Jogos Vorazes: Amanhecer na Colheita (Suzanne Collins)
“Eles não vão usar nossas lágrimas como
entretenimento”
A revolução
não acontece de um dia para o outro… antes de haver a Katniss desafiando o
Presidente Snow mesmo sem planejar ou de um grupo de rebeldes na 75ª Edição dos
Jogos Vorazes quebrar a arena para defender o Tordo que se tornara o símbolo da
Revolução, houve outras tentativas. Em “Amanhecer
na Colheita”, lançado em 2025, Suzanne Collins nos leva de volta a Panem –
mais especificamente, à 50ª Edição dos Jogos Vorazes, o Segundo Massacre
Quaternário, aquele ano em que todos os distritos tiveram que mandar quatro
tributos para os jogos, o dobro da quantidade anual de jovens. Uma edição com
uma arena de beleza indizível e enganosa, bestantes cruéis, alianças
aparentemente improváveis e a vitória de Haymitch Abernathy.
As obras de
Suzanne Collins são vivas. É uma
mistura paradoxal entre uma fluidez envolvente que não nos deixa largar o livro
e uma densidade que exige pausas para reflexão. Ainda que ávido por mais, eu me detive na leitura em alguns
momentos, ora por que precisava respirar
– o horror escancarado da Capital e mortes perversas que me atingiram em cheio
na mesma medida que esses personagens me
conquistaram –, ora porque não é uma leitura que deve ser levada
levianamente… as pausas para pensar
sobre os assuntos tratados a enriquecem. E é interessante como uma prequel pode ter contornos definidos
pela obra original, mas como a autora está contando essa história porque ela de fato tem coisas a dizer. Talvez
sempre haja o que dizer.
Suzanne
Collins faz exercícios diferentes na expansão do universo de “Jogos Vorazes”, a começar pelo fato de
a história original ter sido contada em três partes, enquanto cada novo livro
se sustenta por si só, embora desempenhem um papel maior na narrativa desse
universo como um todo. Em “A Cantiga dos
Pássaros e das Serpentes”, me surpreendeu e me encantou a maneira como o
livro vinha do ponto de vista da Capital,
e como a autora dançava entre as palavras de um narrador não-confiável e a
crítica ferrenha que é a marca dos seus livros, a série toda extremamente
política. Em “Amanhecer na Colheita”,
talvez ela retorne para a sua zona de conforto de apresentar os Jogos Vorazes
do ponto de vista de um tributo do Distrito 12…
Ainda assim,
é inovador.
É inovador
porque Katniss Everdeen só se voluntariou para salvar a irmã mais nova, e nunca
houve a intenção de causar uma revolução. Aos 16 anos, Haymitch Abernathy é um
jovem com alma rebelde que tem alguma consciência da luta, ainda que escassa, e
que está disposto a “pintar um pôster” – se o “pôster” de Katniss era salvar
Prim, o “pôster” de Haymitch talvez seja mandar uma mensagem para os
espectadores da Capital… na sua ânsia por quebrar
a arena e, com isso, mostrar que os
Distritos podem superar a Capital, Haymitch tem uma missão. E, de algum
modo, isso o torna um revolucionário, embora ele nunca tenha se visto como um…
ele é parte da Resistência antes que exista uma estruturada, e são pequenos
movimentos com impacto futuro.
Como eu
disse, a revolução não acontece de um dia
para o outro.
Assim, “Amanhecer na Colheita” nos leva de
volta para o ponto de vista de um tributo do Distrito 12, o que é, sim, mais
fácil de se fazer do que o a autora fez em “A
Cantiga dos Pássaros e das Serpentes”, mas a novidade está na consciência
da revolução: Katniss não a tinha, nem mesmo em “Em Chamas”, mas Haymitch a tem. E, para contar essa história do
Segundo Massacre Quaternário, a autora se utiliza de personagens que eventualmente
estarão no Terceiro: conhecemos, alguns anos mais jovens, pessoas como a Mags,
a Wiress e o Beetee, além do próprio Haymitch. Temos, ainda, os primeiros dias
de Effie Trinket na equipe de preparação do Distrito 12, bem como o Plutarch
demonstrando algum apoio de dentro do
sistema.
É poético
pensar em algo que começou no Segundo Massacre Quaternário e foi, por fim,
concluído no Terceiro. Haymitch tinha uma missão e uma promessa à garota que
ele amava: impedir um novo amanhecer na
colheita. Embora ele não consiga fazer isso imediatamente após a sua vitória, ele ainda tem participação nisso
– e acho que Lenore Dove ficaria orgulhosa. Lenore Dove, a garota do Bando por
quem Haymitch Abernathy é apaixonado, e que foi nomeada a partir de “O Corvo”, um dos poemas mais famosos de
Edgar Allan Poe. A garota que Haymitch quer proteger a qualquer custo e, de
certa maneira, por quem acaba nos Jogos Vorazes… ainda que ele não se
“voluntarie”, como aconteceu com Katniss, sua colheita também não é tradicional.
Haymitch
teve o azar de nascer no dia da Colheita,
o que quer dizer que nunca é um dia realmente feliz para ele… essa Colheita em especial é mais complicada que
qualquer outra: com o dobro de tributos e as alíquotas todas, seu nome está
naquela urna tantas vezes que parece impossível que ele não seja sorteado –
estranhamente, ele não é. Gosto de como o livro já começa com essa quebra de expectativa, porque sabemos
que Haymitch estará nesse Massacre Quaternário, mas como ele chegará lá? Poucas
páginas depois, descobrimos. Com uma tentativa de fuga, um primeiro assassinato
rápido e cruel e o Haymitch tentando defender Lenore de Pacificadores, ele é escolhido como tributo, ao invés de ser
sorteado… ainda que a Capital não admita isso.
Não é a
versão que todo o restante do país vê, e eu gosto da ironia propositalmente incômoda que evidencia o
quanto tudo é encenado. E o livro
começa apresentando o que Haymitch entenderá vivendo na pele eventualmente: a
Capital tem uma alta capacidade de manipular a narrativa a seu favor e de
contar a história como ela quer que seja
contada. Parte da Colheita é refeita como um teatro perverso e o destino de
Haymitch é traçado. Nessa época, o Distrito 12 não tinha vencedores a não ser
“uma misteriosa garota que vencera os 10º Jogos Vorazes e sobre quem não se
sabe nada”, e tinha uma equipe de preparação nojenta liderada por Drusilla, que
os tratavam mais ou menos como todos os tributos eram tratados na época de Lucy
Gray Baird.
Como animais.
O livro está
também dividido em três partes. Na “Parte
1: O ANIVERSÁRIO”, Haymitch vê sua cabeça virar de pernas para o ar e ele
ser levado para a Capital apenas com um símbolo deixado de presente por Lenore
Dove e nenhuma esperança de retornar para casa para cuidar da família; na “Parte 2: O MALANDRO”, Haymitch assume
uma identidade que pode lhe ajudar a conquistar patrocinadores enquanto ele
estiver na arena, enquanto tenta secretamente quebrar a máquina… literalmente;
por fim, na “Parte 3: O PÔSTER”,
Haymitch precisa decidir qual é o pôster que ele quer pintar e, mais do que
isso, qual é o pôster que ele consegue
pintar com o material que tem. Qual é a mensagem que o Segundo Massacre
Quaternário deixará a Panem?
Aos
Distritos, talvez não muito…
Mas é uma
ameaça à Capital. Se não fosse, a
represália não seria tão grande.
Haymitch
Abernathy se torna um tributo do Distrito 12 ao lado de outras três pessoas que
ele conhece, nem todas de quem ele gosta: Louella McCoy é uma de suas melhores
amigas, alguém de quem ele gosta como parte da família e que sente a
necessidade de proteger; Wyatt Callow, um “Garoto de Apostas” cuja família faz
dinheiro com apostas nos Jogos Vorazes e, por isso, ele tem muito conhecimento
sobre as chances que cada tributo tem de vencer; e Maysilee Donner, que é
inicialmente descrita como “a garota mais metida da cidade” e acaba se tornando
facilmente a minha personagem favorita de toda a narrativa. E Haymitch acaba se
unindo a Wyatt e Maysilee quando tudo sai depressa do eixo, com a morte brutal
de Louella ainda no desfile de carruagens…
É tão
rápido, tão absurdo, tão sangrento… e Haymitch chama a atenção ali. Para o bom e para o mau sentido. Nada da
imperfeição do desfile, da incompetência da Capital ou da crueldade do
Presidente Snow será mostrado nas transmissões ou guardado para a posteridade,
mas acontece e pode ser visto por quem
está ali. Ao roubar uma carruagem e levar o corpo de Louella até a Mansão
do Presidente, para deixá-lo aos pés de Snow e dizer que “foi ele quem a
matou”, Haymitch passa a ser visto: ele é visto por outros tributos, ele é
visto pelo presidente, que o reconhece como uma ameaça que precisa ser
imediatamente calada, ele é visto por pessoas que precisam de agentes da
revolução, e ele é visto por possíveis patrocinadores na plateia.
Sua atitude
embasará a futura imagem de “malandro”.
Quando os
dias de treinamento começam, Haymitch conhece o inteligente e determinado
Ampert, um garoto do Distrito 4 que tem o próprio pai como mentor – não porque
a família tenha tido a falta de sorte de ter dois tributos sorteados, mas
porque Beetee “aprontou” e, como forma de punição, ele é obrigado a entregar
seu filho à Capital e o assistir morrer nos Jogos Vorazes. Ampert é o
responsável por forjar uma aliança entre vários distritos… todos que não são
Carreiristas e que podem se unir para se tornarem uma força que bata de frente:
talvez eles não sejam tão fortes e treinados em combate, mas eles podem
aproveitar o seu número e a sua inteligência para fazer alguma coisa diferente do que já foi feito… e, assim,
surgem os Novatos.
As
surpresas, no entanto, parecem infindáveis. Quando Haymitch começa a se sentir
confiante de que algo pode ser feito
– a união dos Novatos é promissora e Beetee parece ter uma ideia para “quebrar
a arena” ou, ao menos, “afogar o cérebro que a mantém funcionando” –, o
Presidente Snow o encurrala em uma conversa um-a-um na biblioteca de Plutarch,
e é ameaçador, dentro de uma sutileza perigosa que nos deixa alarmados. Snow
faz questão de demonstrar a Haymitch como ele está familiarizado com o Distrito 12 e com o Bando, o que faz com que
Haymitch se pergunte como isso é
possível, porque ele não sabe o que sabemos sobre os 10º Jogos Vorazes, e a
conversa termina com um “presente” do Presidente Snow a Haymitch…
Uma “nova”
Louella McCoy.
A ideia de
uma “dublê” de Louella é perversa em muitos sentidos: com a própria Louella,
com a sua família, com as pessoas que a conheciam e conviverão com a dublê e,
principalmente, com a própria falsa Louella, que ganha o nome de “Lou Lou”, e
que possivelmente é filha de algum rebelde do Distrito 11 que está sendo
punido. Lou Lou é uma figura curiosa…
ela tem pouca contribuição real à causa dos Novatos, e é estranhíssimo, para
Haymitch, ver alguém “usando” o rosto da sua “queridinha”, mas ela também
parece tão indefesa e não tem culpa dos horrores da Capital, então ela acaba
sendo acolhida pelo grupo, que entende que, ainda que ela não seja Louella,
agora ela é uma deles… e, por vários motivos, Haymitch decide a defender nos
Jogos.
Gosto de
como tem tanta coisa acontecendo antes
da chegada à arena, e como é ali que se estabelece muita coisa importante para
o futuro de “Amanhecer na Colheita”
e da Revolução como um todo, talvez especialmente “Em Chamas”. Beetee está por trás da ideia de reunir os demais
distritos contra os Carreiristas, e Ampert faz um excelente trabalha nisso;
Wiress e Mags, vencedoras de outras edições dos Jogos Vorazes, se tornam as
mentoras dos quatro tributos do Distrito 12, uma vez que não há nenhum vencedor
vivo do distrito que possa mentorear esses tributos; e Effie é apresentada como
a irmã de Proserpina, e aparece para “salvar o dia” quando o Distrito 12 é
novamente negligenciado por seu estilista no dia da entrevista com Caesar
Flickerman.
A
entrevista, pouco depois de Haymitch, de uma maneira ou de outra, fazer
história ganhando uma Nota 1 dos Idealizadores dos Jogos, é um momento
interessante e tenso da narrativa… gosto de como os Carreiristas são diminuídos
e de como os Novatos apresentam uma lealdade e a promessa de união que pode
fazer toda a diferença nos Jogos – ainda que a Capital vá manipular essa
história como bem entender. Aqui, Drusilla define os quatro tributos do
Distrito 12: a cobra, o calculador, a lunática e o malandro. Haymitcn entende
que assumir a máscara de “malandro” é sua melhor chance, e o faz ao falar sobre
a sua Nota 1 e sobre as bebidas que fabrica e vende ilegalmente no 12, na corda
bamba entre “um malandro” e “um perigo”.
Em “Jogos Vorazes”, tivemos uma arena
razoavelmente simples para uma arena muito mais complexa em “Em Chamas”. Em “A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes”, tivemos uma arena que era
um local abandonado e não construído especialmente para os Jogos Vorazes e que
condiz com como as coisas eram nos primeiros anos após a guerra, antes de o
jovem Snow ajudar a transformar os Jogos no espetáculo cheio de parafernália
que se tornou e, consequentemente, prolongá-los por anos indefinidos. Em “Amanhecer na Colheita”, temos a
deslumbrante arena do Segundo Massacre Quaternário, um lugar de enganosa
beleza, cor e vida selvagem que esconde veneno a cada riacho e fruto, e
bestantes das mais cruéis imagináveis.
Naturalmente,
o leitor sabia que tamanha “beleza”
convidativa escondia perigos, e esses são descobertos depressa e ceifam a vida
de alguns tributos envenenados pouco após o banho de sangue em volta da
Cornucópia que tende a iniciar cada edição dos Jogos. Ainda que tivesse uma
suposta aliança com os Novatos, Haymitch escolhe se isolar na arena: afinal de
contas, ele precisa rumar ao norte, explodir um tanque de água no subsolo e
torcer para que o cérebro da arena seja afogado e, com ele, o funcionamento
perfeito daquele lugar… tudo está programado para matar, e Haymitch tem três
companhias nos primeiros dias de arena: um coelho cinza-dove; Lou Lou, que
acaba morrendo; e Ampert, que se junta a ele para colocar o plano em prática.
Eu gosto do
deboche explícito a partir do momento em que Haymitch e Ampert se juntam,
porque eles precisam encenar o tempo
todo, e um entende o outro no meio de coisas que são ditas única e
exclusivamente para despistar os Idealizadores dos Jogos, que não podem saber
de seus planos antes que seja tarde
demais para fazer algo para impedi-lo. Haymitch consegue fazer uma viagem
ao Sub-A e explodir o tanque de água, mas ele é atacado por morcegos bestantes
de cores chamativas, enquanto Ampert é atacado por esquilos bestantes e
carnívoros que o devora da maneira mais assustadoramente brutal possível… ler
àquelas páginas causa sufocamento e uma sensação de impotência que quase se
converte em ânsia de vômito.
Depois da
morte brutal de Ampert, a arena está danificada…
Mas não incapacitada. E os Jogos continuam.
Não é exatamente
uma novidade… era óbvio que Haymitch não conseguiria “quebrar a arena” porque
sabemos que isso é o que uma flecha de Katniss fará em “Em Chamas”. Ainda assim, o sentimento de frustração de Haymitch é
palpável e, enquanto leitores, estamos com ele. O que não quer dizer que ele
desista depois disso, e isso o torna um “rebelde” mesmo quando ele não se
entende como um, e eu adoro a sua determinação, a sua vontade de pintas um
pôster para a Capital ele mesmo. Ele sabe que aquilo tudo é propaganda, ele
sabe de toda a opressão da Capital que é mantida ano a ano com a ajuda dos
Jogos Vorazes, ele sabe de todos os horrores, e ele não quer que pintem esse
pôster com o seu sangue… e por isso ele se mantém firme e pensa em estratégias…
O que ele pode fazer que precise ser
mostrado na edição? Que não possa ser ignorado?
E que passe uma mensagem aos Distritos?
As melhores
partes da arena ficam para depois de Haymitch se reunir com Maysilee, que
também é conhecida como a melhor
personagem desse livro. É muito bonito como a autora constrói a relação
entre os dois, especialmente porque eles nunca foram amigos antes… ele na
Costura, ela filha de comerciante, eles não tinham nenhuma relação no Distrito
12, mas acabam de tornando um dos principais motivos pelos quais o outro luta.
A grande transformação é, no entanto, na relação
deles, mas não necessariamente em quem eles são em sua essência, porque
Haymitch descobre que, na verdade, ele
talvez nunca tenha conhecido Maysilee… ele a observa ser legal com os
Novatos e ajudar vários deles com seus símbolos, por exemplo…
E seus
comentários ácidos contra a Capital são sempre reconfortantes.
O que começa
como uma aliança dentro do jogo e, possivelmente, uma amizade, acaba se
tornando muito mais significativo que eles: eles
passam a se sentir irmãos. Eu adoro todas as interações dos dois na arena,
eu adoro a maneira como eles se protegem mutuamente e como se importam
genuinamente um com o outro, e toda a questão do “meio-a-meio” me emociona –
adoro, por exemplo, quando a Maysilee está brava com o Haymitch, muito, muito
brava, e diz que vai comer a lata de sardinha sozinha por isso, mas ela guarda
a sua parte e entrega no final, e esse é um dos momentos que mais evidenciam
essa relação de irmãos que eles
construíram! Eles agem juntos, e Haymitch precisa dela, embora não possa lhe
contar o plano em detalhes…
Afinal de
contas, os Idealizadores estão ouvindo…
Haymitch
quer ir para o norte novamente, atravessar a cerca viva que delimita a arena e
encontrar, do lado de fora, o gerador que está mantendo tudo funcionando depois
da explosão do tanque no Sub-A. No caminho, eles precisam lidar com joaninhas
bestantes que causam uma sensação de sufocamento assustadora, e Idealizadores
dos Jogos de baixo escalão na arena, mortos por Maysilee e uma Carreirista… é
aqui que o destino de Maysilee é selado: assim como os morcegos programados
para Haymitch e os esquilos para Ampert, a Capital envia um grupo de aves rosas
bestantes programadas para matar Maysilee, e a sua morte, embora soubesse que
era inevitável desde o início, é a mais difícil de presenciar. Sofri demais por
ter que me despedir dela de uma maneira tão brutal e sem poder ouvi-la dizer
suas últimas palavras…
Ela estende,
no entanto, o mindinho. Maysilee e Haymitch tinham prometido que um deles
ganharia aquela edição, para não deixar que nenhum Carreirista vencesse para
exaltar a Capital novamente, e ela reforça aquela promessa em seu último
momento… Haymitch precisa cumpri-la.
Então, Haymitch precisa pensar em uma maneira de passar sua mensagem aos
distritos de uma maneira que a Capital não possa cortar da edição, e também
precisa ajudar a última Novata sobrevivente além dele: Wellie, que ele encontra
fraca e prestes a morrer de fome no alto de uma árvore, e que ele ajuda dentro
do que pode, até o momento em que sai para buscar lenha para uma fogueira,
escuta um canhão e se depara com Silka segurando a cabeça decapitada de Wellie.
As mortes
são todas muito sangrentas e gráficas, absurdamente chocantes mesmo em palavras
escritas. Também é sangrenta e brutal a luta que Haymitch tem com Silka depois
da morte e Wellie… naquele momento, ele é consumido pelo ódio e pelo desejo de
sobrevivência, e tudo escala de maneira perturbadora – Haymitch poderia ter
morrido com os intestinos para fora depois de um golpe do machado de Silka em
sua barriga, mas ele consegue usar o campo de força que descobrira em volta do
gerador do lado de fora da arena a seu favor, então Silka acaba morta pelo
próprio machado que ela joga e retorna para si. A Capital podia não querer
Haymitch como vencedor, muito menos depois da bomba que ele lança no gerador
naquele momento, mas eles precisavam de um…
Eles
precisam expor alguém como o vencedor do “glorioso” Segunda Massacre
Quaternário. A arena em si é apenas o
início do pesadelo. Com tudo muito cru e visceral, aquela experiência é
apenas parte do horror que Haymitch vai encontrar fora dela, como “vencedor”. À
beira da morte e impedido de morrer pela Capital, Haymitch passa dias a fio em
um laboratório em que verdade, memória e alucinação se confundem, e depois ele
passa tantos mais dias sozinho no apartamento que dividira com os demais
tributos de seu distrito e as mentoras designadas a eles antes do início dos
Jogos. Ali, ele é “presenteado” com vídeos de jogos antigos, momentos propositalmente
sangrentos e perturbadores, e um pouco da outra
única vencedora do Distrito 12, uma garota do Bando…
E há uma
figura nas sombras, alguém que ele eventualmente percebe que é o Presidente Snow.
Depois de
dias, Haymitch não sabe quantos, ele é reunido com a sua equipe de preparação,
agora liderada por Effie Trinket. A retaliação pelas atitudes de Haymitch na
arena começa ainda ali, na Capital. E é ali que ele começa a se perguntar se
alguma coisa que fizera valera a pena… na Cerimônia do Vitorioso do Segundo
Massacre Quaternário, apresentada novamente por Caesar Flickerman, ele assiste
a um “resumo” dos 50º Jogos Vorazes e se dá conta de como tudo foi
magistralmente manipulado pela Capital… como, no papel de detentores da
narrativa, eles a adequam para a mensagem que eles querem, para o pôster que eles querem. Tudo é uma grande propaganda, e as
atitudes de Haymitch não significam nada para a audiência… apenas um vencedor malandro.
Ou um babaca.
Quando
coloca a coroa de vencedor em sua cabeça, o Presidente Snow fala sobre como “a
neve cai sempre por cima de tudo” e deseja a Haymitch “um bom retorno para
casa”. É a coisa mais ameaçadora que ele poderia dizer, mas nada prepararia
Haymitch para o que ele vivencia novamente no Distrito 12. Antes de partir, ele
é literalmente exibido como um animal em
uma gaiola em festas na Capital, de maneira asquerosa, e o seu retorno é
segurado, para aumentar a tensão e para “lembrar” a Haymitch que a Capital está no comando e ele não tem
poder nenhum… aqui, Suzanne Collins se sobressai na crueldade e na
perversidade do Presidente Snow, e entendemos como Haymitch Abernathy se tornou
aquele que conhecemos em “Jogos Vorazes”.
Haymitch
chega sozinho na estação, ruma para casa e chega a tempo de presenciar a morte
da mãe e do irmão em um incêndio causado pela Capital, mas que será
eventualmente tratado como “um acidente”. Depois, ele tem a chance de
reencontrar Lenore Dove, que passara esse tempo todo presa na base dos Pacificadores,
e ela morre durante o reencontro deles, comendo uma jujuba envenenada que é
“cortesia do Presidente Snow”, e que mais tarde dirão que foi uma apendicite. O assassinato brutal da
mãe, do irmão e da garota que amava se unem sobre Haymitch a todos os jovens
tributos que morreram durante os Jogos e antes deles, e Haymitch entende o que
Snow quer dizer: ele nunca mais poderá
amar ninguém na vida, ou esse será o destino deles.
Então, ele
se isola. Ele toma um xarope forte que o ajuda a dormir e, quando ele termina,
Hay o substitui por birita, e não temos força ou motivo para julgá-lo… ele se
torna o Haymitch Abernathy que conhecemos como mentor de Katniss e Peeta e
sabemos que um caminho diferente era praticamente impossível. E ele se manteve
vivo porque “Lenore Dove o condenou à vida”, com a promessa que ele tinha de
“impedir outro amanhecer na colheita”. Enquanto convive com traumas, pesadelos
e um luto que nunca terminará, Haymitch é retirado da Vila dos Vitoriosos no
Distrito 12 para ser novamente exibido como “bichinho da Capital” na Turnê da
Vitória, passando de distrito em distrito para terminar em uma gaiola na
Capital…
Literal e
metaforicamente.
E então ele
entende:
“Mas não
posso dizer que não tenho futuro, porque sei que todo ano, no meu aniversário,
vou receber um novo par de tributos, uma garota e um garoto, para mentorear até
suas mortes. Outro amanhecer na colheita”
O livro
ainda nos convida a um vislumbre do futuro… o EPÍLOGO consegue, em duas páginas, ser um misto de emoções: há
beleza e melancolia, socos no estômago e é curioso olhar para Katniss e para
Peeta a partir dos olhos de Haymitch, vê-lo reconhecer que, embora tivesse
decidido não se apegar a nenhum dos seus tributos, às vezes é inevitável. Gosto
da menção a Maysilee, a dona original do broche de tordo, e de como Haymitch
diz que pode não ter impedido o amanhecer na colheita logo depois dos seus
Jogos Vorazes nem ter feito isso sozinho, mas ele teve sua participação – e a
conversa com Lenore Dove foi cumprida. Agora, quando sonha com ela, ela não
está brava ou morrendo… em seus sonhos, Lenore Dove ainda está com ele, o
amando “feito chama-ardente”.
É um final
poderosíssimo, bem como todo o livro!
Abro
parênteses para comentar, inclusive, a maneira como Suzanne Collins,
propositalmente ou não, brinca com algo que foi comentado durante anos por
leitores de “Em Chamas”. Se, lá, os
leitores tiveram uma “surpresa” ao verificar o número de páginas do livro, uma
atitude comum, descobrindo algo antes do tempo, em “Amanhecer na Colheita” Suzanne Collins subverte isso de maneira
divertida. Se você leu as últimas frases do epílogo enquanto verificava que a
história acaba na página 444, você talvez tenha pensado que Lenore Dove estava viva… e, por isso,
toda a sequência da jujuba vermelha na campina se torna ainda mais
desesperadora e mais surpreendente. Queremos duvidar até o último segundo… mas
a crueldade de Snow é implacável.
Retornaremos
a “Jogos Vorazes” em algum momento? É
possível. Gosto da sensação de confiar na escrita de alguém que sempre tem o que dizer, e que mantém o
tom político de seus livros, talvez cada vez mais evidentes. É verdade que “Amanhecer na Colheita” é uma escrita
mais confortável dentro do conceito
de “Jogos Vorazes”, e talvez eu
gostasse de mais um novo ponto de vista em um livro futuro… já vimos, mais de
uma vez, a narrativa dos olhos dos tributos; também vimos a narrativa a partir
dos olhos da Capital com o jovem Snow no livro anterior; talvez possamos ainda
experienciar os jogos a partir do olhar de
quem fica. Os amigos e as famílias de tributos que permanecem nos
distritos: toda a dor, a melancolia e, possivelmente, a revolta acentuada…
São várias
maneiras de lidar com isso, várias
possíveis reações. É algo a se explorar.
Novamente,
Suzanne Collins nos entrega uma obra de tirar
o fôlego. “Amanhecer na Colheita”
é intenso, humano, revolucionário… os horrores da Capital são escancarados sem
a fantasia de uma equipe de preparação que é “simpática” com tributos do
Distrito 12, e a implacabilidade do Presente Snow denuncia um medo secreto do
movimento de resistência crescente nos distritos e, quiçá, dentro da própria
Capital. Haymitch, assim como Beetee, é feito de exemplo a qualquer um que
ousar desafiar a Capital, e a cada momento a crueldade perversa desta parece
maior. E vale lembrar: “Jogos Vorazes”
não é sobre a arena e sobre os jogos em si; é sobre um movimento de resistência
e revolução contra um sistema opressor e desigual, menos distante da realidade
do que gostaríamos que fosse.
Para outras reviews de LIVROS, clique aqui.
.png)
Comentários
Postar um comentário