Homem-Aranha: Um Novo Dia (Spider-Man: Brand New Day, 2026)



“Why don’t you just be honest with yourself? Are you Peter Parker? Or are you Spider-Man?”

“I’m both”

 

Não é à toa que o Homem-Aranha é chamado de “Amigão da Vizinhança” e muitas vezes é retratado como essa figura adorada pela cidade de Nova York – sabe, quando as coisas não dão terrivelmente errado. Sua popularidade é inegável; “Homem-Aranha: Um Novo Dia” foi lançado no fim de julho desse ano, aproximadamente cinco anos desde o último filme do herói no cinema, e alcançou uma bilheteria de mais de 1 bilhão de dólares em seu primeiro fim de semana… atualmente, o filme já passa dos 2 bilhões, e o boca-a-boca segue impulsionando esses números, porque uma coisa é certa: O FILME É BOM! Depois de um feitiço do Doutor Estranho ter feito com que todos se esquecessem de Peter Parker, ele está mais sozinho do que nunca… e isso é importantíssimo na composição desse filme.

Quatro anos se passaram dentro do universo. Ned e MJ foram para MIT e já se formaram, e Peter assistiu a tudo a partir de stories e reels, os observando de longe, mas seu nunca se aproximar de verdade – afinal de contas, ele fizera o que fizera para protegê-los, não foi? Com a morte da Tia May e sem a namorada e o melhor amigo, Peter está absolutamente sozinho. Ele “finge” uma vida triste e solitária de um jovem em seus 20 e poucos anos, quando passa a maior parte de seu tempo sendo o Homem-Aranha. E, como Homem-Aranha, ele prospera: ele prendeu um número absurdo de criminosos, fez amizade com uma policial que é a única pessoa com quem ele conversa, e ele é adorado como o herói de Nova York, em quem todos confiam e de quem todos gostam.

Mas lhe falta algo…

Lhe falta uma vida de verdade.

A melancolia é muito forte na construção da história desse quarto filme de Tom Holland como o herói, e essa é uma característica muito marcante em todas as versões do Homem-Aranha, nos quadrinhos e nas adaptações: já tivemos um Peter marcado pela morte do Tio Ben, tivemos a traumática morte de Gwen Stacy, e agora temos a junção entre a morte da Tia May e o total apagamento de sua existência das vidas das pessoas que ele mais ama… Ned e MJ seguiram as suas vidas e ele é apenas um espectador. É doloroso, e isso define não apenas o tom do filme, mas também o seu tema principal: A SOLIDÃO. É isso o que vai fazer com que ele entenda a “antagonista” (?) do filme tão bem, embora cada um tenha lidado de uma maneira com as suas dores.

O filme também lida com toda a transformação pela qual Peter está passando e que se manifesta de maneira física conforme a mutação aracnídea parece avançar em seu corpo – talvez desencadeada por um evento traumático que foi ver MJ com outro namorado em uma “festa de casa nova” à qual ele compareceu seguindo o Ned. Peter se depara com uma sobrecarga de sensações e teias orgânicas, que rendem boas cenas de descoberta… o excesso de teias, o descontrole, o nojo que ele sente, e a maneira como o filme aproveita para explorar o físico definido e de fato muito bonito de Tom Holland. Mas ele tenta silenciar isso tudo ao perceber que ele está ficando fora de controle – e é por isso que ele vai até a faculdade onde Bruce Banner está trabalhando…

Ele precisa desenvolver um inibidor.

Como parte do Universo Cinematográfico da Marvel, embora o filme se sustente muito bem de maneira independente, ele conta com “participações especiais” com diferentes tempos de tela: temos Yelena Belova, a atual Viúva Negra do MCU, em cenas rápidas que são de grande ajuda, e um “escritório” que, convenhamos, é a sua cara; temos Bruce Banner como o Professor e, eventualmente, como o Hulk, quando sua mente é controlada e ele é usado como uma arma contra o Homem-Aranha; temos a participação de Frank Castle, o Justiceiro que faz a sua estreia no cinema depois de o personagem ter aparecido em algumas séries que compõem esse universo; e, é claro, temos a estreia de Jean Grey, abrindo as portas para histórias dos “X-Men” no MCU.

Durante todo o primeiro ato do filme, a identidade da pessoa que “salta” de uma mente a outra e de um corpo a outro é mantida em segredo… e isso rende sequências eletrizantes de ação, e é interessante demais ter uma ameaça que não tem um rosto definido, e que pode ser qualquer pessoa com quem Peter encontra: pode ser uma pessoa passando na rua, pode ser uma senhora idosa que trabalha como faxineira em local apropriado, pode ser a ex-namorada que Peter secretamente deseja que se lembre dele. A ameaça dessa força quase imaterial dá um tom curiosamente místico às perseguições, e o Homem-Aranha precisa de alternativas criativas para lidar com um “vilão” diferente de todos que enfrentara antes… gosto demais da sequência do helicóptero, por exemplo!

Eventualmente, essa “força” ganha um rosto e um nome, e não qualquer nome, mas um conhecido dos amantes de quadrinhos: Jean Grey. Subitamente, tudo começa a fazer sentido, e entendemos a ideia de “entrar na mente de outra pessoa e usá-la como trampolim”, e Jean Grey está em uma busca incessante de algo… algo que Peter desconhece, e ele não chega a fazer as perguntas corretas porque ele está habituado a acreditar que “o pessoal do Departamento de Controle de Danos é seu amigo”. Então, ele desenvolve um “inibidor universal”, parecido com o que Bruce Banner usa e que ele mesmo está usando agora, para neutralizar os poderes de Jean Grey, e então ele consegue detê-la, e entregá-la de bandeja para as pessoas que lhe causaram danos.

Quando ele percebe o seu erro, ele espera que não seja tarde demais.

No meio disso tudo, Peter Parker/Homem-Aranha ainda lida com a solidão e o desejo de manter MJ em segurança… quando sabe que Jean Grey está indo atrás dela, ele consegue salvá-la e a leva até o esconderijo de Frank, o Justiceiro, o que rende algumas das melhores cenas do filme… eu gosto das conversas entre Peter e Frank, bem como das conversas entre o Homem-Aranha e MJ, enquanto ela fala sobre o pouco que sabe sobre ele, mas como não o viu como um monstro – levemente tocando no assunto do inibidor e se ele é de fato necessário. Tudo funciona como uma alegoria para a solidão e para tudo o que Peter está tentando silenciar dentro de si durante esses quatro anos: foi para que não precisasse lidar com a própria tristeza e a própria solidão que ele se afundou no trabalho…

Que ele se tornou o “Amigão da Vizinhança” em tempo integral.

Mas ele guardou consigo a carta que escrevera para MJ enquanto ainda pensava em lhe contar tudo, antes de mudar de ideia e deixar que ela seguisse com a sua vida… e ele não entregou essa carta a ela, mas talvez ele quisesse, inconscientemente, que ela a encontrasse – e é o que acontece quando ela fica sozinha na casa do Justiceiro. O caminhar das cenas é muito interessante: MJ não pode dizer que o ama, porque ela não o conhece e não tem nenhuma das memórias sobre as quais ele fala, mas ela quer ver seu rosto… e acha que talvez ele deva contar para o Ned também. A cena dos três no apartamento, embora ele esteja ali como o Homem-Aranha e não como Peter Parker, é uma das mais leves e bonitas do filme e, por alguns minutos, ele vive o que queria tanto viver…

O que sempre quis e não pôde nesses quatro anos.

Ele sentiu falta deles.

É em uma conversa com MJ que Peter percebe o erro que cometeu: ele percebe como Metzger mentiu para ele sobre Jean Grey, então ele precisa ir até lá. Enquanto isso, a audiência também a conhece, enfim. Antes de desmaiar, Jean Grey disse ao Homem-Aranha um nome: Sara. Sara Grey é a irmã de Jean, que compartilhava com ela o mesmo poder e que foi levada pelo Departamento de Controle de Danos, onde ela serviu de experimento e de cobaia, em uma tentativa de militarização desse poder… isso custou-lhe a vida, e eles não se importam. Agora, eles vão fazer o mesmo com Jean Grey, que se mostra ainda mais poderosa do que a irmã, e as cenas de Jean Grey sozinha naquela sala, forçada a saltar sem ninguém por perto em quem pousar, são fortes…

Jean Grey é uma personagem extremamente complexa, e eu gosto de como o roteiro explora essa complexidade, e como consegue desviar da imagem de “antagonista” através da qual ela foi apresentada. Em algum momento, nós a entendemos perfeitamente e desejamos que ela acabe com todo o departamento – o que é algo muito interessante dentro da premissa de “X-Men”, porque se assemelha com como entendemos personagens como o Magneto e a Mística, e Jean Grey fala abertamente sobre como “o único crime que sua irmã cometeu foi ser diferente”. Essa temática está vindo com tudo ao Universo Cinematográfico da Marvel e eu mal posso esperar para ver como ele será explorado… a demonstração de poder “fora de controle” de Jean Grey é de arrepiar.

Ela não precisa de “resgate” – ou pelo menos não literalmente, não como Peter Parker achou que ela precisasse. Ela consegue se livrar sozinha das amarras como a cadeira na qual está sentada, a sala na qual está presa e o inibidor na sua nuca. Mas há algo muito mais íntimo de que talvez ela precise de ajuda… e Peter Parker está tentando chegar até ela, tendo que lidar no caminho com um grupo de ninjas chamado de “O Tentáculo” e armas do Departamento de Controle de Danos projetadas especialmente para neutralizá-lo… o que rende outra sequência de ação de tirar o fôlego e a minha cena favorita do filme, quando Jean Grey pergunta a ele quem ele é: Peter Parker ou o Homem-Aranha. Tirando o inibidor, aceitando quem é e as suas mudanças, ele responde que é os dois.

E QUE CENA MARAVILHOSA DO PETER USANDO TODO O PODER DO HOMEM-ARANHA!

Quando chega até Jean Grey, que está a um passo de matar Metzger e se vingar pelo assassinato da irmã, Peter tenta falar com ela, tenta impedi-la de fazer isso e convencê-la de que ela não é uma assassina como eles… e toda a emoção e toda a tensão é intensificada pelo momento em que Peter permite que Jean Grey entre em sua mente – como ela tentara antes e não conseguira. Ela conseguiria agora, à força, mas Peter a acolhe voluntariamente, e é uma cena emocionante. Jean Grey assume o lugar de Peter em uma conversa importante com a Tia May, cujas palavras parecem ser diretamente a ela, e então Peter também conversa com ela e diz que sente muito pela sua irmã, e naquele momento os dois se entendem. E, como prova de sua sinceridade, Peter se sacrifica por ela…

Ainda que sejam amigos, o Justiceiro tem uma “maneira diferente” de resolver as coisas, e ele acredita que o que precisa fazer agora é matar Jean Grey. O seu tiro, dado à distância, não atinge o alvo porque Peter o sente vindo graças ao sentido-aranha, e então ele tira Jean Grey do caminho, mas é acertado em seu lugar… e enquanto Peter Parker parece estar morrendo em seus braços, Jean Grey pede que ele não morra – até porque ele talvez seja a única pessoa que ela tem agora… ele acabara de dizer que ela podia contar com ele! Peter provavelmente teria morrido se não fosse por Jean Grey, cujos poderes conseguem mantê-lo vivo enquanto Frank, arrependido e se sentindo culpado, o leva nos braços até o hospital e enquanto os médicos fazem de tudo para salvá-lo.

É lindíssimo como toda a cidade de Nova York parece estar com o Homem-Aranha naquele momento. Ainda que eles não conheçam o Peter Parker, eles amam o Homem-Aranha e eles querem que ele fique bem. As notícias de jornal, as placas e faixas espalhadas por toda a cidade, o grande número de pessoas que está do lado de fora do hospital gritando por ele e lhe mandando boas energias… aquilo é tão significativo, tão importante – ao contrário do que Peter pensou e de como se sentiu durante todo o filme, ele não está sozinho. Enquanto Frank acena da janela do hospital com a máscara do Homem-Aranha para que Peter Parker saia sem estardalhaço, Peter se une à multidão do lado de fora e sente todo aquele amor e carinho em sua direção…

O gesto do Homem-Aranha feito pelo menininho para ele é o detalhe especial da cena.

Eu chorei.

“Homem-Aranha: Um Novo Dia” é um importante ponto de virada para o Homem-Aranha desse universo, interpretado pelo Tom Holland. Ele não é mais um adolescente do Ensino Médio, e as perdas com as quais ele precisou lidar sozinho durante tantos anos o marcam. Existe, agora, aquele tom de melancolia do qual Peter Parker necessita, e que engrandece o contraste com um Homem-Aranha mais sarcástico, e o filme em si é importantíssimo para toda uma trama de amadurecimento, que não vem apenas com o luto e com a solidão, mas com o reconhecimento e aceitação de quem ele é e a escolha de quem ele quer ser. É mais sobre como você lida com o que acontece a você do que, de fato, com o que acontece. Um filme grandioso, um dos melhores do herói!

 

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