Socorro! (Send Help, 2026)
Ajuda não está vindo!
Insano e
inesperado, “Socorro!” é uma
experiência curiosa. O filme, protagonizado por Rachel McAdams e Dylan O’Brien,
é uma mistura de drama de sobrevivência e suspense com uma comédia ácida que
propositalmente deixa tudo muito maior e mais exagerado – e é do absurdo que se
extrai o melhor do filme! “Socorro!”
estreou nos cinemas em janeiro de 2026 e chegou recentemente ao streaming, e surpreende talvez mais pela
composição de seus personagens do que necessariamente pelas viradas, que também
me agradam muito. Mas eu gosto da brincadeira constante de “Ahá!” alinhada à maneira como os protagonistas do filme e,
consequentemente, o próprio filme fogem do óbvio.
Quer dizer,
poderia ser o filme clichê em que duas pessoas que se odeiam caem em uma ilha
deserta depois de um acidente de avião e precisam se ajudar para sobreviver,
quiçá até se apaixonam e onde o presidente filho da p*ta e egocêntrico de uma
empresa milionária se torna uma pessoa melhor e aprende a valorizar uma
funcionária competente que maltratou antes, mas “Socorro!” não quer pegar essa estrada. O filme é construído sobre
a ironia realista na qual uma situação extrema exacerba as características já
existentes com mais facilidade do que “muda caráteres”, e o resultado é
selvagem, assustador e perversamente cômico, no meio de tudo.
Linda Liddle
é uma funcionária extraordinária a quem foi prometido o cargo de
vice-presidente da empresa, mas que é menosprezada pela sua falta de traquejo
social e por não atender de fato às expectativas do meio – e, é claro, por não
ser um ex-colega de fraternidade do novo presidente da empresa. Bradley Preston
é o jovem CEO que assume a empresa no lugar do pai e não pensa em cumprir
nenhuma promessa, e ele é a representação mais clara e desprezível de um grande
desgraçado milionário que não está nem aí para ninguém que não seja ele mesmo…
e que tem um problema pessoal com Linda por causa de um sanduíche de atum, sua
aparência e porque ele tem um problema com todo mundo que considera inferior.
É claro que,
quando o avião no qual eles estão cai, os dois são os únicos sobreviventes em
uma ilha supostamente deserta. E, agora, eles precisam sobreviver… o filme é
recheado de excelentes momentos, e eu gosto de como ele dança por gêneros. Eu
gosto de como é um bom filme de sobrevivência com a maneira como Linda, que era
fã de “Survivor” e lia muitos livros
sobre o assunto, sabe fazer muita coisa; também gosto de como é uma boa comédia
que exagera na maneira como ela consegue coisas absurdas em condições
precárias; gosto das pitadas de drama que rendem algumas cenas
surpreendentemente profundas; e gosto do quê de slasher quase inesperado.
Uma
variedade de tons e de ideias que compõem uma obra inusitadíssima!
Tento
retornar ao espectador que eu era no momento da bebida fermentada oferecida por
Linda, por exemplo, na qual eu fui brevemente enganado por aquela sensação de
que havia algo realmente mudando em
ambos, com o efeito da bebida fazendo com que eles falassem de coisas sobre as
quais nunca falaram com ninguém. Bradley fala sobre os problemas que tinha em
sua relação com os pais, o que faz com que Linda entenda “como o monstro foi criado”,
e Linda compartilha a história de como o marido morreu, o que acaba sendo
bastante doloroso e intenso. Há a sugestão de alguma conexão através da
sinceridade aparente, mas ainda há muita coisa escondida…
Os
“interesses pessoais”.
Momentos de
comédia funcionam muito bem com Linda “ensinando” Bradley a como se comportar.
Ela salvou a sua vida quando o mar o levou inconsciente até a praia, mas quando
ele age como se ela não tivesse feito mais do que sua obrigação porque
“trabalha para ele”, ela o abandona por algum tempo apenas para que ele perceba
que não tem chance nenhuma naquela ilha sem ela e “eles não estão mais no
escritório”. Quando Bradley tenta envenenar Linda com frutinhas que ela mesma
mostrou para ele na mata para fugir sozinho em uma jangada precária, ela tem
uma sequência toda na qual o deixa paralisado com um polvo preparado
especialmente para ele e uma sessão de tortura psicológica…
Bradley quer
ir embora dali o mais rápido possível. Linda não apenas não tem pressa de ir
embora: ela não quer ir embora e garante
que isso não aconteça. Ela está “vivendo um sonho” sobrevivendo na mata,
caçando javalis, preparando comidas e abrigos, e ela faz de tudo na manutenção
desse estado. Ela se recusa a pedir ajuda, montar uma fogueira grande ou
construir uma jangada. Ela se esconde de um barco que se aproxima e quando
resgate finalmente chega à ilha na forma de Zuri, a noiva de Bradley com um
chamativo anel de diamante, ela mata a noiva dele e o dono do barco que a
levara até ali… tudo para garantir que seguirão apenas os dois ali… para
sempre?
O filme dá
uma guinada interessantíssima em sua reta final e se torna um thriller psicológico com sequências de
ação e inspirações no slasher
conforme novas coisas vão vindo à tona cada vez mais depressa… Bradley descobre
o quanto Linda está desequilibrada
quando descobre a mão da noiva morta com o anel de diamantes apontando acima da
areia, os dois se atacam mutuamente na mata e na caverna onde outrora se
protegeram de uma tempestade, e Bradley chega ao “lado proibido” da ilha para
descobrir que não tem “cipós venenosos”, como ela dissera, mas uma casa
abastecida de comida, água e armas que ela garantiu que ele nunca encontrasse.
E na qual,
agora, os dois têm seu embate final.
“Socorro!” é fascinante por ser absurdo,
por ser corajoso e por guardar surpresas e brincar com o caos até o último momento. Em muitos sentidos, é um filme CAÓTICO,
e o é propositalmente, por isso funciona tão bem! É, ainda, profundamente
irônico em seu “epílogo” com o futuro de Linda Liddle fora da ilha (ela jogando
golfe, dando entrevista e falando sobre o livro de autoajuda que vai escrever!),
e a sua fala sobre como “ajuda não está vindo e, portanto, você precisa
aprender a salvar a si próprio” resume muito bem o arco da personagem durante o
filme: foi o que ela fez, não foi? O
filme não é nada do que eu esperava… e, sinceramente, que bom que não era!
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