Se Eu Fosse Você 2 (2009)

“Você acha que uma maluquice dessa é tipo bienal?”

QUANDO UM RAIO CAI DUAS VEZES NO MESMO LUGAR. Com um processo de divórcio em andamento, a gravidez e possível casamento da filha adolescente e uma nova troca de corpos porque às vezes o raio cai sim duas vezes no mesmo lugar, “Se Eu Fosse Você 2” foi lançado nos cinemas brasileiros em 02 de janeiro de 2009 como sequência do sucesso de “Se Eu Fosse Você” e é surpreendentemente melhor do que o primeiro! Com momentos de comédia icônicos, Tony Ramos e Glória Pires extremamente à vontade no papel do outro e um roteiro mais denso e tocante sem perder o bom-humor, o segundo filme parece menos com uma esquete prolongada por 90 minutos e se sai bem em todas as instâncias de sua proposta, se tornando um filme delicioso!

Pouco tempo depois da troca de corpos que iniciou a franquia, o caos reina. Bia, a filha de Cláudio e Helena, acabou de descobrir que está grávida e pensa em como vai contar isso aos pais, mas ela não encontra o momento entre tantas brigas que podem acabar em divórcio… Helena está expulsando Cláudio de casa e contando à filha que agora ele será um pai ausente “em caráter oficial” e Cláudio está acusando a menopausa pelo “descontrole” de Helena, e a briga escala até que um mal-entendido leve Helena a acreditar que Cláudio está com outra mulher, então ela o procura na casa do Nelsinho, onde ele está ficando, para convocá-lo para uma audiência que dá início oficialmente ao divórcio deles. E é bem ali que a troca de corpos vai acontecer.

Toda a introdução do filme dá material para o desenvolvimento da trama. As brigas em frente aos advogados não permite que nenhum acordo seja feito e, quando eles estão indo embora, eles compartilham um “clima pesado” no elevador. Eu gosto bastante de como a troca de corpos não acontece durante a noite dessa vez, mas em uma descida de elevador… a discussão acalorada traz algumas falas sincronizadas, assim como foi no primeiro filme, e então um problema nas luzes e uma descida inusitadamente longa os joga um no corpo do outro, com uma troca visual e sonoramente inteligente. Agora, eles acham que só precisam aguardar, como da outra vez, e despertarão de volta nos seus próprios corpos no quarto dia – mas isso não vai acontecer se eles não fizerem nada.

É claro que a história da gravidez de Bia só vem à tona após a troca, e ela conta para o Cláudio achando que está contando para a Helena – e é um surto! Cláudio está furioso (e a Bia dizendo “Você sabia que eu transava, mamãe!” não ajuda como ela acha que ajudaria) e Helena tenta apaziguar as coisas, para a confusão da filha… e vai ficando ainda pior quando eles conhecem os pais do Olavinho, que parecem vindos de outro mundo (um mundo onde o dinheiro definitivamente não é um problema), e assumem que Bia e Olavo vão se casar. Eu gosto do absurdo, do improvável, do descabido… e eu me diverti com as reações de Cláudio conforme a história avançava e se tornava cada vez mais assustadora, dizendo para a Helena que “ia enfartar”…

“Não inventa de enfartar com o meu coração! Eu suicido você!”

A comédia funciona à perfeição em uma série de cenas… a cena da Helena no corpo de Cláudio indo para o futebol com o Nelsinho é, por exemplo, perfeita em todos os sentidos! Também ri do Cláudio no corpo de Helena, com medo dos alfinetes enquanto prova vestidos para o casamento ou a Helena indo às compras de “roupas mais alegres” com o corpo de Cláudio, inclusive encontrando Carla, a mulher com quem achou que Cláudio a traía, e que agora parece ter certeza que o Cláudio é gay… e, por falar em “ser gay”, Helena também faz o professor de hip hop acreditar que o Cláudio é gay com o seu comportamento e dança na aula, e ele tenta chamar o “Cláudio” para sair depois, o que eu amei! E o Carlos Bonow está lindíssimo aqui, diga-se de passagem.

Conforme os dias passam e esse ciclo de mudança de corpos não chega ao fim quando eles esperavam, Cláudio se lembra de como eles transaram da outra vez antes de mudarem de volta, e Helena até está relutante inicialmente, mas acaba cedendo – “Tô me sentindo uma vadia” – e isso também não funciona – “Ai meu Deus, será que dessa vez a gente vai ficar trocado pra sempre?”. Me diverti muito com a Helena/Tony Ramos depois do sexo, e com a incapacidade de ambos de entenderem que a “destroca” é uma recompensa que vem no momento em que eles descobrem e/ou aprendem algo… e eles ainda não estão se permitindo isso. O destino talvez dê um empurrãozinho quando Bia liga para “Cláudio” dizendo que “Helena está tendo um surto”.

Se no primeiro filme o Cláudio teve que lidar com menstruação, ele não precisa mais se preocupar com isso agora, porque Helena vai passar algum tempo sem menstruar – HELENA ESTÁ GRÁVIDA! Ou melhor, O CLÁUDIO ESTÁ GRÁVIDO! E isso nos rende uma das melhores cenas de todo o filme, quando tanto Cláudio quanto Bia acordam de madrugada para procurar comida e conversam na cozinha sobre como elas estão se sentindo, com o Cláudio sendo bem insensível falando sobre como “é uma loucura carregar um bebê dentro de si”, e se comparando com “um daqueles ovos de Páscoa que tem uma surpresa dentro” ou com um canguru, o que é maravilhoso! No fim da conversa, com ambas gravidíssimas e nervosas, elas saem cada uma em uma direção para vomitar…

“Cláudio, você tem certeza de que quer ser mãe?”

O dia do casamento tem suas surpresas… um atraso exagerado de Bia que não sabe mais se acredita no amor, porque Cláudio e Helena não param de brigar; a notícia da gravidez de Cláudio; uma cerimônia estranhamente chorosa; o encontro de João Paulo e Carla; a dança dos noivos e, depois, dos pais dos noivos. E, aos poucos, Cláudio e Helena vão se acertando, resolvendo mal-entendidos, aceitando que amam um ao outro, e o universo decide que eles estão prontos para voltar aos próprios corpos, em uma cena também muito boa que envolve o buquê da filha, um lustre antigo, luzes piscando e as mãos juntas em volta do buquê. É rápido, simples e emocionante, e nos conduz a uma conclusão com direito a música e coreografia na festa de casamento.

É um filme divertidíssimo e ocasionalmente emocionante.

Incrivelmente superior ao primeiro em qualquer sentido!

 

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