O Drama (The Drama, 2026)
“What’s the
worst thing you’ve ever done?”
E se você
descobrisse que você não conhece tão bem quanto acreditava conhecer a pessoa
com quem você está prestes a se casar, na semana do seu casamento? E se você
fizesse, depois de umas taças a mais de vinho, uma confissão sobre algo de
quando você tinha 15 anos e que não te representa mais, e isso colocasse o seu
relacionamento e todo o seu futuro em risco? Escrito e dirigido por Kristoffer
Borgli e protagonizado por Zendaya e Robert Pattinson, maravilhosos em seus
papeis, “O Drama” chegou aos cinemas
em março de 2026 com uma história inusitada e corajosa, em uma trama que
envolve um quê de humor bizarro e a construção de um suspense interessante que
te deixa vidrado e incerto de como as coisas se desenrolarão… é uma experiência
bastante envolvente!
O filme é de
uma complexidade que eu confesso que desconhecia, porque escolhi assistir sem
ter tantas informações prévias, e isso rendeu boas surpresas. Inteligente e
tocando em assuntos delicados sobre relacionamento, confiança e traumas, o
filme dança por diferentes tons em diferentes momentos da narrativa: um quê
belo de clichê de comédia romântica
nos primeiros minutos, com toda uma história contida em memórias e flashes enquanto discursos para o
casamento estão sendo preparados, e isso cede lugar ao que se torna quase um
terror psicológico quando um jantar e um “jogo” mudam drasticamente o caminhar
da trama… dali em diante, o filme se aventura pelo suspense e pelo drama em uma
crescente que eventualmente se torna sufocante.
É tudo muito
intenso, propositalmente… e talvez isso seja o que tenha me feito gostar tanto
do filme. Eu o terminei com uma palavra mais forte do que qualquer outra em
mente: FASCINANTE. É imperfeito, surpreendente, desesperador e esperançoso – e
eu sinto que eu ainda tenho muito a
pensar, mesmo depois de os créditos terem aparecido na tela. E destaco,
ainda, quesitos técnicos que o tornaram tão incríveis: além das atuações
estarem no ponto certo para nos aproximar dos personagens e fazer com que
sintamos por eles, a montagem do filme é quase um personagem por si só… eu
adoro a agilidade calculada de memórias, a sobreposição de cenas que dão a
ideia do turbilhão que tudo se tornou, a alternância entre realidade e
projeção, a calma que prolonga sensações quando necessário…
A montagem
faz um trabalho excelente!
Emma Harwood
e Charlie Thompson estão prestes a se casar… o relacionamento deles começou em
uma cafeteria onde Charlie mentiu ter lido o livro que Emma estava lendo apenas
para ter um motivo para se aproximar e falar com ela, e enquanto os dois estão pensando nos discursos que farão na
cerimônia/festa no próximo fim de semana, conhecemos os detalhes de seu
relacionamento de dois anos – o primeiro encontro, o primeiro beijo, o sexo
maravilhoso, a risada imperfeita… eu gosto demais de como eu sorri feito um tonto durante toda essa sequência, e eu posso ou
não ter terminado como o Mike, emocionado com o discurso cheio de coração que
Charlie escrevera. O casamento vindouro é desafiado,
no entanto, por uma revelação…
Emma e
Charlie estão com Mike e Rachel, um casal de amigos, provando comida do buffet
e vinhos para a festa quando tudo acontece: Mike e Rachel falam sobre como,
antes de se casarem, fizeram uma coisa de “contar um ao outro qual foi a pior
coisa que já fizeram”, e agora eles compartilham suas histórias com os noivos e
pedem que eles façam o mesmo… e, por algum motivo que tem mais a ver com o
álcool no organismo que qualquer outra coisa, Emma conta que planejou um
tiroteio na escola quando tinha 15 anos, mas ela nunca chegou a seguir adiante
com a ideia, embora tenha gravado alguns vídeos e tivesse acesso a uma arma
porque o pai tinha um rifle em casa… foi praticando com o rifle, inclusive, que
ela perdeu a audição de um ouvido.
E Charlie
nunca soube de nada daquilo.
Ali, o clima
do jantar, do relacionamento e de todo o filme muda drasticamente.
Charlie quer
continuar pensando em Emma como ele sempre pensou… mas, na verdade, ele não
consegue. A história não sai de sua cabeça, e ele fica se perguntando se ele de
fato conhece a mulher com quem está prestes a se casar, e uma série de memórias
vem à tona e começam a fazer com que ele se pergunte se ela é perigosa ou algo
assim. O teste da sessão de fotos para o casamento é uma das cenas mais emblemáticas de todo o filme,
porque Charlie e Emma simplesmente não se
sentem mais confortáveis um com o outro, enquanto a fotógrafa tenta
conduzi-los fazendo-os falar sobre as coisas que mais amam um no outro ou sobre
como eles se conhecem perfeitamente. Charlie apaga trechos de seu discurso aqui
e ali porque não tem mais certeza deles…
E, em pouco
tempo, ele não tem mais discurso nenhum.
De certa
maneira, Emma quer que eles deixem isso de lado, porque é pesado demais para
ela, e ela não sabe por que contou, mas garante que ela o ama e que ela é a
mesma pessoa que ele sempre conheceu, mas a relação vai rapidamente se
desgastando porque Charlie não consegue pensar em absolutamente mais nada – e
ela lhe pergunta se ele está repensando o casamento. Os dois se arrastam pelos
compromissos para preparar tudo, tão perto da cerimônia, enquanto tentam
conversar sobre isso. Emma não quer fazer isso até depois do casamento; Charlie
não quer deixar isso para depois porque não falar sobre o assunto vai fazer com
que as coisas cresçam e retornem muito piores depois. E nós sentimos a angústia de ambos os lados… nós a
compartilhamos.
Emma
compartilha detalhes de sua história… e tudo vai ficando cada vez mais
complexo. Eu não sei se Emma teria tido coragem de seguir adiante com a ideia
de entrar na escola atirando em todos, e eu sinceramente acredito que não, mas
Charlie quer uma confirmação de que “está tudo bem” que não pode lhe ser dada
por outra pessoa. É perturbador que Emma diga que “gostava da estética”, por
exemplo, mas nós reconhecemos nela as cicatrizes de uma adolescente que sofria bullying na escola de maneira
consistente sem nunca ter tido a chance de lidar com isso… ela era uma
adolescente machucada, com a raiva cozinhando dentro dela, com a influência de
uma série de tiroteios acontecendo por todo o país e com acesso a uma arma.
O filme é
complexo… estranhamente complexo. Emma nunca chegou a atirar em ninguém, nunca
chegou a machucar ninguém, e talvez ela estivesse mais pedindo socorro do que qualquer coisa. Cenas como aquela em que ela
chora e recebe um abraço em um exercício da escola são muito fortes. E ela se
envolve em toda uma trama contra a posse
de armas quando ainda é adolescente, que resultam no abandono do seu
“plano” e no rifle do pai jogado em um lago. O que fez com que ela não seguisse
adiante, no entanto? E é o suficiente para que ela seja outra pessoa agora? Eu
acredito que sim, e sinto que o Charlie também acredita que sim, embora ele
ainda esteja processando aquilo tudo… e é difícil, quando ele achou que tinha
tudo tão claro na sua frente.
De um lado,
Charlie sofre enquanto tenta convencer a si mesmo que está tudo bem e que ele
conhece Emma; de outro, Emma sofre porque percebe que Charlie não a olha mais
da mesma maneira. E recomeçar parece tão
complicado. E seguir em frente fingindo que nada aconteceu parece impossível.
Ainda assim, é o que eles fazem… e as coisas escalam de maneira assustadora,
culminando em uma terrível recepção de casamento que quase fez com que eu me
escondesse atrás de uma almofada. Com a respiração presa o tempo todo, eu quase
queria cavar um buraco e me enfiar nele. O discurso do pai de Emma, a risada de
Rachel antes de seu próprio péssimo discurso, o que Emma ouve Misha dizendo do
lado de fora do banheiro, a revelação extra do que houve entre Charlie e Misha
no trabalho, o discurso de Charlie.
É
DESESPERADOR.
Como eu já
disse antes: é a intensidade que me convenceu. O filme fez com que eu sentisse demais, o resultado é
esplêndido. O rosto ensanguentado de Charlie ao fim do filme e a tristeza de
Emma com um casaco qualquer por cima do vestido de noiva são as representações
do emocional destruído de ambos durante uma semana infernal e cheia de dúvidas…
o fato de os dois estarem, depois de uma cerimônia de casamento muito mais do
que imperfeita, na mesma lanchonete à qual planejaram ir antes que tudo
descarrilhasse é, no entanto, a representação da certeza que importa naquele
momento: que eles se amam. A maneira
como eles fazem o “jogo” deles, que quiçá remonta ao primeiro dia, de “começar
de novo” é a melhor maneira de encerrar o filme.
“O Drama” é fascinante – talvez seja
algo parecido com o que dizem sobre um acidente de trem do qual não conseguimos
desviar o olhar. “O Drama” é um
grande acidente de trem que nos aterroriza e nos choca, mas morbidamente não
conseguimos deixar de olhar para ele. Vai muito além do que minhas expectativas
previram, e eu o amo por isso. A variedade de temas inclui traumas,
julgamentos, pedidos de socorro, incerteza, quebra de expectativas e, sim, o
amor. É um jogo psicológico intenso e ocasionalmente perturbado que consegue
contar uma história de maneira inusitada e envolvente, e certamente não será um
filme a ser esquecido facilmente. Eu sei que eu continuarei pensando nele por
algum tempo… e Zendaya e Robert Pattinson estavam deslumbrantes em todos os
sentidos!
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