A Última Casa (The Last House, 2026)

“Até quando você consegue sobreviver?”

Dirigido por Louis Leterrier e escrito por Matthew Robinson, “A Última Casa” tem duas coisas que eu amo: FICÇÃO CIENTÍFICA e WAGNER MOURA. Wagner Moura e Greta Lee dão vida a Jason e Ann, um casal que precisa encontrar uma maneira de sobreviver e garantir a segurança dos filhos, uma de 8 anos e um de 12, quando eles ficam inexplicavelmente presos dentro de casa a partir de um dia de chuva… um evento que não se limita à casa deles e, ao que tudo indica, tampouco à sua rua ou à sua cidade. Em todo o mundo, alguma coisa está tentando assumir o controle do planeta – um planeta que estranhamente chamamos de “Terra” quando ele claramente é “Oceano”, tal qual a citação de Arthur C. Clarke.

Sem ser aclamado pela crítica e não sendo, necessariamente, um grande exemplar do gênero, ainda assim é um filme que eu gostei bastante de assistir! O Wagner Moura está lindíssimo e, se nada mais valesse a pena, sua atuação e sua beleza teriam feito a minha noite de todo modo. Mas é também um filme de ideias bacanas que brinca com o suspense, explora a necessidade de sobrevivência em um ambiente inusitadamente inóspito – a sua própria casa –, coloca mistérios a respeito de uma possível invasão alienígena e, eventualmente, vira a narrativa para algo que vem do nosso planeta mesmo… algo ancestral tentando retomar o controle, em um visual claramente inspirado por Cthulhu.

Acho que o filme tem dois momentos muito distintos… em um primeiro momento, exploramos a sensação claustrofóbica proporcionada pelo selamento das casas de maneira aparentemente irrevogável, e então o que começa como uma quarentena forçada acaba se tornando uma luta pela sobrevivência que muitas pessoas não conseguem vencer; após uma virada que conta com uma passagem de tempo e com a intensificação dos problemas, o que quer que está do lado de fora os mantendo dentro e que foi visto por Ruth desde sempre ganha forma, e o que era um suspense psicológico coloca o pé no terror de monstros e criaturas inexplicáveis. E eles precisam escolher entre sobreviver… e viver.

Gosto mais do início do que do fim do filme, confesso. Eu gosto muito da abordagem do mistério, gosto da tensão que não vem apenas do medo do que está do lado de fora, mas da incerteza de como sobreviver do lado de dentro. Jason assume para si a responsabilidade de manter a sua família viva, o que demanda engenhocas para uma “pescaria pela chaminé”, enquanto Ann começa o cultivo de tomates e outros alimentos que podem ajudar caso essa situação se prolongue por muito tempo… e ela se prolonga. Depois de meses de isolamento e com a comida escassa, ganhamos uma das cenas mais intensas do filme quando Ruth surta porque ela sente fome…

É, talvez, a cena mais importante do filme!

O cenário vai se tornando cada vez mais inóspito. Sem internet ou sinal telefônico, as trocas de mensagens acontecem por papeis e quadros mostrados nas janelas, e eles se aventuram pelas mídias físicas disponíveis dentro de casa – no caso deles, apenas dois filmes tocando em looping e alguns discos que rendem momentos de diversão e, mais importante, de distração… como a situação se prolonga, a energia também acaba e, então, aquela casa vai parecendo cada vez menos com a casa na qual eles viveram por tanto tempo e na qual outrora se sentiram seguros… quando cinco anos se passam, a casa se tornou um lugar selvagem e não um abrigo, mas uma prisão.

E tudo o que eles estão fazendo é sobreviver.

A angústia vinda da exaustão e da falta de perspectiva de que alguma coisa vá mudar em algum momento consome a todos de maneiras distintas… Jason assumiu a tarefa braçal de trazer comida e água para dentro de casa e, ao fazê-lo, se sobrecarregou com uma responsabilidade física que o afastou de todos; Ann tentou manter a família funcionando enquanto cultivava a sua não tão pequena horta, sentindo falta do marido, que está ao seu lado, mas não está; Ruth e Graham cresceram sem ter uma infância de verdade e sem querer passar o resto de seus dias dentro daquelas paredes, sem ver mais ninguém, sem sentir o ar puro, sem poder pegar um pouco de sol…

Conforme tudo parece se tornar mais selvagem, o filme explora outros tipos de cenas – a invasão de uma criatura em moldes lovecraftianos gera uma tensão que me fez pensar em “Um Lugar Silencioso”, e temos toda a sequência de Ann conseguindo passar pelos esgotos para chegar à casa do vizinho que era dentista em busca de antibióticos para Ruth, que foi mordida por um animal “pescado” pela chaminé, e ela se depara com um cenário como o de um lugar que ficou submerso no mar durante muitos anos. Embora haja a criação da urgência, o filme nunca chega a concluir esse sentimento de perigo ou lidar com um drama mais sério que seria a morte de alguém da família…

O que tornaria tudo ainda mais real.

Eventualmente, Jason escuta Graham pela primeira vez, e concorda que é hora de sair da casa… e, para isso, eles terão que atrair uma das criaturas para dentro da casa, porque ela é a única que pode abrir a porta para eles – uma engenhoca a la “Esqueceram de Mim”, uma inundação e um momento cafona para representar compaixão depois, a família consegue finalmente sair… não chega a ser anticlimático de fato, mas a conclusão fica aquém do que eu esperava, embora eu confesse que tenha gostado de toda a parte submersa que eles precisam enfrentar e foi bom ver a criatura mais de perto. Só é excessivamente otimista a coisa de “um ato de compaixão sendo respondido por outro”, que acaba sendo a conclusão do filme.

Não é um primor, e não atenderá às expectativas de alguém que esteja buscando uma grande ficção científica ou algo profundamente inovador. Ainda assim, é um filme que performa bem dentro de sua proposta, e explora um pouco de relações familiares, a tensão do isolamento, a luta por sobrevivência e coloca em cheque o “domínio” do ser humano sobre o planeta, já que tendemos a nos colocar em uma posição inabalável de superioridade que é justamente o motivo de nossa ruína. A natureza é e sempre será mais forte do que nós. A arrogância humana é o grande problema… e talvez, em uma situação de vida ou morte, seja tarde demais para tentar apelar pela “compaixão”.

Há quanto tempo já estamos destruindo o planeta que chamamos de lar?

Como tratamos o que é, de fato, a nossa última casa?

 

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