Além do Tempo – Ariel leva Alberto para ver Vitória Ventura



“Papai, o senhor insuflou ódio em mim a minha vida toda, agora o que que é? Você quer sair de bonzinho nessa história, hein? Pai, desde que a Vitória nos deixou, nós estamos juntos nisso. Nós somos um só e você não vai me trair”

 

A capacidade que as pessoas têm de distorcer a realidade de acordo com a sua narrativa é absurda – assustadora, eu diria. Alberto foi o maior monstro da segunda fase de “Além do Tempo”, e agora ele está disposto a agir como se procurar Vitória em Belarrosa fosse um ato de bondade e de misericórdia de uma alma bondosa, como se ele estivesse disposto a perdoar e como se Vitória devesse “se sentir agradecida” por ele contar que a sua filha não está morta, depois de ele ter passado DÉCADAS mantendo as duas afastadas com suas mentiras e sua maldade, fazendo Vitória acreditar que Emília tinha morrido por sua culpa e fazendo Emília acreditar que a mãe nunca a procurara e nunca se importara, insuflando nela ódio pela própria mãe.

Alberto pede que Lívia a leve para ver Vitória Ventura, mas Lívia não consegue antes de ser vista por Emília. Então, Ariel aparece para levar Alberto e o faz… e é absolutamente asqueroso o modo como Alberto tenta se fazer de vítima depois de desgraçar a vida da filha e da ex-esposa. Ele chega à casa de Zilda, onde Vitória está morando, com um sorriso no rosto como se estar ali fosse a melhor coisa que pudesse acontecer a Vitória, porque ele é incapaz de entender que ele foi um desgraçado durante as últimas décadas e a causa de todo sofrimento… Vitória cometeu um erro, sim, quando abandonou a família e pelo modo como o fizera, mas foi UM erro que ela tentou redimir não muito depois; ele, no entanto, foi a causa de todo o sofrimento, rancor, culpa e ódio que vieram depois.

Ele arquitetou e manteve isso meticulosamente durante todo esse tempo.

Vitória fica confusa ao ver Alberto ali… ela não entende como isso pode ser possível ou o que ele está fazendo ali, e Alberto diz que “ele mudou” e que “precisa pedir perdão”, mas Vitória mal o deixa falar, em um primeiro momento… ela tem muita coisa engasgada que ela guardou consigo e que a fizeram mal durante todos esses anos e que precisa colocar para fora. Ela fala sobre a culpa que a corroeu, sobre como isso doeu nela todos esses dias desde a morte de Mili, fala sobre o ter deixado e ter deixado sua filha morrendo… e ele sorri ao dizer “A nossa Mili não morreu, Vitória. Eu menti”, como se essa fosse uma notícia a ser recebida com braços abertos, um sorriso e um abraço. É claro que é uma ótima notícia que Emília não tenha morrido, mas isso implica, também, no fato de Alberto TER MENTIDO ESSE TEMPO TODO.

Ele diz que mentiu por vingança, porque queria fazer a Vitória sofrer “como ela o fizera sofrer”, e explica que, quando ela procurou a Mili, ela estava viva… é claro que tudo é demais para Vitória processar de uma vez: ela vira a matéria de jornal, a guardara durante todos esses anos e chorara sobre ela, e visitara o túmulo da filha em um cemitério pequeno. O grito de Vitória com a notícia parte de um lugar de revolta e incredulidade… ele parte da alma e é tão visceral, de um modo que poucas pessoas conseguiriam transmitir como Irene Ravache consegue. É brutal e atinge o espectador em cheio. Ela está inclinada a não acreditar, em negação, como se fosse mais um ato perverso de maldade de Alberto… ela diz que ninguém seria capaz de mentir sobre algo assim, e é aí que reside a ironia.

Eu sempre falei: a grande riqueza de “Além do Tempo” é o paralelo entre as duas vidas dessas almas atormentadas. A conversa, agora, nos leva à vida anterior de Alberto e Vitória e àquele momento em que ela contara a Alberto que Bernardo não era seu filho e disse que ele era patético e que já rezara muitas vezes para que ele morresse… quando o Conde Alberto Castellini passa mal e pede que Vitória lhe alcance seu remédio, ela não o faz, o deixando morrer. Também foi de uma perversidade sem tamanho. É curioso mostrar isso porque nos afeiçoamos à Vitória, especialmente a da segunda fase, e somos lembrados de tudo o que ela fizera em sua vida anterior, de sua perversidade similar, e entendemos o conceito de carma. E isso não quer dizer que não doa…

É a mesma alma, mas não é a mesma Vitória.

Ela está, e com toda a razão, inconformada: “De que inferno você saiu? Porque nem um monstro seria capaz de inventar a morte de um filho!”. AH, A IRONIA DELICIOSA! Não é PERFEITO ter a Vitória da segunda fase falando sobre “inventar a morte de um filho” depois do que a Vitória da primeira fase fizera?! COMO EU AMO O TEXTO DESSA NOVELA. Zilda chega em casa durante o desespero de Vitória, e ela coloca tudo para fora, conta o que Alberto lhe dissera, e eu acho um absurdo tão grande o Alberto ter a coragem de repreendê-la e de dizer que “ela não tem o direito de o expor na frente de uma estranha daquele modo”. Mas é exatamente o que a Vitória lhe diz: Zilda não é uma estranha… o único estranho ali é ele. Então, caos se desenrola quando ela o expulsa.

A raiva que eu sinto de Alberto não pode ser colocada em palavras de maneira satisfatória. Vitória está corretíssima ao expulsá-lo, ao chamá-lo de “psicopata” e de “monstro”, porque isso é o mínimo que ele é, e ele ainda se sente no direito de se voltar contra ela, de dizer que ela é “irracional, egoísta e imbecil”, e ele sai com o queixo erguido, achando que o problema é Vitória e que “ela não mudou nada” e que “ele sofreu à toa antes de vir” e que “ela não quer saber sobre a filha”. É tão revoltante, é tão ABSURDO que ele distorça as coisas dessa maneira que eu não sei nem o que dizer… Vitória está destruída depois dessa visita, e é só agora que ela vai começar a pensar no que ele dissera e começar a perceber que ele estava dizendo a verdade mesmo…

Mal posso esperar para ver a Emília descobrindo a mentira asquerosa do pai.

 

Para mais postagens de “Além do Tempo”, clique aqui.
Visite, também, “Teledramaturgia Brasileira” em nossa página.

 

Comentários

POSTAGENS RELACIONADAS