O Diabo Veste Prada 2 (The Devil Wears Prada 2, 2026)
“I always
knew that you would end up doing something great”
“You forgot I existed”
“Right, but… before that, I knew”
O poder das
sequências é inquestionável. Conceito muito comum na indústria cinematográfica,
conhecemos sequências que superaram seus filmes originais, como “O Vingador do Futuro 2: O Julgamento Final”,
ou que conseguiram manter a essência e a qualidade do primeiro filme, como “De Volta Para o Futuro II”, e
sequências com a qualidade tão inferior que preferimos não falar muito sobre,
como as sequências de “Efeito Borboleta”
e de “Donnie Darko”. Durante muito
tempo, vimos a indústria voltar-se a filmes de sucesso e encomendar sequências
que nem sempre foram planejados para
ter uma, e os resultados são os mais distintos. De uns anos para cá, no
entanto, o movimento é um pouco distinto
e a ideia de sequência se uniu ao conceito de nostalgia.
É assim que
grandes clássicos das últimas décadas vêm ganhando sequências que também
apresentam resultados distintos… retornamos a “Os Fantasmas Se Divertem” com uma sequência competente, por
exemplo, ou a “Encantada” com uma
sequência que eu não julgo ser um filme ruim,
mas que certamente fica aquém de seu original e de tudo o que o tornou icônico
e atemporal. Gosto bastante de “Abracadabra
2” e talvez a minha sequência favorita de clássicos que marcaram época seja
“Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda!”,
do ano passado, que é um filme maravilhoso, divertido, aconchegante e “maior”,
sem perder a essência do original. Agora, 20 anos depois da estreia do primeiro
filme, chegou a hora de “O Diabo Veste
Prada 2”.
“O Diabo Veste Prada” é um fenômeno
cultural. Com uma história bem contada, personagens poderosos e carismáticos e
um magnetismo invejável, a história de Andy Sachs e Miranda Priestly se tornou
parte da cultura pop e, justamente por isso, fazer uma sequência é uma
responsabilidade imensa. Escrito por Aline Brosh McKenna e dirigido por David
Frankel, que também eram os responsáveis pelo roteiro e direção do filme de
2006, e com Meryl Streep e Anne Hathaway reprisando seus papéis, “O Diabo Veste Prada 2” é um deleite!
Divertido e atual, o filme retoma o clássico com acenos constantes ao primeiro
filme, ao mesmo tempo em que entende que os
tempos mudaram e, mais do que isso: se aproveita disso para contar sua
história!
Miranda
Priestly continua sendo a responsável pela Runway, mas a Runway não é mais o
que costumava ser… lutando para manter-se relevante e presente, a revista não é
mais publicada em versão impressa e tem custos cortados, mas está realmente em
problemas quando é associada a um parceiro denunciado por trabalho análogo à
escravidão, e eles precisam urgente de alguém capaz de ajudar a gerir essa
crise – e Andy Sachs, agora uma jornalista renomada, acabou de chamar a atenção
no discurso de uma premiação, depois de ela e os colegas de trabalho terem sido
demitidos em massa por SMS, falando sobre como o jornalismo importa. É justamente dessa força, dessa determinação e
dessa coragem que a Runway precisa agora… e
Andy precisa do emprego.
Gosto muito
de ver a Andy andando novamente por aqueles corredores e percebendo como
algumas coisas mudaram e como outras continuam exatamente iguais… o segundo
assistente de Miranda segue proibido de se levanta da cadeira e reforça que
“está tudo bem porque milhares de garotas morreriam por aquele trabalho”, o que
é a mesma coisa que ela ouvia na sua época, e Miranda continua bastante
autoritária, fria e distante – embora agora ela pendure o seu próprio casaco
(amo o comentário sobre como antes ela “costumava jogar o casaco nas pessoas”)
e sua primeira assistente a ajude a entender as coisas que ela pode e não pode
dizer, o que gera bons e breves momentos de comédia durante uma reunião da
Runway, por exemplo.
O trabalho
feito por Andy no primeiro filme não era
o seu trabalho dos sonhos: era um degrau rumo ao seu real objetivo. Agora, ao
retornar para a Runway, ela de fato
está fazendo algo que gostaria de fazer e que pode, sim, ser seu trabalho dos
sonhos – embora as mudanças no consumo pareçam exigir que ela faça coisas às
quais não está habituada e que talvez não queira fazer: não basta escrever bons
textos e informar às pessoas… ela precisa
fazer com que as pessoas sintam vontade de clicar
em seus textos para lê-los e, enquanto isso não acontecer, ela não será
reconhecida. Por isso, ela está em busca de validação novamente, embora seu
trabalho seja excelente, e a conquista no momento em que consegue uma
entrevista desejada e que parecia impossível, com Sasha Barnes.
Aquele é o
primeiro ponto de virada do filme: à sua maneira, Miranda reconhece o seu
trabalho e a Runway tem um salto interessante e promissor que é rapidamente
colocado à prova no momento em que Irv Ravitz, o dono da revista, morre durante
o jantar em celebração aos seus 75 anos. Quando Jay assume a frente da revista,
a incerteza toma conta de todos… a promoção aguardada por Miranda parece
colocada em cheque, e o corte de custos será tão drástico que a revista deve
passar por uma série de demissões e assumir uma forma que a descaracterize por
completo. Então, Andy resolve fazer
alguma coisa para salvar a Runway, a Miranda e, embora ela demore para
assumir isso abertamente, a si mesma e o seu emprego que paga bem!
É em torno
da busca de soluções que gira a maior parte do roteiro de “O Diabo Veste Prada 2” e, novamente, Andy e o seu trabalho se
modificam mutuamente. Acho muito bacana trazer de volta a Emily, que agora é a
chefe na Dior, e de como a Andy acredita que a sua ajuda é para salvar a Runway
quando, secretamente, ela quer a posição de Miranda para si… então, para
“consertar o erro que cometeu”, Andy recorre à própria Miranda, e gosto de ver
as duas trabalhando oficialmente juntas talvez pela primeira vez, enquanto
Nigel fica responsável por um discurso importante em Milão, Lady Gaga fica a
cargo da música durante o desfile, e Andy e Miranda partem para a reunião mais
importante de sua vida, com alguém que pode comprar não apenas a Runway, mas
todo o complexo…
Sasha Barnes.
Parte de mim
reconhece o trabalho duro e a dedicação de Miranda Priestly e faz com que eu a
admire como uma figura empoderada que é boa no que faz e luta pelo que quer;
outra parte, no entanto, não consegue ignorar por completo a relação abusiva
que ela tem com seus funcionários e não consigo ver essa “inocência” toda dela,
que alega nunca ter percebido que o Nigel queria algo mais do que ficar sempre à sua sombra, porque ela sabia da promoção com a qual ele sonhara no primeiro filme. Em
termos de roteiro, no entanto, é justamente isso o que torna Miranda Priestly
uma personagem tão rica: o fato de ela ser multifacetada e de podermos
explorar, ainda que discretamente, algumas nuances que a tornam mais do que
algumas pessoas a julgam.
Quanto à
Andy, é bom vê-la amadurecida. Ainda que, ao retornar à Runway, ela lembre
demais a jovem que abaixava a cabeça e buscava validação, a evolução do filme
enfatiza o tempo que passou e a profissional que ela se tornou: ela não vai
mais permitir que Miranda faça o que quiser dela e a trate como costumava
tratar, e a própria Miranda percebe isso mais cedo do que imaginamos. Dessa
vez, elas estão em setores diferentes, mas em posições parecidas diante de uma
crise, e é essa paridade que se concretiza visualmente na última cena do filme,
quando a câmera se afasta do prédio da Runway e vemos que Miranda, Andy e Nigel
estão, agora, ocupando três escritórios parecidos, um ao lado do outro… mantendo a revista viva.
Assim como
no primeiro filme, a conversa de Andy e Miranda no carro é emblemática. Não é
uma “correção” à cena no primeiro filme de modo algum, porque o teor dos
diálogos, embora complementares, é distinto. É preciso entender que, no filme
original, Andy não abriu mão do seu
“emprego dos sonhos”, tampouco deixou o trabalho por causa do namorado ou dos
amigos: ela o fez por perceber que estava esquecendo-se de si mesma e
tornando-se alguém que ela não queria ser;
ela precisava se afastar para se reencontrar e se realizar profissionalmente,
como se realizou nos 20 anos que separam esse filme do outro. Aqui, a conversa
talvez seja mais íntima porque Miranda se permite sinceridade ao falar com ela sobre trabalho.
Miranda fala
sobre o que fez e o que faz, sobre o que sacrificou e sobre como não se
arrepende. Dessa vez, ela permite que Andy a veja, e não há hierarquia tão
díspar, porque elas estão juntas trabalhando em interesses próprios, com o que
se pôde conquistar de respeito e por tempo indeterminado. “O Diabo Veste Prada 2” é bem-sucedido em muitos sentidos: além de
reunir equipe e personagens do primeiro filme e de manter-se fiel a ele e a seu
espírito, ele faz o que uma boa sequência deve fazer que é dar um passo adiante… vemos o cenário se transformando, vemos os
personagens amadurecidos ou amadurecendo e chegamos a um ponto que é diferente
de onde estávamos no fim do primeiro filme ou no início desse. Um filme
delicioso que faz jus ao clássico!
Foi bom
estar de volta!
Para a review do primeiro “O Diabo Veste Prada”, clique
aqui.
Para reviews de outros filmes, clique aqui.
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