Ruas da Glória (2026)

“Eu não quero morrer. Eu quero viver!”

Escrito e dirigido por Felipe Sholl e protagonizado por Caio Macedo e Alejandro Claveaux, “Ruas da Glória” aborda temáticas como o luto e a prostituição masculina nas ruas do Rio de Janeiro quando um professor de literatura se muda de Recife para a cidade depois da morte da avó e acaba se envolvendo com um garoto de programa uruguaio que conhece no Bar da Glória e permite que isso se transforme em uma espécie de obsessão, especialmente quando esse homem desaparece. Embora tenha ganhado uma estreia oficial nos cinemas em abril de 2026, o filme tivera sua primeira exibição na mostra Première Brasil Ficção, no 27º Festival do Rio, onde tanto Diva Menner quanto Alejandro Claveaux foram premiados como Melhores Atores Coadjuvantes.

O filme é intenso… bastante sensual como a temática exige, ele também é melancólico, doloroso e desesperador – é quase sufocante assistir à maneira como Gabriel se perde em um mundo e em uma pessoa diferente dele mesmo em uma espiral de possível destruição que é, também, motivada pela perda da avó, a única pessoa da família que o amava de verdade. Entre ligações do pai e tentativas de suborno para que ele retorne para Recife, Gabriel tenta criar uma nova vida para si mesmo no Rio de Janeiro, mas sua ingenuidade e seu desconhecimento daquela realidade fazem com que ele permita que outras pessoas tomem decisões por ele… em algum momento, nos perguntamos se existe volta para ele, e esse é um jogo interessante do filme até seus últimos minutos.

Sabemos pouco da vida de Gabriel em Recife, porque esse não é o foco do filme, que é um recorte da sua vida na nova cidade para onde se mudou. Seu encanto por Adriano lhe rende noites de prazeres intensos e o adentramento em um mundo até então desconhecido, que envolve drogas, sexo e programas. Gabriel é do tipo que acredita que “com ele foi diferente”, e ele parece mais perdido do que nunca quando Adriano simplesmente “desaparece”. Ele passa mal durante um programa do qual Gabriel não consegue participar, porque nunca fez isso na vida, e o homem com quem Adriano estava manda Gabriel o levar para o hospital antes de ir embora… antes que Gabriel consiga o colocar em um taxi, no entanto, ele desaparece. Por dias a fio.

Essa é, talvez, a parte mais interessante e mais desesperadora do filme: Gabriel não é mais o jovem professor que era quando chegou à Glória, e tudo em que ele consegue pensar é em encontrar Adriano… enquanto parece estar se tornando ele. Gabriel começa a usar sozinho as drogas que não fazia questão de usar quando estava com Adriano, talvez como uma maneira de silenciar a dor pelas perdas que agora se confundem dentro do seu peito, e aceita um programa quando lhe oferecem 3.000 reais, mas a cena que mais me chama a atenção é a cena com o homem que vendia drogas a Adriano: em uma atuação brilhante, Caio Macedo oscila entre o seu sotaque nordestino e toques do sotaque uruguaio de Adriano, como se o assimilasse… uma representação materializada de como ele está se tornando outro.

Ele assumiu seu apartamento, suas dívidas, suas roupas, sua conduta…

Agora, sem perceber, assume aos poucos seu sotaque.

Adriano é um mistério – ao mesmo tempo, no entanto, ele é um “Fantasma do Futuro”. É cada vez mais claro que Adriano é quem Gabriel está prestes a se tornar se as coisas não mudarem antes… inclusive, os vídeos que Gabriel grava da cidade para a avó que perdera encontram ecos em vídeos gravados por Adriano a alguém chamado “Martín”, mas esse é um “mistério” menor quando Gabriel finalmente se reencontra com Adriano e descobre que ele está vivendo na casa de outro homem, alguém que ele chama de “marido” agora… e não devia ser uma surpresa, Adriano é assim. Na ânsia de sentir o torpor do alívio que sentia quando estava com Adriano, Gabriel se entrega novamente de maneira quase irremediável, permitindo-se se fundir com aquele homem.

Em paralelo, temos a figura de Mônica e de outros amigos que Gabriel fizera no Bar da Glória – pessoas que não querem que Gabriel acabe da mesma maneira que Adriano, e tudo escalona depressa, até o ponto em que, quer diga isso ou não, o próprio Gabriel deixa de se reconhecer. Cansado, Gabriel deixa Adriano, mas não as marcas deixadas por ele em si… enquanto Adriano dá o último passo rumo à ruína completa, Gabriel corre na direção da pessoa que nunca quis ser, mas que se permitira tornar-se. Toda a sequência de Gabriel em um carro com um “cliente” em uma das ruas da Glória é perturbadora, e a concretização dos avisos que Mônica e os demais lhe deram… por alguns minutos de desespero real, eu cheguei a pensar que o Gabriel não sobreviveria.

Pela fantasia do filme, ele sobrevive.

E corre… enquanto corre, Gabriel não está correndo apenas do homem que poderia o ter matado naquele carro e naquela rua, mas da vida que ele enfim está tomando a decisão de deixar para trás, e isso culmina em um evento na casa de Mônica, uma música solene e um grito de socorro que sai na forma de lágrimas enquanto Gabriel diz que “ele não quer morrer, ele quer viver”. Então, ele é acolhido por aquela que se tornara a sua nova família. Com um tom brilhante de melancolia e realidade, “Ruas da Glória” chega ao fim com aquele nascer do sol que simboliza um recomeço – quando se despede da avó e da sua versão que morrera no dia anterior, Gabriel se banha em um mar do qual sai mais vivo do que nunca… e há um quê palpável de esperança ali.

Forte, bonito e difícil.

 

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