O Cativo (El Cautivo, 2025)

O cativo contador de histórias.

OS CINCO ANOS QUE MIGUEL DE CERVANTES PASSOU PRESO EM ARGEL, CAPITAL DA ARGÉLIA. Escrito e dirigido por Alejandro Amenábar, “O Cativo” é um filme de 2025 que cobre, de maneira fictícia, o período que se estende entre 1575 e 1580, no qual Miguel de Cervantes ficou preso em Argel, depois de ter sido capturado por mouros no mar – enquanto alguns cristãos eram mortos e outros renegavam em troca de sua liberdade, Cervantes se refugiava nas histórias que inventava e que contava, enquanto secretamente planejava uma fuga. Sempre habilidoso com as palavras e capaz de mentir com convicção, Cervantes chama a atenção do paxá responsável pelos cativos da cidade, Hasán Bajá, com quem forja uma relação que envolve interesses e desejos.

O filme é uma obra de ficção. Uma especulação curiosa que parte do que se sabe e preenche lacunas com possibilidades. Não há compromisso com a realidade, mas com a história que está sendo contada, o que poeticamente parece perfeito para um recorte da vida de um grande contador de histórias. “O Cativo” foi lançado no 48º Festival Internacional de Cinema de Toronto antes de chegar aos cinemas e, posteriormente, à Netflix em lançamento internacional, e marcou sua presença em alguns prêmios, como o de Melhor Maquiagem e Cabelo no 40º Goya Awards e no 13º Platino Awards, bem como o de Melhor Ator Revelação para Julio Peña no 81º CEC Medals e no 34º Prêmio do Sindicato de Atores e Atrizes, por sua interpretação de Miguel de Cervantes.

A beleza da obra chama a atenção. A construção do pátio do paxá onde ficam os cativos versus o esplendor quase boêmio da cidade de Argel forma um contraste visualmente interessante de se assistir, e há ainda um terceiro elemento que vem das histórias imaginadas por Cervantes, que compartilham os mesmos cenários com as demais, mas diferem em tom, trilha e ritmo, tornando-se algo novo, prazeroso e fascinante. Conforme dias e dias intermináveis de prisão se sucedem naquele pátio quente, tedioso e opressor, Cervantes coloca algo de vida no lugar ao distrair seus companheiros com histórias envolventes que terminam em ganchos e fazem seus ouvintes ansiarem por mais… durante alguns minutos do dia, se ouve risadas e aplausos que parecem quase deslocados ali.

É o poder da história como elemento transformador da realidade.

Essa contagem contínua de histórias chama a atenção de Hasán Bajá, o paxá que secretamente escuta as palavras de Cervantes através da janela de seu palácio, e que o chamam para saber mais. Ele próprio um antigo cristão convertido mouro e entendedor de histórias, ele tem dúvidas que instigam resoluções na história inventada da filha do paxá que jogou ouro e um recado para o cativo. O paxá instiga Cervantes para longe da obviedade de um romance proibido, e Cervantes se desafia a melhorar sua história em troca da própria vida ou de manter ambas as orelhas… e, uma vez que tenha agradado o paxá, ele ganha horas de liberdade na cidade até o pôr-do-sol, e ele vislumbra uma vida com a qual nunca sonhou – a cidade exerce claro fascínio sobre o contador de histórias.

O plano de Miguel de Cervantes é, no entanto, escapar. Suas histórias são quase dicas de como se espera fazê-lo, e a primeira tentativa é frustrada quando eles são dedurados por Dorador convertido em Yusuf. O que parece ser o fim de Cervantes, no entanto, acaba sendo o catalisador que faz com que o paxá oficialmente se interesse por ele. Em busca de um autor do plano que seja o culpado que ele pode matar como exemplo, o paxá admira a convicção com que Miguel mente, e não lhe escapa a acusação de sodomia feita contra ele – algo em que ele tem interesse pessoal. Achando que morreu e foi para o céu, Miguel desperta sendo cuidado pelos mancebos do paxá, na cena que julguei a mais sensual do filme… os pelos molhados de seu peito sendo limpos por um tecido, o óleo sendo passado em suas pernas e na bunda…

É ironicamente delicado e intenso… belo e excitante.

Portas se abrem para Miguel de Cervantes uma vez que ele “cai nas graças” do paxá, e ele conquista pequenos momentos de “liberdade” pelas ruas de Argel toda vez que agrada o governante com uma nova história… seja inventada por ele ou escolhida dos livros que ele tem disponível para leitura. Miguel anda na corda bamba, testando limites e descobrindo o que agrada e o que desagrada o paxá, e os dois forjam uma relação inesperadamente próxima, que envolve uma intimidade quase tensa, de sentimentos confusos. Gosto particularmente da cena que eles compartilham na banheira, quando Hasán o beija e, quando Miguel interrompe o beijo, Hasán percebe que ele está tremendo e pergunta se é porque o deseja ou porque o teme. Talvez seja ambos.

Quando Hasán se afasta, Miguel segura sua mão de volta e o coloca em si.

Um beijo quente, profundo, desejado há muito.

Argel, a cidade, é quase um personagem vivo dessa narrativa. Suas ruas cheias de vida transbordam de prazeres e possibilidades… na “barbearia” de Abderramán, Miguel observa enquanto outros homens se entregam juntos ao prazer da carne e ele bebe e se diverte, retornando à noite para seu cativeiro onde é recebido com curiosidade, julgamento ou inveja por seus companheiros, que desconhecem a completude de suas intenções. Ele é cobrado por “passar o dia se divertindo” enquanto um de seus companheiros, que tentou escapar quando o portão foi deixado aberto para que ele saísse, foi morto naquele dia. E dentre quem mais o julga está o desprezível Juan Blanco de Paz, o padre que historicamente manteve uma péssima relação com Cervantes enquanto ambos eram cativos.

Miguel de Cervantes passa a conhecer a cidade, e faz amizades que são importantes para o seu plano vindouro, que começa a ser colocado em ação quando ele convence outros cativos a gozarem de algumas horas de “liberdade” enquanto fazem trabalhos em Argel – e ele planeja uma fuga de 30 cativos, que poderia até ter dado certo, se ele não tivesse sido delatado por Juan Blanco de Paz… a pessoa de quem mais sentimos raiva enquanto assistimos a “O Cativo”. Incapaz de acusar outra pessoa de seu plano enquanto o paxá implora por um nome que ele possa matar em seu lugar, Cervantes é condenado à forca pela tentativa de fuga, mas Hasán detém a execução antes que seja completada. Nos quatro meses seguintes, Miguel permanece em silêncio em seu palácio.

Hasán Bajá talvez tenha de fato se afeiçoado a Miguel de Cervantes – o que sente envolve desejo e, quiçá, esse interesse romântico e sexual, mas também há algum sentimento de posse e a vontade de ser o único interlocutor de suas histórias fantásticas. Quando o clérigo que visualmente nos remete propositalmente ao Dom Quixote, com direito a um “Sancho Pança” em um burrico e tudo, chega a Argel disposto a comprar a liberdade de Cervantes, Hasán faz uma proposta ao cativo contador de histórias, desejando mais do que tudo que a sua vontade seja feita: ele planeja ir embora com Cervantes naquele dia e lhe garante que ele lhe dará tudo o que ele quiser… ele poderá viver com ele em sua casa, como um rei, e seguirá lhe contando histórias.

A decisão, no entanto, cabe a Cervantes…

E ele escolhe partir.

No contexto do filme, o interesse do cativo pelo paxá pode ser real, mas não é maior do que o seu desejo por escrever histórias e ser lido por todo mundo, não apenas por uma pessoa… isso é o que ele quer fazer, então ele aceita o resgate e é levado de volta ao seu país junto a outros cativos resgatados, como acontecia uma vez ao ano, com as acusações de Juan Blanco de Paz prontamente ignoradas porque Cervantes cativou as pessoas com quem convivera naqueles cinco anos de prisão. Acho emocionante e muito representativo ver Miguel de Cervantes chegando a La Mancha no fim do filme, com os seus moinhos que lembram gigantes, onde ele escreverá até o fim de sua vida. “O Cativo” é uma narrativa intensa, envolvente e apaixonante. Gostei demais do filme!

 

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