Wicked (Brasil, 2026)

“Todos têm direito de voar!”

“WICKED” É UM FENÔMENO. A “história não contada das Bruxas de Oz” chegou à Broadway em 2003, com Idina Menzel e Kristin Chenoweth nos papeis de Elphaba Thropp e Galinda Upland, respectivamente, em um musical de Stephen Schwartz e Winnie Holzman, vagamente baseado no livro de 1995 de Gregory Maguire, e são mais de 20 anos em cartaz, com um sucesso absurdo! Além de produções por todo o mundo, dentre elas a do West End, em Londres, onde o musical está em cartaz desde 2006, “Wicked” também foi adaptado para o cinema em duas partes, a primeira lançada em 2024 e a segunda, com o subtítulo “For Good”, em 2025, com Cynthia Erivo e Ariana Grande nos papeis protagonistas, talvez fazendo com que o musical chegasse a ainda mais pessoas.

No Brasil, “Wicked” também tem uma história longeva. Com Myra Ruiz e Fabi Bang nos papeis de Elphaba e Galinda/Glinda, o musical chegou aos palcos brasileiros pela primeira vez em 2016, em uma versão réplica grandiosa que foi um grande sucesso, fazendo com que o musical retornasse alguns anos depois, em versões non-replica. A primeira delas estreou em 2023, com novos cenários e figurinos; e a segunda, remontada novamente com outra identidade visual, chegou aos palcos de São Paulo em 2025, fazendo a primeira temporada do musical no Rio de Janeiro agora em 2026. Em todas essas versões, Myra Ruiz e Fabi Bang foram as atrizes titulares dos papeis de Elphaba e Glinda, o que gera algumas discussões pertinentes na internet, mas não me estenderei.

Elas são ótimas? São.

Poderíamos ceder lugar a outras atrizes titulares? Deveríamos.

Isso criou um grupo de fãs das atrizes e não do musical? Sim.

Minha relação com “Wicked” sempre foi muito intensa. Minha leitura do livro original de Gregory Maguire me marcou profundamente e se tornou tema do meu TCC na faculdade de Letras, em um estudo de Literatura Comparada com “O Maravilhoso Mágico de Oz”“Wicked” é um livro muito mais denso e político do que o musical, de leitura que pode assustar àqueles que não foram previamente avisados disso, mas é um livro fenomenal e riquíssimo. Além de gravações na internet, algumas que eu mesmo legendei para que pessoas próximas pudessem assistir, assisti ao musical ao vivo na Broadway em janeiro de 2015 e, pouco mais de um ano depois, assisti à versão brasileira de 2016. Não consegui assistir à versão de 2023, mas fui ao Rio de Janeiro ver a nova montagem…

E é de tirar o fôlego. “Wicked” sempre é. A ideia de uma produção que não seja réplica da original é sempre um desafio – e tem seus prós e contras. Confesso que algumas escolhas de figurino me apetecem mais na versão original: a roupa de Fiyero, por exemplo, ou os uniformes da Universidade de Shiz; a Cidade das Esmeraldas também parece mais deslumbrante na versão da Broadway, de alguma maneira. O voo de Elphaba ao fim de “Desafiar a Gravidade (Defying Gravity)” na atual versão brasileira, no entanto, é uma das melhores experiências que se pode ter no teatro musical… o fato de a Elphaba literalmente voar sobre a plateia durante a conclusão da música leva a plateia ao delírio, e passamos os 15 minutos inteiros do intervalo ainda embasbacados.

Sempre gostei muito da história de “Wicked”. O musical abre com “Sem Perdão à Bruxa”, o anúncio da morte da Bruxa Má do Oeste e a celebração dos Cidadãos de Oz depois de uma garota chamada Dorothy ter jogado nela um balde de água que a fez derreter. Uma pergunta de uma Munchkin sobre uma possível amizade entre Glinda e a Bruxa Má do Oeste faz com que a Bruxa Boa admita que os seus caminhos se cruzaram na universidade, e então a história retorna para a Universidade de Shiz e a juventude de Elphaba e Glinda, quando um sentimento que nasceu como ódio e repulsa acaba se transformando em uma inesperada amizade, que marca a vida de ambas para sempre, mesmo com altos e baixos que envolvem desentendimentos, brigas, traições e um sentimento sincero.

Elphaba Thropp nem sempre foi a famigerada “Bruxa Má do Oeste”. Uma garota verde, desprezada pelo próprio pai, que se sente culpada pela morte da mãe e a deficiência da irmã, que sofre preconceito por sua cor e que tem um dom que não sabe controlar e/ou entender. Há algo de inocência e de esperança imaculada em sua versão mais jovem que vai se perdendo conforme as coisas em Oz se revelam tais como são… toda a expectativa colocada em sua viagem à Cidade das Esmeraldas para conhecer o Maravilhoso Mágico de Oz é frustrada quando ela descobre que ele é o responsável por tudo de mal que tem acontecido em Oz… e seu poder é usado por ele. Uma vez que ela não aceita se submeter às coisas com as quais não concorda, ela é taxada de “Bruxa Má”.

E, ao desafiar a gravidade, ela foge para o Oeste.

Toda a parte política de “Wicked”, embora seja profundamente amenizada no musical de palco em comparação ao livro (sério, eu amo o livro!), ainda é notável em toda a discussão protagonizada pelo Mágico de Oz e a Madame Morrible, com o Dr. Dillamond sendo um personagem importante para que se entenda a situação: Animais outrora sábios e falantes perdendo o dom da fala, sendo silenciados, caçados e colocados em jaulas… sendo chamados de “subversivos” e sendo monitorados, capturados, mortos. É contra o fascismo do Mágico que Elphaba luta, e é por ir contra o sistema que ela se torna a “Bruxa Má do Oeste”, uma vez que quem está no poder é quem “conta a história” e tem o poder de manipulá-la a seu favor. O Mágico é o narrador não-confiável, “vítima da temível bruxa”.

Galinda Upland, por sua vez, é uma personagem muito mais complexa do que muita gente pensa… há críticas consonantes com a grande temática em “Popular”, por exemplo, e o seu desenvolvimento é interessante, embora ela trilhe caminhos distintos de Elphaba, com as duas se afastando justamente em “Desafiar a Gravidade”: uma é capaz de desafiar o sistema por não concordar com ele, independentemente das consequências; outra se submete a se tornar um peão em um grande jogo cujo glamour lhe apetece. Eventualmente, Glinda está em uma situação mais favorável para enfrentar o sistema pelo local onde foi colocada por eles mesmos, mas só é possível graças a Elphaba, de alguma maneira… e é delicioso ver a Glinda do fim do musical…

Aquela que expulsa o Mágico e manda prender Morrible.

Myra Ruiz e Fabi Bang interpretam essas personagens há muito tempo… o que é quase perigoso, e existe uma linha tênue entre racionalidade e maldade desnecessária nas críticas feitas a elas. Eu gosto muitíssimo de Fabi Bang e eu acho que ela é excelente para a comédia e entrega um “Popular” incrível, por exemplo, mas é verdade que ela talvez quebre a personagem vezes demais e nos dê, ocasionalmente, a sensação de estarmos assistindo mais à Fabi Bang do que à Glinda. Além das protagonistas, o musical conta com Hipólyto interpretando Fiyero, Baccic como o Mágico de Oz, a excelente Karin Hills como Madame Morrible (nesse momento, queríamos uma música dela!), Luisa Bresser como Nessarose, Pedro Balu como Boq e Arízio Magalhães como o Doutor Dillamond.

Elphaba nos entrega momentos musicais incríveis em “O Mágico e Eu” e “Todo Bem Tem Seu Preço” que, nessa versão, conta com um pequeno voo da bruxa ao final e funciona muito bem. Glinda, por sua vez, se destaca em “Popular” e momentos como “Sem Perdão à Bruxa” ou “Que Dia! / Não Dá Pra Ser Mais Feliz”. Ambas nos encantam e emocionam em “Tudo Mudou”, que é um dos grandes momentos de “Wicked”. Fiyero é apresentado em “É Só Dançar” e tem uma cena maravilhosa com Elphaba em “Se Eu Tenho Você”, que é uma das minhas canções favoritas do musical. Nada, no entanto, se equipara à grandiosidade já mencionada de “Desafiar a Gravidade”. A intensidade dessa música, a virada que ela representa para a história e o voo de Elphaba sobre a plateia!

PERFEITO!

“Wicked” é e sempre será uma experiência grandiosa. Foi bom estar de volta a Oz!

 

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