Da Magia à Sedução (Practical Magic, 1998)

“I dream of a love that even time will lie down and be still for”

Dirigido por Griffin Dunne e com roteiro de Robin Swicord, Akiva Goldsman e Adam Brooks, adaptando o livro de 1996 de Alice Hoffman, “Da Magia à Sedução” é um filme que mistura magia, romance e mistério em uma trama protagonizada por Sandra Bullock e Nicole Kidman nos papeis de duas irmãs bruxas cuja família foi amaldiçoada há muitos anos e, portanto, elas estão condenadas a não poderem ser felizes no amor – há mais de 300 anos, Maria Owens escapou da sua execução por bruxaria, mas, de coração partido, lançou um feitiço que se tornou uma maldição para qualquer mulher da Família Owens: todo homem amado por uma delas está fadado à morte.

Sally e Gilly Owens lidam com isso de maneiras diferentes… Gilly sai de casa e vai viver a vida da maneira mais livre possível, sem se apegar demais a ninguém, se tornando um espírito livre. Sally, por sua vez, escolhera fechar-se tanto para a magia quanto para o amor… ela deixa de lado o legado da família e decide “não se apaixonar”, mas ela acaba se apaixonando e vivendo um casamento feliz durante três anos, tendo duas filhas que ama profundamente… o som insistente do besouro da morte, no entanto, lhe mostra que ela não escapará da maldição da Família Owens, e então seu marido morre atropelado por um caminhão, o que faz com que ela tente buscar soluções na magia…

Mas as tias a aconselham a não tentar trazê-lo de volta… não seria ele de verdade.

Depois de algum tempo de muito sofrimento e de se fechar novamente em si mesma, Sally acaba tendo que enfrentar o lado de fora mais uma vez quando Gilly liga pedindo ajuda: seu namorado, Jimmy Angelov, a agrediu. As coisas escalam depressa demais e de maneira assustadora: antes que elas possam fugir de Jimmy, ele atrai Gilly para o seu carro e faz com que Sally o dirija, e elas passam por momentos de muito medo até que o veneno colocado por Sally em uma garrafa oferecida a Jimmy o mate. E, agora, elas precisam pensar como lidar com o fato de que estão dirigindo o carro de um homem morto e podem ser presas porque ninguém acreditará em “autodefesa”.

Embora tenha sido.

Desesperadas, as duas recorrem à magia… quando Michael morreu e Sally implorou para que as tias usassem magia para trazê-lo de volta à vida, elas não o fizeram porque sabiam que ele retornaria sombrio e diferente do que era, mas não porque não podiam – então, ainda que sem experiência, as duas fazem o ritual com algumas improvisações para trazer Jimmy de volta: o que importa é que ele esteja respirando e, então, ninguém poderá acusá-las de assassinato… sinistro ele já era desde sempre. Quando ele desperta e tenta matar Gilly, no entanto, Sally faz a única coisa na qual consegue pensar: ela o mata novamente. E elas o enterram no quintal.

É caótico e estranho – e nem sempre um estranho da maneira boa, nem sempre proposital. Há uma irregularidade constante. Sally e Gilly são deixadas pelas tias para resolverem seus próprios problemas, e lidam com um investigador chamado Gary Hallet, que está na cidade em busca de informações sobre Jimmy – afinal de contas, ele desapareceu, Gilly era sua namorada até onde se sabia, e o carro dele está estacionado na frente da casa delas… no fundo, Gary quer acreditar que elas não têm nada a ver com um possível assassinato, mas em algum momento fica impossível negar os sinais quando um anel de Jimmy Angelov aparece na boca de um sapo, por exemplo.

Ainda assim, Gary quer entender por quê.

Toda a trama de romance entre Sally Owens e Gary Hallet entrega alguns dos momentos mais leves do filme… são momentos em que fica de lado um relacionamento abusivo e uma investigação por assassinato, mas Sally não tem certeza de que pode continuar com Gary por dois motivos: primeiro, porque ela já sofreu demais quando amou pela última vez; depois, porque ela teme que aquilo não seja real pelos olhos um azul e outro verde de Gary, que batem com a descrição que ela fizera em um feitiço na infância e que, na época, achou impossível… o feitiço que era a sua garantia de que ela não se apaixonaria por uma pessoa de verdade.

Agora, no entanto, Gary é real… e está ali na sua frente.

Ela pode se apaixonar?

Sally, no entanto, precisa se preocupar primeiro com Gilly, que agora está sendo possuída pelo espírito de Jimmy, que se recusa a deixá-la em paz… e para um ritual que parece um exorcismo, as Owens precisam de um coven inteiro. Confesso que acho bastante dissonante com a construção do filme toda a trama das mulheres da cidade virem ajudar, porque são as mesmas que desprezaram e maltrataram a família desde sempre… e do nada elas partem de chamá-las de “bruxas” e as odiarem e temerem por isso a serem parte de um exorcismo com algumas cenas pesadas, mas que terminam em um quê estranho de comédia com a varrida do espírito de volta ao túmulo…

De modo geral, essa é a sensação causada pelo filme em mim: estranheza. E, principalmente, estranheza de tom. Existem filmes que têm um tom muito bem definido; existem filmes que dançam muito bem por diferentes estilos e tons. “Da Magia à Sedução” não o faz: ele alterna entre tons dissonantes sem que soe natural, sem que o casamento entre as partes seja harmônico, então ao invés de parecer rico, ele acaba parecendo desorganizado. É quase como um trabalho em grupo em que cada um fez sua parte: alguém ficou responsável pelo suspense psicológico, outra pessoa pelo humor, outro pelo terror, outra pelo romance, etc. Tem alguns elementos muito bons… mas falta coesão.

 

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