The Boy and I Who Will Break Up in 100 Days – Ep. 06: The Heat-Loving Tropical Fish
Pessoas diferentes.
Não é todo
dia que a gente tem a oportunidade de assistir a uma série como “The Boy and I Who Will Break Up in 100
Days”. Eu adoro a sua sinceridade, sua não submissão ao que uma parcela
grande de seu público espera por ter sido comercializada como “BL”, e o seu
compromisso com os personagens, com a história e com a comunidade LGBTQIA+. Há
quem não entenda que existe uma diferença gritante entre “uma série BL” e “uma
série LGBTQIA+”, mas a maior parte das pessoas que não entendem essa diferença não está disposta a entender por quê. De
vez em quando, no entanto, e muito raramente, ganhamos uma série como essa que
escancara essa diferença, e ela ainda torna isso parte de sua narrativa, se você souber enxergar.
“The Boy and I Who Will Break Up in 100
Days” escancara hipocrisias da indústria, do público e da sociedade, e o
faz com uma qualidade técnica e humana impressionante: sua sensibilidade
equilibrada à sua honestidade é parte do seu conceito e da sua condução, com um
texto destemido e marcante que ganha vida através de atuações impecáveis. Eu
amo o Hasegawa Itsuki, assim como eu também amo Kasuga Yuma… o fato de eles
serem pessoas diferentes e intrinsecamente incompatíveis não precisa opô-las.
Nesse episódio final, cada cena e cada momento é um soco no estômago e,
estranhamente, um afago – e, com toda a certeza, uma oportunidade para
reflexão. Terminei o episódio em uma sensação tão grande de êxtase, choque e
satisfação!
É curioso
como séries como “The Boy and I Who Will
Break Up in 100 Days” causarão desconforto em algumas pessoas… como algumas
pessoas julgarão Itsuki, por exemplo, e a única maneira de fazê-lo é não o entendendo – Itsuki não está
errado, embora talvez ele não desempenhe o papel que você imagina que ele deveria desempenhar. E isso diz muito sobre a
série, sobre quem a assiste e sobre como essas pessoas reagem: há quem entenda
a beleza de uma história com tantos pontos importantes, delicados e trabalhados
com maestria; há quem se frustre porque os personagens não são ou não fazem
aquilo que elas querem, mas eles não estão aqui para isso e não deveriam estar,
como ninguém deveria estar… pessoal real
ou personagem fictício.
São vidas,
são indivíduos, são pessoas… talvez aí resida uma das maiores forças da série,
e talvez esteja aí o principal motivo pelo qual ela é mais uma série LGBTQIA+
do que um BL, e o motivo pelo qual o consumidor básico de BL não vai entender sua
profundidade e, mais do que isso, sua importância. “Tem final feliz?” “Eles
terminam juntos?” Percebam como essas duas perguntas costumam vir juntas, implícita ou explicitamente, e
como elas não fazem sentido quando a obra foge da simplicidade irreal que
raramente conversa com a comunidade de fato. Em “The Boy and I Who Will Break Up in 100 Days”, eu respondo à
primeira com um “sim” e à segunda com um “não”, e digo mais: a resposta da
primeira é “sim” PORQUE a resposta da segunda é “não”.
Talvez
algumas pessoas jamais entendam isso.
Passeio pela
experiência de assistir a esse último episódio como uma forma de registro,
embora secretamente tenha a sensação de que poderia nunca terminar de dizer o
que tenho a dizer sobre a série. “The
Heat-Loving Tropical Fish”, o último episódio, exibido em 01 de julho de
2026, começa com o Dia 100 da gravação do documentário, e vemos na íntegra o
que vimos brevemente na conclusão do primeiro episódio: a confissão de Yuma de que ele e Itsuki já tinham terminado quando começaram
a gravar. Eu nunca vi essa sua fala como uma “bomba”, porque estava na
sinopse e no conceito da série, mas eu gosto de como chegamos a esse momento
percebendo o quanto Yuma precisou
amadurecer para chegar ali. Ele esperava que Itsuki mudasse durante a
gravação…
Quem mudou
foi ele.
Aquele é o
capítulo final da história de Yuma e Itsuki juntos…
quando começou a gravar esse documentário, Yuma esperava “consertar o seu
relacionamento”, esperava, sem dizer que era isso que ele esperava, que o
Itsuki se ajustasse às suas expectativas, e agora ele sabe que isso não vai
acontecer, mas ele também sabe que não
quer que isso aconteça, que isso não
deve acontecer – ele julgou Itsuki errado aqui e ali, e agora entende. Ele
fala sobre “serem fundamentalmente incompatíveis”, mas também fala sobre como
ele não se arrepende da sua história. Se voltasse no tempo, ele ainda
escolheria namorar o Itsuki, e provavelmente faria coisas diferentes, mas eles
eventualmente terminariam naquele mesmo lugar… e é preciso muita maturidade
para entender isso.
“Having the chance to fail properly is an importante right too”
A gravação
de Itsuki não nos é mostrada na sequência… uma escolha acertada do roteiro que
deixa o seu discurso como conclusão da série. O fim oficial da gravação do
documentário é celebrado com um jantar com Shiho e Yamada e a eventual
submissão das duas versões ao canal. E naquela última noite, Yuma e Itsuki
compartilham uma última noite juntos, assistindo TV, rindo, sem serem
observados por câmeras e sem precisar performar para elas… ali, eles são apenas
eles mesmos. Eu fico feliz de ver como isso termina, de como eles ainda
conseguem compartilhar um mesmo espaço porque a história deles é válida e para
sempre será importante, ainda que eles precisem seguir caminhos distintos… e
não quer dizer que não doa…
A expressão de Yuma ao olhar discretamente
para o Itsuki sorrindo diz muito.
Os caminhos
se separam… Itsuki deixa Yuma com o certificado para que ele jogue fora quando
estiver preparado, e tudo bem se ele não estiver ainda, e então se despede. E,
então, a série nos convida a assistir ao depoimento final de Itsuki, que é um
soco no estômago. Ele começa falando sobre a família, sobre por que aprendeu a cozinhar, sobre
quando descobriu que gostava de garotos, no 8º Ano, e como foi a reação do
primeiro menino a quem ele se declarou. É fascinante como Itsuki transmite a
complexidade dos seus sentimentos além das palavras, e de como há tanto no não-dito…
seu olhar fugindo da câmera, seu sorriso que é superficial e reflete dor, a
maneira como ele sobe a manga da blusa e se belisca delicadamente, buscando o
que fazer com as mãos…
São detalhes
que dão vida e realidade à cena.
Itsuki fala
sobre como ele não quis se esconder, fala da vida que levou depois de se
descobrir gay, fala sobre como ele conheceu Yuma em um aplicativo e como Yuma
chorou quando eles foram para um hotel naquela noite e ele viu as marcas de
queimadura de cigarro em suas partes íntimas, feitas pelo namorado de sua mãe,
e naquele momento eu tive que parar um pouco para respirar. Quando seu
depoimento chega a Yuma, ele fala sobre como eles são diferentes, sobre como
Yuma usa termos como “LGBTQIA+” e “minorias” e quer ser parte dessa luta, quer
ter uma vida “normal”, enquanto ele sempre quis passar despercebido… seu
discurso e o de Yuma são lindamente complementares e se “encontram” em vários
momentos…
Ao fim da
série, eles finalmente se conhecem. E só
agora.
Correndo o
risco de ser piegas e sem me importar com isso, direi com clareza do que sinto
que assistir a “The Boy and I Who Will
Break Up in 100 Days” é uma daquelas experiências que não temos todos os
dias. A força dessa série, sua competência genuína e, espero, seu legado a
tornam notável, e minhas emoções são mais complexas do que palavras podem
expressar, mas envolvem a satisfação de um olhar que se volta, de fato, para a
comunidade LGBTQIA+, o prazer catártico de ter hipocrisias escancaradas, e a
alegria recompensadora de ver uma série que tem seus objetivos claros e que
sabe como atingi-los. Passar por uma obra e sentir que ela nos tocou é, no fundo, o que buscamos… e obras mexem conosco de
maneiras diferentes. Essa toca em feridas e as assopra. Não necessariamente
nessa ordem.
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