Doctor Who (7ª Temporada, 1970) – Arco 052: Doctor Who and the Silurians, Parte 2

“Hello. Are you a Silurian?”

A TERRA NEM SEMPRE “PERTENCEU” AOS HUMANOS. Alguma coisa está acontecendo nas cavernas onde foram instaladas bases científicas para o desenvolvimento do Ciclotron e uma nova fonte de energia, e o Doctor e a UNIT estão tentando descobrir o que é… quando Liz é atacada por uma das criaturas, ela a descreve para o Doctor como um réptil que se anda como um humano. Eu gosto do tom de “Doctor Who and the Silurians”, o segundo arco da sétima temporada de “Doctor Who”, e de como há um suspense que é propositalmente acentuado pela trilha sonora e por escolhas como a visão através dos olhos da criatura reptiliana, com o som alto de sua respiração, antes da revelação de sua aparência completa… funciona muito bem na criação da tensão.

Aos poucos, toda a trama dos Silurianos vai se revelando. O Doctor visita o Dr. Quinn, por exemplo, e ele tem toda uma desculpa sobre “o termostato quebrado” para justificar a temperatura inusitada de sua casa, que o Doctor astutamente compara com a de uma “sala dos répteis em um zoológico”, e uma das dicas mais importantes vem do momento em que Liz Shaw encontra um globo terrestre que ela acha estranho porque todos os continentes estão juntos… vai se construindo o conceito de algo antigo, muito antigo – algo como 200 milhões de anos antes, durante a Era Siluriana. E conforme o Doctor vai construindo teorias em sua mente e chegando a conclusões que ainda não compartilha com ninguém, ele tem a chance de ver e falar com um Siluriano na casa do Dr. Quinn…

Eu gosto de como, ainda que esteja oficialmente trabalhando com a UNIT, o Doctor apresenta questionamentos e divergências com a organização – a primeira coisa que ele faz é estabelecer contato com o Siluriano na casa do Dr. Quinn, porque ele quer entender quem eles são e o que eles querem, afinal de contas, enquanto a UNIT está disposta a atirar… é o que as forças militares fazem com tudo que não entendem. O Doctor fala sobre uma investigação científica das cavernas, empreendidas por pessoas que não empunham armas, e explica para Liz que aquelas criaturas não são animais, tampouco são hostis de verdade… quando atacaram, eles atacaram para se defender. Então, ele decide ir apenas com a Liz investigar, porque não confia na UNIT e em suas armas.

Doctor e Liz encontram Baker preso, e o militar fala sobre como as criaturas ficam lhe fazendo perguntas, como se estivessem tentando reunir informações para uma invasão – e a grande reviravolta do arco é que, embora os Silurianos sejam inicialmente tratados como “claramente alienígenas” e como se “estivessem se preparando para uma invasão”, eles sempre estiveram ali. Confiante de que tem razão sobre os Silurianos e tentando evitar um massacre, o Doctor tenta conversar com o Brigadeiro Lethbridge-Stewart e o convencer de deixar aquelas criaturas em paz e permitir que ele estabeleça contato. Ele pede que lhe deem o benefício da dúvida, porque aquelas criaturas não são selvagens, e quase parece que o Doctor está chegando a algum lugar…

Até que tudo rui.

A notícia da morte do Dr. Quinn parece ser a confirmação e/ou a desculpa de que os militares precisavam para atacar. O próprio Brigadeiro duvida do Doctor e mantém o plano original: eles chegarão atirando. Então, o Doctor decide descer às cavernas depressa, antes dos humanos, para alertar os Silurianos de sua chegada com armas – na defensiva, no entanto, os Silurianos o prendem como fizeram com Baker… e percebemos que existe uma divisão entre os próprios Silurianos sobre como as coisas devem acontecer… há quem queira destruir os humanos sem fazer perguntas, assim como os militares humanos, e há quem queira ouvir o que o Doctor tem a dizer e, quem sabe, encontrar uma maneira de não precisarmos de um massacre.

Gosto de como a personalidade do Doctor é clara, e gosto de como a sua vontade de ajudar e a sua coragem de arriscar a própria vida vão fazendo com que Liz Shaw comece a respeitá-lo e admirá-lo… mais do que isso: a confiar nele. Preso na caverna dos Silurianos, o Doctor faz mais descobertas: ele descobre que os Silurianos já estavam aqui na Terra muito antes dos humanos, eles andavam livremente por esse planeta há milhões de anos, antes de uma possível catástrofe quando viram “um pequeno planeta” se aproximando da Terra. Eles sabiam que a colisão poderia acabar com a vida na superfície, tornando a atmosfera incapaz de sustentar a vida, então eles suspenderam as próprias vidas em hibernação, esperando que a atmosfera voltasse a ser habitável.

O Doctor percebe, no entanto, que esse “pequeno planeta” que se aproximava da Terra se tornou a lua e, portanto, a catástrofe que fez com que os Silurianos se escondessem nunca chegou a acontecer. E com o mecanismo de hibernação defeituoso, eles acabaram dormindo por mais tempo do que planejaram, e só estão conseguindo despertar novamente agora com a chegada de uma nova forma de energia… agora, com a energia que estão desviando do Ciclotron, eles poderão despertar toda a sua civilização e retomar a Terra para si. Seria uma guerra gigantesca, e o Doctor tenta convencê-los de que silurianos e humanos podem dividir o mesmo planeta, uma vez que eles podem viver em áreas de absoluto calor onde a vida humana não é possível mesmo…

É bom como existe certa ironia na composição de “Doctor Who and the Silurians”. Humanos e Silurianos são muito mais parecidos do que gostariam de admitir, e esse é um elemento-chave dessa narrativa! O Doctor não pode dar garantia de que os humanos aceitarão a proposta de dividir o planeta com outra espécie, mas ele promete que tentará e que repassará a sua oferta de paz; os Silurianos, por sua vez, são tão divididos quanto os humanos, e enquanto o líder cogita a ideia de conviver com humanos, um motim parece acontecer para derrubá-lo, liderado por silurianos que querem o extermínio da raça humana e o planeta inteiro só para eles novamente… e é esse segundo grupo que infecta Baker com uma bactéria que pode matar milhões.

 

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