Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary, 2026)
“Amaze! Amaze! Amaze!”
FICÇÃO
CIENTÍFICA DELICIOSA! Com direção de Phil Lord e Christopher Miller e
protagonizado por Ryan Gosling, “Devoradores
de Estrelas” é uma adaptação da obra de 2021 de Andy Weir, que também
escreveu “Perdido em Marte”, e é uma
experiência cinematográfica incrível. Com 156 minutos de duração, o filme é
profundamente envolvente, dividindo-se entre o presente do Dr. Ryland Grace, um
cientista que desperta sozinho em uma nave em algum lugar muito longe da Terra e sem combustível para voltar, e flashbacks que nos explicam o que está
acontecendo com o mundo, qual é sua missão e, consequentemente, como ele chegou
até ali. Além de ser uma temática da qual gosto muito, o filme também é
divertido, emocionante e tem um coração gigantesco!
A vida no
Planeta Terra está ameaçada. Existe um rastro entre o nosso Sol e Vênus que
ficou conhecido como Linha de Petrova, afetando a luz solar e, consequentemente,
a temperatura do nosso planeta. Nesse ritmo, em alguns anos a vida na Terra se
tornará insustentável, porque a queda da temperatura custará plantações
inteiras, escassez de comida e guerras por todo tipo de recurso. Por isso,
cientistas de todo o mundo estão sendo recrutados para tentar entender o que está acontecendo, e Ryland Grace é
um desses cientistas: uma mente brilhante que terminou em uma sala de aula para
adolescentes depois da má recepção de um trabalho seu, e que pode ajudar a
entender a criatura que está, na falta de palavras melhores, “devorando o Sol”.
O conceito é
muito bem explicado, e eu gosto de como o filme é uma ficção científica
acessível sem que ela termine marcada por ser didática demais. Estudos em
laboratório permitem que Grace descubra que os agora chamados astrofágicos
ingerem a energia do sol e a liberam para propulsão, e a escolha de Vênus tem a
ver com reprodução. A única solução
pode estar em um lugar distante: Tau Ceti. Quase todas as estrelas de que se
tem conhecimento também têm sua própria Linha de Petrova e estão sendo
“devoradas”, com exceção de Tau Ceti – é assim que nasce o Projeto Hail Mary,
que dá título à obra na versão original, como uma missão sem retorno até Tau
Ceti em busca do que está impedindo que os astrofágicos se reproduzam a ponto
de “apagar” uma estrela.
Gosto de
como a não-linearidade do filme joga a seu favor – embora eu seja, de maneira
geral, adepto desse tipo de narrativa. Eu gosto de o filme já começar nos
mostrando o Dr. Grace no espaço, longe demais da Terra para voltar atrás, e
despertando de um coma induzido que lhe custou algumas memórias e muito tempo…
ele descobre as duas pessoas que vieram com ele na missão, o piloto e a
engenheira, mortas, e ele não sabe muito de
qual é a missão, afinal de contas, porque tudo ainda é muito nebuloso em
sua mente. Conforme o tempo passa, Grace vai começando a recordar e redescobrir
sua missão, ao mesmo tempo em que a audiência se inteira de todos os problemas
e se familiariza com uma criatura que surge para não deixar Grace sozinho.
Rocky é uma
criatura de Eridani 40 que estabelece contato com a nave de Grace e que
inusitadamente se torna seu amigo. Grande parte da alma de “Devoradores de Estrelas” se deve à relação de Rocky e Grace, que
eu adoro! Rocky é uma criatura rochosa de cinco pernas, sem rosto aparente, com
alguma facilidade para compreender Grace, bem como uma inteligência que sugere
uma civilização mais avançada do que a humana, mas Grace toma seu tempo para
aprender a se comunicar. Eu adoro todas as fases dessa comunicação, do gestual
inicial (as batidas são ótimas!) à decriptografia no computador à escolha de
uma voz para Rocky, o que nos entrega uma cena maravilhosa! E, a partir daquele
momento, Rocky se torna uma companhia constante.
Eu amo todas
as cenas da dupla! Eu amo o Grace dando um salto de fã ao confiar em Rocky
sobre ter oxigênio no túnel que ele cria entre as duas naves, e amo o Rocky
aparecendo como visitante/novo morador da nave de Grace, fazendo alguma bagunça
como se fosse uma criança curiosa. Ambos estão ali em uma mesma missão: estudar
Tau Ceti, descobrir o que está detendo os astrofágicos e salvar sua própria
estrela e, consequentemente, planeta. Talvez eles só consigam por estarem juntos. A solidão do espaço,
sentida por ambos, é quebrada pela companhia por vezes irritante, mas
necessária, e os dois passam a se importar imensamente um com o outro, conforme
se conhecem melhor e consolidam uma amizade nem tão improvável assim.
A
complexidade da obra é muito emocional. Vem da saudade que Rocky sente do seu
par em Eridani ou do pesar de Grace ao saber que ele está em uma missão sem
retorno, algo que talvez o colocasse como “corajoso” perante os olhos de outras
pessoas, mas não é assim que ele se sente… afinal de contas, não estava previsto
que ele fosse o cientista dessa missão, porque ele não tinha nenhum estudo ou
treinamento para ser astronauta, mas quando uma explosão custou um prédio
inteiro do Projeto Hail Mary e muitas vidas, ele se tornou quem mais sabia a
respeito de astrofágicos, e mesmo quando ele resolveu que “não tinha coragem o
suficiente para isso”, ele foi enviado para o espaço contra a vontade… uma vida
para salvar bilhões.
Em algum
momento, Grace assume essa missão… ele sabe que não há outra maneira. Quando
Rocky oferece combustível para ele retornar para casa, no entanto, mesmo que
isso lhe custe 6 anos a mais para que ele mesmo chegue a Eridani, Grace chora e
não consegue mais fingir que “estava em paz com sua decisão” – até porque não
foi uma decisão. O abraço de Rocky e Grace é um dos momentos mais emocionantes do filme, com o seu
quê delicioso de comédia (Ryan Gosling tem um timing muito bom para a comédia, e a dupla com Rocky funciona muito
bem nesse sentido!), e então os dois partem para a última fase da missão, para
uma “pescaria” que pode dar as respostas que eles buscam… e que é um dos
momentos mais tensos de todo o filme.
Curioso como
Rocky e Grace são os pilares dessa narrativa e é com eles que nos importamos
porque eles são o ponto de vista da audiência – não temos notícias da Terra agora que nos faça importarmo-nos o
suficiente com eles. Tudo se resume àqueles dois e àquela nave, e é
profundamente sincero e convincente! Quando a vida de Grace está por um fio,
por exemplo, Rocky se coloca em risco para salvar o amigo e, quando desperta,
Grace se depara com um Rocky desacordado cujo sono ele vai assistir… afinal de
contas, eles se tornam “indefesos” durante o sono e eridianos costumam assistir
o sono um do outro. É um alívio tão
grande quando o Rocky desperta e ele está bem, o que quer dizer que ele
também poderá voltar para casa e salvar o seu planeta…
Os dois se
despedem no túnel construído por Rocky em uma cena lindinha. Eles se demoram
acreditando que estão olhando um para o outro pela última vez, e há um quê de
graça e de melancolia na dancinha que Grace faz, por exemplo, e é que é imitada
por Rocky, e que remonta ao início do seu contato e da amizade que se
transformou naquele tempo. Antes de chegar à Terra, no entanto, um vazamento de
“tauleca” mostra a Grace que Rocky está em apuros: o material pelo qual a
tauleca conseguiu passar para devorar astrofágicos, que estão sendo usados como
combustível, é o material do qual toda a nave de Rocky é feita… então, sua nave
toda se torna um vazamento, ele nunca chegará em casa. Morrerá à deriva no espaço, de maneira lenta, cruel… e sozinho.
Então, Grace
retorna. Ele não tem combustível para alcançar Rocky e voltar para casa, mas
ele não se importa: ele envia para a Terra as sondas com as suas descobertas e
com a tauleca que poderá deter os astrofágicos entre o Sol e Vênus, como era o
plano desde sempre, de todo modo, e dá meia-volta. É TÃO LINDO ver como ele
reencontra Rocky e o salva… e há um quê de clichê, sim, mas eu não me importo –
eu não me importo porque É EMOCIONANTE DEMAIS! Eu gosto da ideia de Grace e
Rocky se amarem tanto que cada um está disposto a se sacrificar para salvar a
vida do outro… e é muito fofo saber que Grace está lá em Eridani por vontade
própria, dando aulas para eridianinhos fofos, sem ter muita certeza de que quer
voltar pra casa, mesmo que possa…
O filme é
lindo. “Devoradores de Estrelas”
conta, atualmente, com 95% de aprovação da crítica e 96% de aprovação do
público no Rotten Tomatoes, se tornando mais uma adaptação de sucesso das obras
de Andy Weir, e certamente vai conquistar cada vez mais pessoas, conforme ele
vai sendo recomendado por aqueles que, como eu, o assistiram, o amaram e o
indicaram… acredito que também será um grande sucesso quando chegar ao streaming dentro de alguns meses! Com um
visual muito bonito, personagens extremamente carismáticos e a ótima atuação de
Ryan Gosling, o filme entrega uma ficção científica de qualidade que tem
tensão, um quê de mistério, temática de “fim do mundo” e a sua pincelada de
graça, humor, leveza e emoção.
Filmaço!
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