O Último Azul (2025)

Vislumbrar um futuro.

Lançado no Festival de Cinema de Berlim de 2025 – onde foi o vencedor de três prêmios, dentre eles o Urso de Prata –, “O Último Azul” é um filme de Gabriel Mascaro protagonizado por Denise Weinberg, ambientado em um Brasil distópico onde todas as pessoas idosas são levadas compulsoriamente para uma “Colônia”, sob o pretexto de poderem viver uma velhice “digna”, quando a desumanização da pessoa idosa em todo o processo e os anos de vida que o antecede é tão evidente que é impossível de sequer acreditar nisso: considerados pesos para a sociedade, para as famílias e ameaças para “a produtividade do país”, as pessoas são privadas de sua liberdade e “escondidas” em um lugar supostamente maravilhoso do qual ninguém pode retornar…

A mensagem é clara: não existe mais lugar para eles na sociedade.

O filme é um drama melancólico que se encaixa em características da ficção científica e, como toda boa ficção científica, é uma extrapolação que se volta à nossa realidade atual como crítica e sátira. O etarismo é um tema atual, e se vem discutindo há alguns anos as condições de envelhecimento em nossa sociedade. Conforme aumenta-se a estimativa de vida, também se estende o tempo de trabalho e “contribuição”, enquanto o ser humano é visto como um item explorável na geração de capital, até o momento em que ele pode ser “descartado”. A famigerada “Colônia” que impulsiona a trama do filme é apenas um símbolo material de uma invisibilização que já acontece, e é justamente isso o que torna “O Último Azul” tão poderoso e tão doloroso.

Tereza é uma mulher de 77 anos que sabe que seu tempo em sociedade está chegando ao fim. Em três anos, ela será obrigada a mudar-se para uma colônia distante do mundo como o conhece, mas ela se surpreende com a visita em sua casa de funcionários do governo que têm perguntas estranhas sobre sua condição… e ela acaba descobrindo que uma nova determinação alterou a idade de 80 para 75 anos, o que quer dizer que ela será levada para uma Colônia dentro de alguns dias. Tereza não tem mais controle nenhum sobre a própria vida, sendo parada em todos os lugares, sendo impedida de viajar sem autorização da filha que “tem sua guarda”, não podendo nem comprar um açaí sozinha e correndo o risco constante da humilhação de ser levada em um “Cata-Velho”.

É como se ela fosse reduzida a nada, porque é assim que a veem…

Como se ela não tivesse valor algum.

Antes de partir para a Colônia, Tereza quer realizar sonhos e viver. Pensar em perder a sua liberdade de uma hora para outra causa uma sensação sufocante e uma urgência por fazer qualquer coisa contrária a isso. Ela tenta “voar de avião”, por exemplo, mas nenhuma agência de viagem ou aeroporto vende uma passagem para ela sem a autorização da filha, e ela tenta recorrer à possibilidade de voar em um ultraleve… é ilegal e perigoso, mas tem um lugar mais ou menos próximo no qual ela talvez consiga fazer isso, e ela sente que não tem nada a perder, e é assim que ela começa uma jornada em busca de alguém que possa ajudá-la a realizar o seu sonho. Mais do que isso: alguém que possa ajudá-la a fazer com que ela se sinta uma pessoa de verdade uma última vez.

No caminho, Tereza acaba conhecendo Cadu, o personagem interpretado por Rodrigo Santoro que é o responsável por um barco que trafega mercadoria ilegal, e ela passa pouquíssimo tempo com ele, sabe pouco a seu respeito além da história breve da mãe que queria ir para a Colônia, mas não tinha idade, e da esposa que o traiu e ele a abandonou, mas aprende duas coisas que serão importantes eventualmente na “compra” de sua liberdade: como pilotar um barco; e as propriedades do caracol de baba azul, raríssimo. Interessante como a nossa vida, em muitas ocasiões, é marcada por encontros que não precisam ser duradouros para importarem, e a verdade é que, sem ter conhecido Cadu e ter ficado “presa” com o caminho fechado por algum tempo, ela não teria o conhecimento de que precisava, afinal…

Tereza não consegue voar em um avião nem em um ultraleve. Com o seu dinheiro perto de acabar e sem que o homem que lhe prometera consiga arrumar o motor e colocar o ultraleve no ar, Tereza precisa retornar para casa, comprando uma passagem que depende da autorização da filha – a filha que colocou a polícia em seu encalço por seu “desaparecimento” e que lhe faz passar pela humilhação de ser carregada em um “cata-velho”, o que é provavelmente a representação mais irônica dessa desumanização da pessoa idosa, tratada como se fosse um animal. Tereza é colocada à força a caminho de uma Colônia, obrigada a usar uma fralda e ser fiscalizada, embora não precise disso, com um discurso doente de como “estão fazendo o melhor para ela”.

E, novamente, ela foge.

Essa nova fuga parece e precisa ser definitiva. Se for pega novamente, talvez Tereza nunca mais tenha a chance de fugir, e viverá para sempre presa na Colônia ou algo pior… e é nessa segunda fuga que ela conhece Roberta, uma mulher idosa e estrangeira que viaja em um barco vendendo bíblias digitais, embora seja ateia, e que “comprara a sua liberdade” na forma de um certificado que lhe garante que ela não será levada para uma colônia. E nesses dias ao lado de Roberta, Tereza acaba se sentindo mais viva do que nunca – e, pela primeira vez, ela vislumbra um futuro. A melancolia constante encontra uma beleza arrebatadora nesse sentimento de esperança que não apaga o quão dolorosa é toda a premissa do filme, mas que nos permite, ao lado de Tereza, esperar por algo diferente.

É a coragem aprendida com Roberta e a alternativa apresentada por ela, assim como os ensinamentos de Cadu que permitem que Tereza encontre um caminho e busque a própria liberdade – de maneira arriscada, mas possível, que a leva até o Peixe Dourado depois de ela ter encontrado um caracol de baba azul… ou ter sido encontrada por ele. Se mais cedo ela não quis utilizar um porque não acreditava que tinha “um futuro a ser vislumbrado”, agora é Tereza quem abre essa porta, porque finalmente acredita que pode ter um futuro, e o conquista. A conclusão do filme nos permite soltar a respiração que estava presa há sabe-se lá quanto tempo, mas ainda com a cabeça a mil e um pesar notável no peito… “O Último Azul” é forte, triste, real e necessário. Ótimo filme!

 

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