O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights, 2026)
“Catherine
Earnshaw, I will love you 'til the day that I die, and forever after”
Se você é um
fã do livro, esse provavelmente não é “O
Morro dos Ventos Uivantes” que você conhece… ou espera. Publicado
originalmente em 1847, o livro de Emily Brontë é um clássico da literatura
inglesa com um quê de gótico e um quê de político, que recebe uma adaptação em
2026 que ignora algumas de suas temáticas que podem ser a força da obra
original. O filme, escrito e dirigido por Emerald Fennell, brinca com o exagero
que traz, além da melancolia inata, uma intensidade que dança por temáticas
eróticas e pelo horror que me remete a obras como “Frankenstein” e “Nosferatu”.
A construção do filme sobre esse tom é uma escolha criativa… acertada ou não,
foi uma escolha feita deliberadamente ao contar essa história.
Eu ainda não
consegui decidir o que eu achei, se vou ser inteiramente sincero. Não me sinto
nem ao menos capaz de dizer se eu gostei ou não… e reconheço a estranheza de
estar escrevendo esse texto antes de chegar a uma conclusão, mas talvez pensar
a respeito do filme enquanto escrevo essas palavras me ajude a tomar uma
decisão… ou não. Sem ser um grande conhecedor da obra de Emily Brontë, sinto
que há incômodos causados pela adaptação aos mais aficionados pelo livro que
não me afetam, e que talvez colaborem à minha experiência com o filme de forma
independente, e também reconheço que a maior parte da sensação de incômodo é oriunda de elementos
propositais… “O Morro dos Ventos
Uivantes” não é para ser uma obra confortável.
Me pergunto
se a decisão criativa de encarar “O Morro
dos Ventos Uivantes” como uma “história de amor” é a mais acertada, quando
temáticas de orgulho, abuso, classe social e preconceito são tão pertinentes e,
quiçá, mais embasadoras da trama do que o romance em si. Olhar para a obra como
uma história de amor é uma decisão
deliberada que pode ser percebida nos pôsteres e frases de divulgação do filme
protagonizado por Margot Robbie e Jacob Elordi, que dão vida a Catherine
Earnshaw e Heathcliff, respectivamente. Eles são o fio condutor de toda uma
trama que envolve um amor enterrado, interesses, rancor, desejo de vingança e
ânsia por mais.
Catherine Earnshaw sempre quis mais. Presa a uma
vida sem quaisquer luxos, ela vê na chegada dos Linton a chance de mudar de
vida – e depois de seis semanas na companhia de Edgar e Isabella, ela de fato
começa a se comportar de uma maneira diferente, como se já pertencesse a um
mundo ao qual não pertence de fato… e isso a afasta de Heatchliff, o homem que
trabalha para seu pai e que foi “acolhido” pela família ainda na infância,
submetido a uma série de torturas e maus-tratos, não apenas pelo pai, mas
ocasionalmente pela própria Catherine. Ainda assim, eles cresceram
estranhamente apaixonados um pelo outro, em um sentimento mútuo que era
encarado de maneiras distintas por cada um: possível para um, impossível para
outra.
Sinto que a
construção da relação de Catherine e Heathcliff, romântica ou não, funciona
bem. Ela é cheia de nuances desde a infância… existe um quê de provocação, um
quê de maldade que é equilibrado pela mesma proporção de proteção, de quase
dependência. Quando crescem, cenas como aquela em que Heathcliff a impede de emitir
sons enquanto assiste a outras pessoas transando ou quando Catherine está se
masturbando e é flagrada por ele acentuam o desejo mútuo enquanto a ambição de
Cathy por uma vida diferente da sua os afasta, porque ela acha que Heathcliff
jamais poderá oferecer a ela o que Edgar Linton talvez possa. O sentimento
amargo começa a nascer muito antes do momento em que as vidas deles mudam para
sempre…
Catherine
aceita um pedido de casamento do Sr. Linton, e embora ela se arrependa na mesma
noite, seu destino é definido em uma conversa com Nelly, que é parcialmente
ouvida por Heathcliff. Ele não escuta a parte em que ela diz que o ama ou
quando diz que mudou de ideia e vai dizer isso a Edgar… ele escuta apenas a
parte em que Catherine está dizendo que “estar com ele a degradaria”. Então,
Heathcliff desaparece pelos anos seguintes, alimentando um rancor ao lado de
uma vontade de provar que ela estava
errada, enquanto Cathy se torna a Sra. Linton e se condena a uma vida de
infelicidade ao lado de um homem que não ama, incessantemente esperando por
outro que ela não sabe se chegará a ver novamente… até que ele retorna.
O retorno de
Heathcliff é um ponto importante de “O
Morro dos Ventos Uivantes”, porque altera a dinâmica de Catherine na casa
dos Linton, que agora também é sua casa. Isabella, até então devota de maneira
quase assustadora a ela, se torna uma
possível inimiga declarada quando Catherine demonstra ciúmes frente a
possibilidade de ela investir em Heathcliff, e quando Cathy descobre que Nelly
teve uma parcela de culpa na partida de Heathcliff e tenta mandá-la embora, ela
conversa com Edgar que proíbe os encontros da esposa com ele – encontros que
haviam se tornado um refúgio contra a infelicidade e o inalcance da vida real.
Momentos profundamente eróticos que são convertidos em saudade quando eles são
inevitavelmente separados…
E, então, as
coisas tomam um rumo sombrio. Novamente rejeitado, Heathcliff propõe casamento
a Isabella com o único propósito de atormentar Catherine, e consegue o que
quer, embora ambos terminem igualmente atormentados… Catherine é atormentada
pela ausência de Heathcliff, a imaginação do que ele faz com Isabella e a
infelicidade de sua própria vida e gravidez, que resulta em uma depressão
profunda e isolamento; Heathcliff, por sua vez, é atormentado pelo que julga
ser a indiferença de Catherine conforme envia-lhe cartas e mais cartas em busca
de uma reação, mas não recebe
nenhuma, porque as cartas nem mesmo chegam a Catherine, queimadas antes por
Nelly… e é um jogo perverso e terrível que culmina em eventos propositalmente
chocantes.
A ruína
interna e externa dos personagens é exacerbada por cenários quase artificiais
de cores exageradas que buscam externalizar sentimentos e que vão refletindo a
narrativa – o quarto de Catherine, apresentado desde o início com paredes que
remetem à cor de seu rosto, perde a vivacidade conforme a vida de Catherine se
esvai, tanto pelo isolamento, pela falta de comida e pela tristeza quanto pelo
sangramento que só é notado tarde demais, quando não há mais como salvar a vida
de Catherine… e enquanto ela morre, Heathcliff tenta chegar até ela, mas não
logra vê-la com vida. Abraçado ao corpo, mas ainda ouvindo sua voz, ele pede
que ela o assombre, que ela o atormente, que ela não o deixe em paz, porque é
essa ânsia de tê-la que aceita qualquer forma de presença e atenção.
“It is unutterable. I cannot live without my life. I
cannot live without my soul. You... You said I killed you. Haunt me, then! Be
with me always. Take any form. Drive me mad. Only please do not leave me in
this abyss where I cannot find you”
É doentio…
propositalmente doentio. Há muito a ser explorado em “O Morro dos Ventos Uivantes” que é deixado de lado nessa
adaptação, com o foco aqui sendo direcionado à incompletude de um amor que não
foi devidamente vivido e, por isso, se tornou algo que muito pouco se assemelha
a amor de fato… perdura, ao fim do filme, a sensação de estranheza e de um
incômodo quase sufocante que é proporcionado pelo tom bucólico constante. No
início do texto, eu me perguntava o que eu tinha achado a respeito da obra… ao
fim deste, talvez eu continue me perguntando a mesma coisa. Mas são temas
complexos de amor, obsessão, sexualidade, posse e frustração que resultam em
uma obra que, por um motivo ou outro, não passa despercebida.
É impactante
à sua maneira.
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