Se Eu Fosse Você (2006)

“Eu tenho uma dúvida: se eu me jogar da janela, quem morre? Eu ou você?”

Com direção de Daniel Filho e protagonizado por Glória Pires e Tony Ramos, “Se Eu Fosse Você” já pode ser considerado um clássico da comédia brasileira. Embora apresentemos o cinema brasileiro ao restante do mundo com filmes como os muitíssimo comentados e excelentes “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”, ou clássicos como “Cidade de Deus” ou, ainda, “O Filho de Mil Homens”, que é um dos meus filmes nacionais favoritos dos últimos anos, também adoramos uma comédia escrachada e leve que assistimos embaixo do cobertor com um balde de pipoca no inverno. Não há nada de muito original nem na premissa nem na execução de “Se Eu Fosse Você”, é verdade, mas Glória Pires e Tony Ramos fazem com que o filme seja memorável através de suas atuações!

Helena e Cláudio estão casados há muitos anos, têm uma filha adolescente, se amam profundamente… e brigam com alguma frequência. Ele é um publicitário prestes a completar 50 anos, cujo sócio está pensando em vender a sua parte majoritária da empresa por causa de questões financeiras; ela é uma professora de música com um coral para ensaiar e mães desequilibradas com quem lidar (tanto das suas alunas quanto dela mesma). E nenhum dos dois “entende” muito bem o outro. É a premissa tradicional de um casal em que um acredita que a vida do outro é “muito mais fácil” do que a dele, e isso gera uma discussão de acusações e apontamentos que culminam em uma sequência de falas simultâneas que incluem, inclusive, a frase “se eu fosse você…”.

No dia seguinte, eles “são”.

O tropo da troca de corpos rendeu uma série de histórias nas mais variadas mídias, e geralmente acontece porque uma pessoa precisa entender a outra – e o faz literalmente “se colocando em seu lugar”. A maneira como a troca é desencadeada varia, e pode ser por uma dona de restaurante e um biscoito da sorte, como em “Sexta-Feira Muito Louca”, ou por xixi em uma fonte no meio da rua, como em “Eu Queria Ter a Sua Vida”. No caso de “Se Eu Fosse Você”, acontece por causa de um alinhamento dos planetas que só acontece uma vez a cada não sei quantos milhões de anos – e que acontece pelo menos três vezes na vida de Helena e Cláudio, sabe? Com o alinhamento perfeito e as discussões, os dois despertam no dia seguinte com os corpos trocados.

E é a partir daí que Glória Ramos e Tony Pires BRILHAM. Com alguma carga emocional, descobertas interessantes e renovação do amor e do entendimento entre o casal, o foco do filme é a comédia e rende excelentes momentos de comédia do início ao fim. Cláudio precisa aprender a andar de salto no corpo de Helena, por exemplo, e lidar com menstruação, o que o deixa absurdamente derrubado e incapaz de acreditar que ela enfrenta aquilo todo mês; Helena, por sua vez, precisa aprender a lidar com as “novidades” para fazer xixi e com a festa de aniversário de 50 anos do marido, que acontece enquanto eles ainda estão trocados. Amo cenas como a do nado na piscina durante a festa ou Helena convencendo a amiga médica de que a troca é real.

 

“Onde você tá, minha filha?”
“Na merda”

 

Naturalmente, ambos entendem o quanto a vida do outro é difícil… Helena tem muito com que lidar seja ensaiando o coral seja cuidando da casa e de coisas como o planejamento da festa ou, é claro, a filha adolescente com um namoradinho novo; Cláudio, por sua vez, está passando por um momento difícil e estressante no trabalho, sobre o qual ele não comenta em extensão com ninguém. Além de aprenderem sobre as dificuldades alheias e renovar o respeito que talvez estivessem deixando passar, Cláudio e Helena também fazem transformações na vida do outro – e são bem-sucedidos de uma maneira que nenhum deles teria conseguido em seu próprio corpo. Cláudio reinventa o coral de Helena; e Helena reimagina e salva uma campanha de Cláudio.

Gosto de como eles vão se adaptando, descobrindo, se soltando e agindo… gosto, também, de como eles ironicamente passam mais tempo juntos. Helena entrega uma campanha publicitária de lingerie que não objetifica a mulher e conversa com seu público, e consegue um bom contrato para a empresa, além de conseguir a compradora “ideal” enquanto está no corpo de Cláudio conversando com a própria mãe. Cláudio, por sua vez, moderniza o coral de uma maneira que é quase chocante, mas rende uma cena divertida com a 9ª Sinfonia de Beethoven alterada (o que pode ser assustador para fãs de música clássica, mas funciona em termos de comédia), que levanta a plateia. É a sensação de missão cumprida, de orgulho e de respeito que permite que eles despertem de volta em seu próprio corpo no dia seguinte…

“Se Eu Fosse Você” é um filme simples, sem grandes pretensões e talvez por isso mesmo tão aconchegante e tão acolhedor. Fez um sucesso estrondoso com o público brasileiro, tanto que ganhou uma sequência em 2009, com Helena e Cláudio experimentando uma nova troca de corpos, e um terceiro filme sobre o qual se falou durante muitos anos e que agora, 20 anos desde o original, está finalmente chegando aos cinemas – e eu preciso dizer que estou curioso para saber como a história será abordada agora, em que tanta coisa está diferente no mundo em que vivemos… posso estar enganado, mas imagino que teremos um terceiro filme que, além da comédia, também será mais denso em alguns pontos. Rever “Se Eu Fosse Você” é o início da minha preparação para ir ao cinema…

Aguarde comentários de “Se Eu Fosse Você 2” e “Se Eu Fosse Você 3” em breve!

 

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