A Odisseia (The Odyssey, 2026)
“Our age of
bronze is collapsing”
Escrito e
dirigido por Christopher Nolan, “A
Odisseia” é um dos filmes mais aguardados de 2026 – E ELE É UMA EXPERIÊNCIA
CINEMATOGRÁFICA IMPACTANTE. A jornada de volta para casa de Odisseu, enquanto
sua esposa e seu filho precisam segurar as pontas em Ítaca com um número cada
vez maior de pretendentes que querem se casar com Penélope e assumir o trono
que Telêmaco ainda não tem idade para assumir, é recheada de perigos que
envolvem uma feiticeira, um ciclope gigante e todo tipo de desafio imposto
pelos deuses quando no mar… “A Odisseia”
é uma das mais famosas obras gregas, atribuída a Homero, e foi escrita em algum
momento entre os séculos VIII e VII a.C., em grego homérico, e é composta de 24
cantos/livros, divididos em três partes.
Com uma obra
tão grande e impactante, a responsabilidade de adaptá-la para o cinema é
gigantesca, e o filme o faz com um visual épico, uma narrativa bem estruturada
e um ritmo envolvente e de tirar o fôlego, com um elenco de nomes famosos que
dão vida a personagens importantes da mitologia grega: Matt Damon dá vida a
Odisseu, o herói da Guerra de Troia que está tentando retornar para casa; Anne
Hathaway e Tom Holland dão vida a Penélope e Telêmaco, respectivamente; Robert
Pattinson é Antínoo, o mais desprezível e covarde dos pretendentes em Ítaca;
Lupita Nyong’o vive as gêmeas Helena de Troia e Clitemnestra; o elenco ainda
conta com nomes como Zendaya, Charlize Theron, Samantha Morton, Benny Safdie,
Jon Bernthal, John Leguizamo e Himesh Patel.
Gosto de
como a narrativa parece ter capítulos, e como a história na Ilha de Polifemo
nos é apresentada muito cedo no filme, porque ajuda a entender os desafios que
Odisseu e a sua tripulação enfrentarão no mar na sua tentativa de retorno para
casa após a vitória na Guerra de Troia: abusando da Lei de Zeus e entrando sem
convite em uma caverna com uma fogueira onde alguém parece ter feito queijo, os guerreiros gregos são
surpreendidos por um ciclope filho de Poseidon que devora pelo menos dois
soldados toda noite, e eles precisam escapar daquele lugar antes de serem
inteiramente dizimados pelo monstro… a fuga demanda sacrifícios, uma parcela de
violência contra o ciclope e uma flecha desnecessária como retaliação que é o
que sela o seu destino…
Só
retornamos à Guerra de Troia, vencida com a ajuda do Cavalo que é oferecido
como um presente a Atena, mais tarde – e em mais de uma ocasião, porque é um
evento importante que define quem Odisseu é, quem se tornou e por que ele teme
não ser digno de retornar para casa como um rei… é sua a ideia do Cavalo de
Troia, através do qual soldados conseguem invadir a cidade e abrir os portões
que liberam toda a destruição para dentro daqueles muros, e talvez naquele
momento mesmo Odisseu tenha percebido o horror do que eles estavam fazendo
quando quebraram a Lei de Zeus ofertando um presente de maneira tão maliciosa ou
decapitando uma estátua que fora levantada na cidade em homenagem a Atena, a
deusa da sabedoria.
Uma deusa
que o “acompanha” quase como uma consciência durante a viagem…
A viagem que
eventualmente cunhou o termo “odisseia” como sinônimo de algo extremamente
difícil e, quiçá, infernal. Na jornada, cada parada de Odisseu é um novo
desafio, que evidencia que os deuses não
estão do seu lado. Uma das paradas nos leva à Ilha de Circe, e essa é uma
das minhas sequências favoritas no filme… eu adoro a maneira como a história se
desenrola em paralelo com Odisseu encontrando animais que não parecem se comportar como animais do lado de fora, enquanto
Circe dá de comer aos seus soldados esfomeados para então transformá-los em
animais de uma maneira proposital e angustiantemente grotesca. E o confronto
eventual de Circe e Odisseu é um dos melhores diálogos do filme, por evidenciar
a inexatidão do “bem” e do “mal”.
Há muito mais nuances do que isso.
Curiosamente,
Circe é responsável por um conselho que será importante a Odisseu sobre o seu
retorno a Ítaca em algum momento. Outros conselhos e informações lhe são dados
em uma visita ao Reino de Hades sobre a terra, com uma invocação dos mortos
caídos, uma vez que cada novo desafio leva uma parcela de seus homens – alguns
honrados com enterros dignos, outros abandonados sem tempo. A construção visual
dessa conversa com os mortos é excelente, e constrói um bom clima para os
desafios vindouros, como o momento em que Odisseu precisa escolher entre
sacrificar mais seis de seus homens ou permitir a morte de todos em um
redemoinho monstruoso, ou a excelente sequência na qual o barco passa por
rochas habitadas por sereias…
Eu queria ainda mais da cena das sereias, mas a
intensidade dos gritos de Odisseu!
É DE
ARREPIAR.
“What was the song of the sirens like?”
“All the things you wanted to be and then all the
things you wished you never wished for. It was a delicious itch you want to
scratch but you find it under the skin and can't reach it. So the delicious
itch becomes unbearable. It told you what you most want is what you most can't
have and that the most you can't have is what you already had and lost. It was
a song of all the promises I failed to keep. And it told me I don't really want
to go home”
Gosto de
como existe profundidade no
personagem e de como “A Odisseia” é
mais do que uma sequência de desafios no mar – há uma batalha interna e
constante se desenrolando e sendo escancarada em sequências como a descrição do
que ele ouviu quando ouviu o canto
das sereias, amarrado ao mastro de seu navio, ou qualquer conversa que ele tem
com Calipso, na ilha à qual chegou sozinho com os restos de seu navio depois de
todo o resto de sua tripulação ser morta, como ele já sabia que aconteceria…
embora desejasse “desafiar os deuses”. Ele foi avisado sobre ser o único sobrevivente a conseguir
retornar para casa, também foi avisado sobre o que os seus companheiros de
viagem não deviam fazer com o rebanho do
deus sol, mas eles não o obedeceram.
E pereceram
sob a fúria de Poseidon e Zeus no mar.
Odisseu
passa sete anos na Ilha de Calipso sob seus cuidados e uma tentativa sua de
amenizar não apenas as dores do corpo, mas as dores da mente – o que resulta em
uma espécie de prisão, já que Odisseu tem dificuldade para se lembrar dos
detalhes de sua história, de sua missão, de quem é e do que o espera de volta
em casa… enquanto isso, Penélope passa os dias em seu tear e as noites
desfazendo o trabalho realizado durante o dia como uma tentativa de postergar o
momento em que precisará escolher um dentre os perversos e interesseiros
pretendentes que se apossam do palácio sob a desculpa da Lei de Zeus, porque
ela acredita que Odisseu ainda está vivo e retornará para reassumir o trono de
Ítaca sem que ela precise se casar novamente… e a pressão sobre ela é gigantesca.
A tensão
vivida em agonia por Penélope e as dúvidas sobre o paradeiro de Odisseu ou
sequer se ele está vivo ou não fazem com que Telêmaco planeje uma viagem em
busca de seu pai, na qual ele quase perece sob os planos de Antínoo – todos os
pretendentes buscam avidamente por uma desculpa
para matar Telêmaco, que eles julgam ser a única pessoa que pode impedir que um
deles sente-se no trono. A busca de Telêmaco por Odisseu não o leva,
inicialmente, ao paradeiro do pai, mas o leva a informações sobre quem ele é ou fora, com Menelau lhe
contando histórias sobre a Guerra de Troia, uma vez que estivera naquela
batalha ao lado de Odisseu, de Helena e de Clitemnestra, que matou o marido,
Agamenon, e que foi morta pelo próprio filho, que vingou o pai.
O retorno de
Odisseu a Ítaca tem diferentes momentos
– e é maravilhosa de se assistir. Eu gosto muito das primeiras interações dele
com Telêmaco quando ele salva o filho de uma emboscada, ainda que não lhe conte
quem ele é de fato… e fiquei emocionado na cena do reencontro de Odisseu com
Argos, o cachorro que estava apenas esperando o retorno de seu mestre antes de
partir, e que acaba sendo o motivo pelo qual Telêmaco o reconhece como seu pai… a conversa ali, os olhos cheios de
lágrimas, a maneira como um diz ao outro o que gostaria de dizer, enquanto
ambos mantêm a interpretação de Odisseu não ser Odisseu, apenas um mendigo a
quem Telêmaco trata bem porque ele tem o costume de fazer isso… qualquer um pode ser um deus em disfarce.
Ou, no caso, um rei.
Também é
emocionante o reencontro de Odisseu com Penélope, também sem que ele revele a
ela sua identidade – e, nesse caso, a impedindo de ver seu rosto, porque ela o
reconheceria na hora. A conversa com Penélope é recheada de uma sinceridade
dolorosa, e a presença de Atena também engrandece um pedido de desculpas de Odisseu, que é incapaz de mudar as coisas
que fizera no passado, mas é capaz de reconhecer o quanto errara… é realista a
maneira como ele fala sobre a Guerra de Troia e sua culpa na iminente queda da civilização
como eles a conhecem, com Penélope entendendo que eles são o famigerado “povo
do mar” tão temido. E é de tirar o fôlego
a maneira como Odisseu descreve o broche de Atena que ele nunca tirara, com
Penélope sabendo que, portanto, ele diz a
verdade…
O broche que ela entregara a ele antes de
partir.
A maneira como ela sabe se as histórias
contadas sobre Odisseu são verdade ou não.
Com a ajuda
de Telêmaco e de Eumeu, Odisseu está no recinto fechado no qual Penélope propõe
um teste para escolher seu futuro
marido: armar um arco que ninguém além de
Odisseu jamais foi capaz de armar. A tensão crescente nos conduz a um
clímax que mescla ação e emoção de maneira espetacular. O medo crescente de
Antínoo se torna cada vez mais patético,
a revelação incontestável a Penélope no momento em que “um mero mendigo”
consegue armar o arco e o toca exatamente
como Odisseu sempre fizera, e o início de uma guerra contra todos os
pretendentes instalados há anos no palácio… todos com quem Odisseu tem que
lidar antes de poder anunciar a si mesmo e reassumir o trono, para não ser
morto como aconteceu a Agamenon.
Toda a
sequência de ação desse clímax é impressionante – e nos deixa tensos. Há uma
tentativa de privar os pretendentes de armas enquanto Odisseu lida com eles
usando o seu arco e as suas habilidades de luta, mas armas acabam se tornando
parte da ação eventualmente, com Telêmaco precisando assumir alguma
responsabilidade para impedir que novas armas sejam entregues àqueles que
anseiam pela morte de Odisseu e, consequentemente, o trono de Ítaca. A
grandiosidade de Odisseu é escancarada na maneira como ele lida bem com a maior
parte dos homens que não se rendem, ainda que ele caia quase sem vida nos
braços de Penélope ao fim, enquanto a esposa implora que ele não morra… não
agora, que ele finalmente voltou para casa e para ela.
Há um quê de
melancolia em toda essa sequência, mas também a beleza esperançosa de um “final
feliz” marcado pela vitória sobre os pretendentes que ameaçaram a cidade por
décadas, Telêmaco assumindo o trono de Ítaca no lugar do pai e, quiçá,
começando a reconstruir a civilização como eles a conheciam, e uma viagem mais
calma de Odisseu, dessa vez ao lado de Penélope, rumando ao oeste, “caçando o
sol poente” como ela queria fazer desde que ele precisara partir para Troia e honrando aqueles caídos em batalha ou
na viagem de volta… na grande odisseia.
“A Odisseia” é uma daquelas
experiências grandiosas do cinema… com um visual poderoso, boas atuações e um
roteiro para quem ama mitologia grega, essa é uma obra que faz jus à grande
epopeia de Odisseu.
Para reviews de outros FILMES, clique aqui.
.jpg)
Comentários
Postar um comentário