Heartstopper Para Sempre (Heartstopper Forever, 2026)
“You’re
Nick and Charlie!”
Lançado na
Netflix em 17 de junho de 2026, “HEARTSTOPPER
Para Sempre” é o filme especial que encerra a história da série iniciada em
2022, dessa vez adaptando o Volume 6 dos quadrinhos de Alice Oseman, bem como a
novela “Nick e Charlie” que, de
alguma maneira, foi onde tudo começou
– afinal de contas, essa foi a primeira publicação com Nick e Charlie como protagonistas,
como um material extra do livro “Um Ano
Solitário”, protagonizado por Tori. Depois de tantos anos acompanhando
esses personagens, seja em romances, em quadrinhos ou na excelente adaptação da
Netflix, é com um aperto no coração, um sorriso no rosto e lágrimas nos olhos
que eu me despeço, tendo a certeza de que valeu a pena cada segundo, cada tema
e cada discussão.
“Heartstopper” sempre foi um afago. E,
mais de uma vez, eu comentei que era a série que eu queria ter assistido quando
eu ainda era adolescente… tratando com delicadeza e com realidade de assuntos
como a descoberta da sexualidade, o preconceito sofrido em nossa sociedade e
transtornos mentais, a série sempre conseguiu equilibrar muito bem o “colorido”
de um primeiro amor com o qual se sonha e os tons de cinza que tornam tudo tão
real. É, inclusive, uma percepção que quem apenas viu “Heartstopper” de fora sem se dar ao trabalho de dedicar mais tempo
à série não percebe: com bastante responsabilidade, a série tratou de vários
assuntos pertinentes à comunidade LGBTQIA+, indo muito além dos clichês a que
algumas pessoas acreditam que a série se resume.
Kit Connor e
Joe Locke dão vida a Nick e Charlie, respectivamente, pela última vez, e o
fazem com o carinho que sempre demonstraram a esses personagens,
conferindo-lhes camadas – e eles estão em um momento delicado de seu relacionamento: Nick, que termina a escola um ano
antes, está prestes a ir para a universidade, e os dois são “assombrados” pelo
medo de as coisas mudarem… afinal de contas, com o Nick em Leeds e Charlie
ainda na escola, eles estarão mais longe do que estiveram nos dois últimos
anos, e muita gente parece acreditar que romances
adolescentes não duram. E eles sabem, no fundo, que talvez não dure mesmo…
o que não quer dizer que o romance deles está automaticamente fadado ao fracasso. Até porque parte do futuro é feito de escolhas.
Nick foi
extremamente importante para Charlie quando as coisas ficaram muito sérias no
quesito distúrbio alimentar e automutilação, e agora Charlie está claramente muito melhor. Eu, particularmente, sinto
uma felicidade e um orgulho imensos de Charlie e adoro o ver fazendo um
discurso que lhe garante a presidência do Grêmio Estudantil, e fico feliz com
como ele consegue criar um Clube do Orgulho na Truham. A maneira como o filme
introduz Alfie, um garoto mais novo que olha para Charlie com certa admiração e
expectativa, evidencia como as atitudes de Charlie são importantes para outros jovens que se veem nele… as cenas do
Charlie o defendendo de bullying no
corredor e, depois, o Alfie sendo o primeiro a aparecer para a reunião são
FOFÍSSIMAS.
E
emocionantes!
Mas Nick
sempre se preocupou muito com Charlie porque isso fazia com que ele “se
sentisse útil”, e ele nunca aprendeu a falar sobre os seus próprios sentimentos
– especialmente porque o pai o ensinou a nunca “demonstrar fraqueza”. Ele não
sabe buscar ajuda e passou anos usando uma máscara de que “está tudo bem”,
mesmo tendo passado sua vida inteira sem
conseguir fazer amigos de verdade até conhecer o grupo de Charlie, e agora
quando o seu mundo está cheio de dúvidas e angústia, ele tampouco consegue
falar sobre isso com Charlie… e ele se sente culpado por ver o Charlie
prosperar e ficar feliz por ele, mas, ao mesmo tempo, triste com a sensação de
que “ele não precisa mais dele”. E o Charlie sente um pouco disso tudo e quer
fazer algo a respeito…
É impossível, no entanto, se eles não
conversarem.
A trama de “Heartstopper Para Sempre” é, em grande
parte, sobre isso. Nick e Charlie estão crescendo e tentando amadurecer… o seu
relacionamento chegou a um ponto sexual no qual os hormônios estão a mil e o
filme nos entrega cenas interessantes
como aquela do píer nos primeiros minutos ou aquela em que Charlie se
interrompe para perguntar se ele trancou
a porta, mas o que falta é a comunicação em palavras – e Charlie costumava
acreditar que eles eram tão bons nisso! Quando ele tenta pressionar o Nick para
que ele fale sobre o que está sentindo e no que ele pode ajudar, o Nick se
fecha. E ambos sofrem incapazes de conversar
de verdade, ainda que os dois estejam sentindo muitas coisas, e tudo gira
em torno do medo e da insegurança do novo.
E os dois
terminam… os dois terminam, para a surpresa de todos, quando nenhum dos dois queria
terminar. E, por meses, eles sentem a falta um do outro diariamente e escrevem
mensagens que não têm coragem de enviar, e que são muito parecidas umas com as
outras, na verdade – a última opção de mensagem de cada um deles, não enviada
por nenhum, é um “Eu te amo” e mais
nada. E aquilo diria tudo. A
melancolia daqueles meses é retratada com pesar e com veracidade no filme… as
cenas de Charlie mexem particularmente comigo, na maneira como ele parece quase
consumido novamente e como exercícios aprendidos com o seu psicólogo o salvam
de novas automutilações, embora comer ainda seja muito difícil. E Nick sofre
igualmente em paralelo…
Essa faceta
de um Nick derrubado é transmitida perfeitamente por Kit Connor.
Durante o
tempo que passam separados, talvez a evidência de que Charlie sempre teve mais amigos que o Nick fique mais clara, e é
preciso que isso aconteça porque precisamos entender
o que aconteceu com o Nick – por que ele se fecha, por que ele nunca aprendeu a
demonstrar fraquezas, por que ele teme que qualquer coisa vai fazer com que o
Charlie não o ame mais, e por que eles terminaram em uma conversa muito mal
resolvida na qual nenhum dos dois queria dizer o que dizem. Nick está mais
sozinho do que nunca, com um irmão com o qual nunca soube conversar, uma mãe
que tenta alguma abertura e um emprego que não é perfeito, mas que curiosamente
o ajuda… Charlie, por sua vez, tem a “intervenção” de amigos como a Elle, o Tao
e o Isaac.
Gosto
muitíssimo do pedido de Elle para que Charlie vá à Parada LGBTQIA+ com eles,
porque ela estará no alto de um carro gritando por Direitos Trans, e ela quer
que as pessoas que ela ama estejam lá com ela… o discurso de Elle que antecede
o abraço sincero de Charlie é poderoso! E toda a sequência da Parada LGBTQIA+ é
uma da qual eu gosto bastante – inclusive pela maneira como aqueles jovens
gritam pelo direito de existir e como terminam dançando em uma balada, e nós
conseguimos ver o quanto eles cresceram.
Ainda que a cena acabe dramaticamente com o Charlie vendo o Nick conversando
com uma garota, entendendo tudo errado e correndo um perigo sério depois. Mas
talvez as pessoas tenham razão… eles são
“Nick e Charlie”, eles conseguem resolver isso.
A
reconciliação dos dois acontece de maneira muito bonita, e novamente me enche
de orgulho o fato de o Charlie ter uma voz tão ativa nesse quesito… é ele quem toma a iniciativa. Ele
encontra a câmera que dera de presente de Natal a Nick e cujo filme está cheio
de fotos deles e as manda revelar. Depois, ele as deixa em um envelope com o
nome de Nick sob a porta de sua casa, e Nick estava preparado para aquele
momento depois de uma conversa com a mãe sobre o amor, sobre escolhas e sobre “não ser tarde demais”. Quando Nick
dirige até a praia para um encontro marcado no envelope com o Charlie, nós
sabemos que tudo vai ficar bem… não necessariamente perfeito, porque eles vão
ter que trabalhar na comunicação, mas ao menos bem…
E com a
certeza de que eles se amam. Essa é a
base sobre a qual todo o restante virá.
Para a
alegria deles, nossa e dos amigos, eles aparecem de mãos dadas na festa de
formatura da escola, que é uma das sequências mais fofas e mais bonitas do
filme… aqui, Tao está com a sua câmera de sempre, perguntando às pessoas o que elas esperam do futuro – e temos
respostas interessantes aqui. A cena é uma promessa e uma esperança pelo
futuro, ao mesmo tempo em que é um aceno ao passado, com Nick e Charlie
correndo por corredores onde já estiveram antes e chegando ao salão onde, anos
antes, eles se beijaram pela primeira vez…
aquele momento em que a história deles mudou para sempre. E talvez onde eles
tiveram certeza que com eles seria diferente… e talvez seja! No que depender
deles, a escolha deles é fazer dar certo…
O filme
ainda nos traz um Epílogo gostoso de assistir, no qual vemos em ação um
pouquinho do que as pessoas disseram a Tao quando ele estava apontando uma
câmera para eles e perguntando sobre o futuro. Tori fica feliz com uma notícia
de Michael sobre as Olímpiadas de Inverno. Tara e Darcy saem em um mochilão.
Isaac começa a escrever o seu próprio livro. Elle faz uma exposição de sua arte
em Berlim e recebe a visita de Tao. Imogen apoia o início da carreira solo de
Sahar. Nick se encontra em Leeds, faz amizades. E Charlie o visita, como eles
planejaram que ele faria, ainda sendo parte da vida de Nick nessa nova fase…
adoro a cena dos dois olhando aquele álbum de memórias, que tem exatamente o
tom nostálgico dado a todo o filme…
“Heartstopper Para Sempre” é uma
excelente maneira de encerrar essa história e de nos despedirmos desses personagens…
eles são jovens, estão no início de sua vida, e não sabemos o que será do
futuro de cada um – tudo o que podemos esperar é que eles sejam felizes, o que é possível mesmo com os percalços e
momentos menos felizes do caminho,
porque ninguém é feliz 100% do tempo. Mas está tudo bem, assim é a vida! E eu
acredito na felicidade deles! No caso de Nick e Charlie, eles se amam, eles
querem estar juntos e eles aprenderam que “eles cuidam um do outro”. Amei “Heartstopper” do início ao fim, e fico
contente com o legado deixado pela série, encerrada agora com esse filme
belíssimo… ela sempre teve muito a dizer, e o fez lindamente.
Guardarei
para sempre no coração com o carinho que ela merece!
Já sinto
saudades de Nick e Charlie.
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