Além do Tempo – O aniversário de Emília e o despejo de Vitória

“Sorte que a sua mãe está morta… pra ela não ver a pessoa sórdida que a filha dela é”

A viagem de Emília para Belarrosa e a decisão de comprar a Vinícola Ventura e transformá-la em Vinícola Beraldini foi motivada única e exclusivamente por um antigo desejo de vingança… e, agora, Emília está conseguindo colocar em prática o plano que idealizou nesses poucos dias desde que Lívia e Anita trouxeram ao seu conhecimento a vinícola à venda na cidade do sul do país. Assim como a trama de Emília e Vitória foi um dos marcos da 1ª Fase de “Além do Tempo”, as duas devem ainda protagonizar muitos embates nessa nova fase – e nos perguntamos se elas serão capazes de perdoar uma à outra. Afinal de contas, os seus caminhos seguem se encontram novamente para resolver pendências de uma vida inteira vivida a partir do rancor e do ódio… e elas não estão muito distantes disso.

Emília Beraldini detesta a mãe que a abandonou no dia do seu aniversário. A história, no entanto, ainda me parece incompleta… quiçá, “forjada” por memórias induzidas pelo pai de Emília, que alimentou o rancor na filha desde sempre. Em flashbacks, retornamos para o fatídico aniversário de Emília no qual Vitória a abandonou – o dia em que ela decidiu ir embora com Maurício e deixar Alberto para trás. Na cena que vemos, ela abre a porta do carro e deixa para trás a sua família, enquanto Alberto e Emília ficam gritando seu nome e pedindo que ela não vá. Parece extremamente cruel, mas também parece um tanto exagerado… há algo ali que grita que as coisas não foram exatamente assim. Talvez seja o fato de Alberto sair tanto como vítima, quando ele não parece isso…

O modo como Alberto parece querer afastar Emília de Vitória mesmo agora me parece uma sugestão do roteiro de que ele tem algo a esconder – portanto, as coisas não precisam ser exatamente como ele diz que foram, e as memórias de Emília podem estar confusas, construídas a partir do que ela realmente lembra e do que foi dito pelo pai durante todos esses anos. Emília cresceu carregando consigo uma dor profunda e um desejo de vingança que, agora, parece possível. O ódio perverso, no entanto, é fruto do amor que ela sentia pela mãe antes que ela desaparecesse… e é curioso como a vida cria situações como aquela em que Lívia sai para comprar um presente de aniversário para a mãe – o primeiro, já que até então ela nunca quis celebrar a data.

Lívia busca algo no ateliê de Severa – mas acaba não comprando nada quando é atendida por Melissa e, depois, Felipe e Alex chegam –, e termina no antiquário, escolhendo um anel que é uma peça valiosa de Vitória que foi deixado ali em consignação… quando Lívia entrega o anel de presente para a mãe, memórias lhe retornam porque ela conhece aquele anel: é um anel que ela achava lindo quando era criança, e que fora prometido a ela por Vitória. Naquela noite do seu aniversário, Emília resolve o celebrar com um bolo e champagne no seu quarto de hotel, na companhia de Lívia e Anita, enquanto Vitória está esperando por ela com um jantar que preparara para que o prefeito pudesse finalmente assinar o contrato que compraria de volta a casa de Vitória…

Vitória espera ansiosamente por Emília, mas ela não aparece, como sabíamos que ela não apareceria. Quem aparece é um oficial com uma notificação dizendo que Vitória tem 48 horas para deixar a casa, e aquilo parece acabar com a vida de Vitória. Seu mundo desmorona, e Emília consegue o que queria: vingança. Ela olha com prazer para o celular tocando insistentemente, e se recusa a atender porque quer saborear a certeza de que Vitória está surtando com a surpresa que recebera… Vitória, então, aparece pessoalmente à porta de Emília, e o embate entre as duas é intenso e com um quê de perversidade. Emília Beraldini anuncia, tranquilamente, que decidiu ficar em Belarrosa e, por isso, vai morar naquela casa e não pretende mais vendê-la.

O horror de Vitória é visível… Luís tenta dizer que Emília “não pode fazer isso” e Vitória diz que “ela não tem esse direito”, mas, ainda que pareça uma crueldade, legalmente Emília tem esse direito sim… ela comprou a casa, pertence a ela. O que torna a cena mais emblemática, é claro, é o sofrimento de Vitória em paralelo ao prazer igualmente visível de Emília em ver a mãe chorando e perguntando por que ela deixou que ela tivesse esperança, porque no fim percebe que Emília nunca planejou vender a casa para o prefeito. Ela fala sobre a monstruosidade do que Emília está fazendo, a crueldade, e Emília é ainda mais cruel quando diz que o prefeito “pode muito bem encontrar outro lugar para sua ex-amante morar”, e os dispensa, dizendo que é o aniversário de morte de sua mãe e ela quer ficar sozinha…

Vitória vai embora horrorizada, se sentindo mais do que humilhada… e, é claro, a cena ganha ainda mais camadas quando pensamos no fato de “Além do Tempo” ter um salto temporal de 150 anos que apresenta as mesmas almas em vidas distintas – pensamos nesse momento, agora, em paralelo à relação de Emília Diffiori e Vitória Castellini na primeira fase. Sempre houve um quê de arrogância e irredutibilidade nas atitudes daquela Emília, mas o poder e o ódio alimentado pelo pai a tornaram ainda mais implacável nessa vida; Vitória, por sua vez, parece mais suave e mais sofredora, mas talvez ela esteja justamente “pagando” pelas maldades que cometera na vida anterior, tentando matar Emília Diffiori e acabando com a vida dela e de Bernardo?

Carma.

 

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