Backrooms: Um Não-Lugar (Backrooms, 2026)
“Imagine
describing a dog to someone who's never seen one before and then asking them to
draw it. It will look similar but the devil is in the details”
Escrito por
Will Soodik e dirigido por Kane Parsons, “Backrooms”
traz para as telas de cinema um conceito que foi apresentado na internet na
última década e acabou viralizando nos últimos anos, e tudo começou com uma foto inexplicada (não inexplicável) do que
parecia uma sala amarela e vazia. A curiosidade, o tom de mistério e as
teorias da internet criaram toda a ideia de uma dimensão à parte que não
necessariamente segue as regras de tempo e espaço da realidade em que vivemos,
com portas espalhadas pelo mundo e possibilidades infinitas. É o cenário
perfeito para um filme de suspense que brinca com a perturbação da mente humana:
a sensação quase claustrofóbica proporcionada pelos corredores desperta
monstros que não estão do lado de fora.
Segundo a
internet, o conceito de BACKROOMS surgiu em 2019, e Kane Parsons tem explorado
essa ideia em uma série feita para a internet desde 2022, que conta atualmente
com 24 episódios, e é ele quem dá vida à ideia para o cinema através da A24,
nesse filme que tem tudo para ser o
primeiro de uma franquia. O sucesso comercial do filme e o boca-a-boca que
fez com que ele se espalhasse são garantias o suficiente para um mercado
cinematográfico que é movido pelo dinheiro, mas o filme tem conquistado, de
modo geral, críticas positivas, ainda que aqui ou ali chegue a dividir opiniões.
Particularmente, eu gostei bastante. Não acho que ele seja o mais novo clássico
do gênero de terror psicológico nem nada, mas é um ótimo suspense que cumpre o
seu papel…
O de apresentar o conceito.
Muitas
pessoas já ouviram falar sobre “backrooms” – o conceito foi usado, inclusive,
em uma história recente da “Turma da
Mônica Jovem”, por exemplo, o que indica sua popularização –, enquanto
outras têm o seu primeiro contato com o conceito a partir do filme, e o filme
funciona para esses dois públicos: é instigante para quem quer explorar as suas
possibilidades e claro para quem o está conhecendo a partir de agora. Chegamos
a essa outra “dimensão” ao lado de Clark, o dono de uma loja de móveis lidando
com uma separação, que “esbarra” por acaso com uma abertura no porão de sua
loja… o ambiente excessivamente amarelo, iluminado e com coisas atulhadas lhe
causam um estranhamento compreensível, mas também um fascínio magnético.
E ele
explora.
A
representação visual de Backrooms segue, de modo geral, o visual apresentado em
sua concepção desde 2019, mas explora algumas outras possibilidades que
conferem identidade ao lugar através de detalhes que são meticulosamente
pensados para serem incorretos. Uma
placa de “PARE” que está escrita ao contrário, duas cadeiras empilhadas que se
tornaram uma só nesse espaço… e, conforme avançamos, tudo vai ficando
propositalmente mais bizarro. Encontramos cópias malfeitas de humanos com três
pares de olhos, por exemplo, em uma representação de um lugar que é habitado
por coisas e seres que são ecos da realidade – elementos que são “lembrados” de
maneira equivocada e “recriados” na tentativa de imitar o mundo real, sem que o
seja.
Como descrever um cachorro para alguém que
nunca viu um e pedir que ele o desenhe.
Ambientado
nos anos 1990, o filme consegue brincar com uma estética que confere mais crueza ao que está sendo apresentado, na
ausência de celulares, por exemplo… assim, o filme brinca com o conceito de
“found footage” em momentos-chave que funcionam muito bem. A introdução toda é
visualmente interessante, filmada nesse estilo, e gosto muito de toda a
sequência na qual Clark leva Bobby e Kat com ele às Backrooms para que ele
possa ter um registro em vídeo do lugar e, assim, provar para Mary, sua
terapeuta, que ele estava dizendo a verdade quando descrevera a experiência que
tivera… mas as coisas acabam dando errado quando, na companhia de Bobby e Kat,
Clark começa a investigar recantos nos quais não estivera antes…
E ele vai cada vez mais fundo nesse espaço
infinito.
O explorar
das Backrooms é a alma do filme, e é um conceito que me interessa… talvez por
isso eu tenha gostado tanto. Eu gosto de como o lugar parece um escritório
abandonado com coisas empilhadas em um primeiro momento, mas vai se tornando um
sinuoso labirinto de corredores, portas de tamanhos diferentes, túneis cada vez
menores, e a cada curva descobrimos mais.
Deixa de ser apenas um “amplo escritório abandonado” para ser o sussurro de uma
casa antiga, por exemplo, ou um cenário caótico de roupas espalhadas e fedor
pútrido onde alguma criatura devora humanos, e acaba sendo o espaço onde uma
mente perturbada se perde por completo. Em algum ponto, traumatizado por antes
e por agora, Clark decide que aquele é o
lugar onde deve ficar.
Dois
protagonistas com olhares distintos sobre as Backrooms conduzem o filme. De um
lado, temos Clark, incapaz de perceber sua própria culpa em seus problemas e
inconscientemente buscando um lugar para se esconder; de outro, temos Mary, a
terapeuta com seus próprios traumas e limitações que acaba do outro lado dessa parede enquanto procura por Clark depois de uma
ligação estranha. Gosto de como o
filme explora as diferentes reações. De como domina a curiosidade em Clark, mas
o receio em Mary. Sua respiração cortada, sua incredulidade em cada passo. E
talvez as Backrooms intensifiquem o
que cada um está sentindo, e é aí que tudo se torna ainda mais perigoso… o suspense funciona bem nessa viagem intimista
em um ambiente desconhecido e absurdo.
Todo o
clímax do filme é um confronto interessante entre Mary e Clark, e o filme se
divide em duas frentes… temos toda a questão pessoal que gera terror
psicológico na tensão de uma Mary amarrada à cadeira no eco de uma cozinha com
ecos de humanos que intensificam a estranheza do momento, mas todo o pavor se transforma
em verdade quando Mary acredita que não precisa mais de seu “filtro de
terapeuta”; temos, ainda, o horror físico proporcionado pelo “Capitão Clark”,
uma criatura dali debaixo que é um reflexo distorcido do Clark do mundo real, e
que proporciona uma morte sangrenta a Clark e uma perseguição frenética a Mary,
em uma sequência que explora mais possibilidades das Backrooms até que ela seja
“resgatada” por outros humanos…
Embora
“resgatada” seja um termo muito forte. Afinal
de contas, a descoberta de um lugar como aquele gera interesse, curiosidade e
ânsia por respostas. No fundo, ela sabe que nunca estará livre… enquanto
isso, uma “memória” sua habita algum lugar lá embaixo, de maneira mais
melancólica do que, de fato, assustadora. A apresentação do universo funciona
muito bem, e sua amplitude e potencial antológico não deixam dúvidas de que
ainda veremos mais desse universo adaptado, seja em filmes futuros ou, quem
sabe, em séries. A história de Clark foi encerrada, Mary talvez não seja mais
mencionada, mas Phil abre portas para uma abordagem completamente diferente das Backrooms em uma sequência… e eu,
sinceramente, estou curioso para ver!
Para reviews de outros FILMES, clique aqui.
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