Lord of the Flies (2026) – Episódio 1: Piggy

Sociedade.

Publicado em 1954, “O Senhor das Moscas”, o livro de estreia de William Golding, é um clássico da literatura britânica com uma premissa riquíssima e cheia de possibilidades de leitura e discussão: um grupo de garotos que cai em uma ilha deserta e, na tentativa de governar a si mesmos e organizar uma sociedade, beiram a barbárie. Ao longo dos anos, a obra ganhou uma série de adaptações, que envolvem filmes, peças de teatro, áudio e graphic novels, e uma nova adaptação chega à TV agora em 2026, com quatro episódios de aproximadamente 1 hora, com roteiro de Jack Thorne, direção de Marc Munden e nomes como Winston Sawyers, David McKenna, Lox Pratt e Ike Talbut dando vida a alguns dos garotos protagonistas dessa história.

O primeiro episódio, protagonizado por “Piggy”, é excelente, e eu gosto do tom encontrado para a série. Eu gosto de como existe um quê de desconforto no ar, que ainda não chega ao desespero, mas gera um sentimento de apreensão constante. Há algo de intimamente estranho e perigoso no ar, e isso se intensifica pela trilha sonora, pelos efeitos de câmera que mexem com proporções e pelas pausas calculadas que são uma excelente maneira de criar suspense. As diferenças notáveis entre os garotos chama a atenção, e gosto de como enquanto Piggy e Jack parecem dois opostos, outros garotos parecem muito menos definidos e oscilam entre um “lado” e outro, dentre eles o próprio Ralph, o primeiro amigo de Piggy e o garoto escolhido como “líder”.

Parece seguro dizer que Piggy é um líder nato, mas não é a figura de líder admirada e que será seguida – e ele mesmo admite isso. Com sua asma que o limita ocasionalmente e algumas outras barreiras, como o medo da água, Piggy é uma figura central dessa narrativa enquanto Ralph, nesse primeiro momento, parece seu porta-voz. Os dois se encontram no meio da floresta depois do acidente de avião que os deixara sozinhos naquela ilha, e Piggy o incentiva a soprar uma concha como uma forma de “chamar” os demais garotos que sobreviveram e estão por ali. Assim, eles formam um grupo grande na praia da ilha, sem nenhum adulto à vista, e dentre as crianças surge o grupo liderado por Jack, de garotos do coral que se sentem superiores aos demais.

Depois de uma votação que elege Ralph como o líder, Jack anuncia que o seu grupo é o exército e assumirá a responsabilidade pela caça, e é mais ou menos aí que a divisão se intensifica. O próximo episódio deve explorar mais de Jack, esse garoto que aprendemos a desprezar tão depressa, enquanto nesse há um grau elevado de sensatez em Piggy, que nem sempre é ouvido. Seus planos são bons: ele quer explorar o lugar, subir montanhas para tentar descobrir onde estão, definir lugares para serem usados como banheiro, diferente do lugar de onde pegarão água para beber, encontrar comida, construir abrigos, cuidar dos pequenos… Ralph, o “líder”, é muitas vezes um espectador que tende a um lado ou outro conforme lhe convém.

Curiosamente, pode ser a característica de um líder que se dá bem.

Uma das cenas mais emblemáticas desse primeiro episódio acontece quando o grupo de exploração se depara com o corpo do piloto do avião, como uma representação de que não existe nenhum adulto ali com eles mesmo. O tratamento dado ao corpo beira a selvageria muito cedo. Enquanto Piggy tenta negociar um enterro para o piloto, os demais garotos liderados por Jack querem jogá-lo no mar – e acabam literalmente o jogando. As falas de Jack sobre como o piloto “cometeu um erro e não merece respeito por isso” indicam sua crueldade barbárica, e existe um quê de prazer na maneira como ele joga aquele corpo penhasco abaixo, como um símbolo de que agora ele está no poder. Ele é do tipo que sente que pode fazer o que quiser.

O confronto de Jack e Piggy é um dos cernes desse episódio inicial. Gosto muito, ainda que me cause angústia, da cena em que Jack tem a chance de matar um porco para levar aos outros meninos a carne que prometera, mas ele hesita e acaba deixando o porco fugir, mas ele não aceita que foi isso que aconteceu e decide culpar Piggy pelo fato de o porco ter fugido. A cena me faz detestar Jack (e me faz perceber como Lox Pratt será um excelente Draco Malfoy!), mas me faz amar ainda mais o Piggy por ele não baixar a cabeça e falar sobre o que vira: sobre como Jack não teve coragem de matar o porco, e está tudo bem. Jack é tão ameaçador e tão articulado que ele consegue fazer com que Piggy mude sua atitude e diga que não vai contar a ninguém.

Estou curioso para saber mais sobre Jack e se a nossa visão dele pode mudar.

Além disso, também temos os outros personagens que são importantes e que ainda temos que conhecer melhor, como o Simon, um dos garotos do coral que não parece tão ruim quanto o Jack, e o próprio Ralph, que está desempenhando o papel de líder e “tem seus momentos”. Gosto de quando ele pergunta a Piggy seu nome real – Nicholas ou Nicky –, mas ele pouco consegue se impor contra Jack e o seu grupinho. Se há uma humanização de Piggy/Nicky na cena do nome, ela parece desaparecer na cena da fogueira, quando usam o seu óculos para colocar fogo em um pouco de palha sobre uma pilha exagerada de madeira podre que ele adverte que é demais… ninguém o escuta, e parece que eles estariam melhor se alguém o escutasse.

A fogueira que acendem no topo da montanha acaba se tornando grande e se espalhando depressa, causando um incêndio e, consequentemente, um problema extra com o qual lidar, e é um caos de desespero, gritos, tosses – fiquei profundamente angustiado pensando na asma de Nicky, sobre a qual ouvimos falar desde o início do episódio, mas ele felizmente consegue levantar depois de cair e bater a cabeça, e ele continua correndo, naquele cenário de fogo e destruição, desempenhando o papel de líder não-oficial que desempenha desde o início. Dessa vez, é ele mesmo quem toca a concha para reunir as crianças ao seu redor na beira do mar, e é ele o único que parece se dar conta da ausência de algumas crianças. Um primeiro episódio impactante, que mostra a que veio.

Excelente!

 

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