquele bosque, Jadis parece curvada, mais fraca, com dificuldade para respirar, como se aquele não-mundo fosse tóxico para ela… e ela fará de tudo para sair daquele lugar para outro.

É assim que Jadis termina primeiro no nosso próprio mundo – causando alguns estragos por aqui. Ela decide escravizar o Tio André, além de roubar um cavalo e causar comoção na rua em frente às casas de Digory e Polly, protagonizando o que ficará conhecida como “A Batalha do Poste” e, ironicamente, dará origem ao Ermo do Lampião, e Digory sabe que precisa levar a feiticeira de volta para o seu mundo… ou para qualquer outro mundo que não seja o deles. Conseguir chegar até a enfurecida Rainha Jadis não é a tarefa mais fácil, mas Digory eventualmente consegue – e leva com ele para o Bosque Entre Mundos, além de Jadis e de Polly, o próprio Tio André, o cavalo em que Jadis está montada, que se chama Morango, e o cocheiro que tentava acalmá-lo.

Uma confusão!

Esse é o grupo que chega ao MUNDO VAZIO QUE SE TORNARÁ NÁRNIA. E essa é uma das passagens mais icônicas e importantes não apenas de “O Sobrinho do Mago”, mas de toda “As Crônicas de Nárnia”. Eles estão em um lugar literalmente vazio, e então uma canção, que eventualmente eles descobrem estar sendo entoada por um imenso e belo Leão, dá origem àquele lugar. Primeiro as estrelas do céu, cujas vozes se unem à do Leão por algum tempo, depois de um sol jovem que nasce no horizonte, e aos poucos todo o lugar vai transbordando de vida, com córregos, rios, árvores que brotam do chão e crescem depressa e animais que surgem ao ouvir o “chamado” de Aslan, e toda essa criação tem efeitos distintos nos espectadores.

Digory, Polly, o cocheiro e Morango estão fascinados.

André e Jadis estão apavorados.

A alvorada de um novo mundo é o grande objetivo de “O Sobrinho do Mago”. Essa história foi escrita como o penúltimo livro da série para nos contar como foi a origem de Nárnia e como tudo começou – em Nárnia como mundo e como história, porque é um predecessor excelente para “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”. Após criar Nárnia com sua voz, Aslan informa às criaturas daquele lugar que um Malefício adentrou naquele mundo mesmo que ele só tenha algumas horas de vida, mas ele o protegerá para que esse malefício fique afastado por muito tempo, antes de causar problemas. Ele também coroa o cocheiro o primeiro Rei de Nárnia, o Rei Franco, e sua esposa, Helena, convocada por Aslan sem necessidade dos anéis, se torna a primeira Rainha.

Digory, por sua vez, recebe uma missão: ele deve ir até um jardim no topo de uma colina e colher um fruto da Árvore da Vida e levá-lo a Aslan… uma missão épica na qual ele é acompanhado por Polly, sua companheira de aventuras desde o início, e Morango, que agora não é mais Morango, mas Pluma, o primeiro cavalo alado de Nárnia. A jornada culmina em um jardim com tom solene e no qual os três viajantes sabem que Digory precisará seguir sozinho… é ele quem entra no jardim e é ele quem é tentado pela Rainha Jadis, transfigurada, a comer o fruto e/ou levar um para a sua mãe, que está doente de volta em seu mundo. Toda a passagem é uma releitura da tentação no Jardim do Éden, e Digory consegue se sair muito bem.

Gosto de todos os momentos aqui, gosto das incertezas, gosto de como os “E se…?” são vagos o suficiente para sabermos que jamais saberemos de fato “o que teria acontecido se…”. Digory está encantado com o lugar, o cheiro da maçã prateada na árvore mais bela no centro do jardim é o perfume mais delicioso do mundo, quase inebriante, e ele se lembra, sim, da mãe, mas também do rosto de Aslan e as palavras que lera, e se detém. A tentação da Rainha Jadis, por sua vez, parece pouco tentadora e pior ainda quando ela sugere abandonar a Polly… diferente de Digory, Jadis come do fruto do jardim e talvez viverá para sempre, mas em angústia e infelicidade, e ela já está mais pálida do que nunca – eventualmente, a reencontraremos como “Feiticeira Branca”.

Por ora, no entanto, Aslan protege Nárnia. Durante centenas de anos, o mundo novo viverá em paz, protegido pela árvore que nasce ali, a partir do fruto tirado por Digory e levado de volta a Aslan, como era sua missão – e, dessa nova árvore, Aslan oferece ao garoto uma maçã para que ele leve de volta ao seu mundo e dê à mãe… em seu mundo, o fruto não lhe concederá “vida eterna”, mas fará com que ela recobre a saúde e ainda viva por muitos anos ao lado do filho. Antes de “devolver” Digory, Polly e André para casa, no entanto, Aslan tem algumas coisas a dizer… um aviso, na forma da poça seca no Bosque Entre Mundos que outrora fora a entrada para Charn, e um comando, ao pedir que as crianças enterrem os anéis para que não sejam mais usados.

E o quanto isso interfere no futuro?

Se o pedaço de poste levado por Jadis a Nárnia dá origem ao Ermo do Lampião, é da maçã trazida da Árvore da Vida e dos anéis criados pelo Tio André que surgirá o Guarda-Roupa da primeira história publicada em “As Crônicas de Nárnia” – aquele encontrado por Lúcia que levará os Irmãos Pevensie a Nárnia, para cumprirem a missão de livrar aquele mundo do controle da Feiticeira Branca, já que Aslan determina que essa missão será dos Filhos de Adão, já que foi um Filho de Adão que trouxera a Rainha Jadis para aquele lugar para começo de conversa… não por maldade, mas por curiosidade e descuido. Digory já se arrependeu. Digory dá a Maçã da Vida à mãe e enterra o seu miolo no jardim… no dia seguinte, ele e Polly enterram os anéis ao redor dele.

Dali nasce uma árvore frondosa, que, ao cair, é transformada em um guarda-roupa.

Não “um” guarda-roupa. “O” Guarda-Roupa.

Gosto muito de como C. S. Lewis constrói a narrativa de “O Sobrinho do Mago”, e como ela é uma aventura “independente” que se sustenta por si só, mas mutuamente enriquece e se enriquece com as demais histórias de “As Crônicas de Nárnia”. A leitura com tons intimistas e reflexivos nos conduz por sensações únicas. Foi um livro que me marcou muito quando o li pela primeira vez, e a cada novo capítulo finalizado com um sorriso no rosto e ávido por mais, nessa releitura, eu me dava conta de por que eu o amo tanto – e por que talvez agora eu o ame ainda mais. Aslan nos dá as boas-vindas a Nárnia, um mundo mágico e convidativo no qual tantas histórias ainda acontecerão. Esse é só o começo de minha revisita, retornarei aos próximos livros em breve!

 

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