Ato Noturno (2025 / 2026)
Liberdade e opressão.
INTENSO,
EMOCIONANTE, VÍVIDO E EXCITANTE. Escrito e dirigido por Filipe Matzembacher e Marcio
Reolon, “Ato Noturno” foi lançado no
75º Festival Internacional de Cinema de Berlim e, mais tarde, exibido no 27º
Festival do Rio, em 2025, mas o lançamento para o grande público ficou para
janeiro de 2026, com o filme gradualmente (e merecidamente) se tornando um
ícone. Assisti ao filme com um misto de apreensão, tesão e fascínio, porque a
construção do drama e do suspense na contagem da história de Matias e Rafael,
um ator em ascensão e um político concorrendo à prefeitura, é extremamente
competente, resultando em uma obra LGBTQIA+ memorável, capaz de suscitar
reflexões e, acima de tudo, capaz de despertar
sentimentos.
A sinopse
oficial do filme nos fala sobre a descoberta do “fetiche por sexo em lugares
públicos”, e não se engane: essa é uma escolha narrativa interessantíssima que
contribui a todo o simbolismo do filme. Existe, em seus encontros sexuais, uma
ânsia pelo outro, bem como o sentimento de proibição
– é a possibilidade de serem descobertos que rege o fetiche em questão, e seu
paralelismo com a própria relação deles, escondida pelas carreiras em ascensão
de ambos, denota a riqueza da narrativa. Vide a cena em que eles transam atrás
de um carro no estacionamento, escondidos de uma família tradicional que está chegando em casa… perceba como o
sexo, em si, é apenas a materialização de um tema que é o cerne da obra.
E a obra,
apesar de extremamente sensual e erótica, não é sobre sexo… embora não se possa (não se deva?) falar sobre “Ato Noturno” sem falar sobre o sexo.
Curiosamente, talvez a cena que eu tenha julgado mais excitante tenha sido o
primeiro beijo de Matias e Rafael: a intensidade e profundidade daquele
beijo, a entrega tão verdadeira, a inevitabilidade do desejo. Todas as cenas
íntimas, no entanto, são belissimamente bem construídas, e eu gosto de como, em
diferentes pontos do filme, representa e transmite diferentes sensações e
intenções. A audácia aventureira do sexo no carro, a provocação das cortinas
sendo abertas, a urgência do sexo do lado de fora de casa, a impetuosidade secreta
da masturbação que não pode ser contida no fim do filme…
Gabriel
Faryas dá vida a Matias, um ator de teatro que sonha em ser famoso e vê a sua
chance de ser conhecido nacionalmente quando uma série está prestes a ser
gravada na cidade e a preparadora de elenco está ali, no mesmo teatro que ele,
procurando talentos… ele é capaz de
qualquer coisa para conseguir esse papel. Cirillo Luna, por sua vez, dá
vida a Rafael, um homem que se apresenta como “Discreto 35” no aplicativo e
como “empresário” na vida real, mas que Matias eventualmente descobre que é um
político que almeja o cargo de prefeito da cidade, e que vem crescendo nas
pesquisas… no primeiro dia, Rafael fala sobre como “ele não repete encontro”;
no entanto, a conexão compartilhada com Matias vai além do que ele pode ou quer
controlar.
A construção
de parte da narrativa sobre a ironia de Matias ser forçado na direção daquilo
que ele julga em Rafael e que o machuca é curiosa. Matias é um homem
abertamente gay e ele não está interessado em ser o “segredo” de Rafael quando
descobre que ele é um candidato que nunca vai assumir um relacionamento com ele
publicamente para não afastar os possíveis eleitores conservadores. Quando ele
assume o protagonismo da peça na qual está trabalhando e da sua vida, no
entanto, Matias consegue ser escolhido para o papel principal da série que vai
ser filmada e então ele se torna um produto da mídia – ele passa a ser objeto
de um contrato regido por pessoas de fora, que definem o que vestir, o que
fazer, o que postar nas redes sociais…
É doentia –
e absurdamente real – a ideia de que “as pessoas precisam poder sonhar com
Matias” para que a sua carreira dê certo. Não. Na verdade é doentia a ideia de
que Matias tem que ser quem ele não é para que ele seja considerado “adequado”
para que as pessoas sonhem com ele e o desejem. Há uma linha muito tênue entre
fazer sacrifícios para conquistar seu sonho e apagar-se a si mesmo para se
tornar uma marionete. Os momentos quentes e furtivos que Matias e Rafael
conseguem encaixar em suas vidas em transformação são os únicos momentos em que
eles estão realmente fazendo aquilo que
querem fazer… é um dos motivos pelos quais há tanta urgência, e existe
aquela busca no mais profundo do outro por si mesmo.
O “ser
descoberto” é a alma do suspense de “Ato
Noturno”. O “ser descoberto” pequeno de quando se transa em um parque de cruising e o “ser descoberto” grande de
ter sua relação exposta e, possivelmente, as carreiras na política e no
entretenimento comprometidas. E é nesse âmbito que trago à tona dois outros
personagens importantes dessa narrativa: Fábio, o colega de quarto e de elenco
de Matias, que se sente traído por ter sido substituído no elenco da série e
que vê na relação dele com Rafael a sua chance de conseguir de volta o que ele
quer; e Camilo, o segurança de Rafael que finge
não ver o que está acontecendo até que ele não possa mais negar… os
caminhos dos dois se cruzam através de uma chantagem
e terminam em assassinato.
Matias e
Rafael se afastam, se encontram, se negam e se buscam. Terminam entrelaçados em
uma trama muito maior do que puderam prever e maior do que podem controlar, mas
intensamente entregues ao que sentem e ao que desejam. A escolha do parque como cenário do clímax do filme é
astuta: é um cenário público de desejo e entrega, bem como de marginalização.
Talvez seja justamente ali que eles se
encontram. Camilo está cansado de tentar “conter” Rafael, então ele aponta
uma arma para Matias, preparado para matá-lo, e ali temos algo cru, selvagem e
físico. Matar Camilo com as próprias mãos é um ato de rebeldia não apenas
contra o Camilo em si, mas contra tudo o que ele representa na incessante busca
por apagamento e silêncio.
A
masturbação que Matias e Rafael compartilham no fim do filme é um reencontro de
intenções, a assumpção do desejo e do prazer, enquanto juntos eles se aproximam
do ápice… e da recompensa. Não é uma negação
de consequências, mas uma rejeição às amarras, às convenções, às mentiras
que os negam e os apagam… é um dar de ombros quase debochado ao sistema que os
levou até ali. Eles aguardam e, enquanto aguardam, fazem o que querem fazer,
permitem-se dar e receber prazer… juntos. “Ato
Noturno” mexe com a audiência e a provoca. É uma obra intensa, de emoções
marcadas e de temas sérios, em uma narrativa competente e envolvente banhada na
beleza encontrada no erotismo que excita e convida.
Belo drama, belo thriller… bela
história!
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Filme impecável de bom!
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