Lord of the Flies (2026) – Episódio 4: Ralph

“Ralph… that was murder”

O retorno à civilidade depois da selvageria… o último episódio da adaptação de 2026 de “Lord of the Flies” é um evento grandioso, quiçá traumático. A história de um grupo de garotos britânicos que caiu em uma ilha deserta sem nenhum adulto por perto não é, e não se engane, exatamente sobre “um grupo de garotos britânicos”. Os garotos são um mero símbolo para a humanidade e para a selvageria animalesca que surge quando aquilo que institui ordem e civilidade está ausente – na figura da série, são os adultos. O retrato da barbárie através do grupo liderado por Jack atinge o ápice do horror, acentuado pelo contraponto ofertado por Ralph e Nickie, especialmente depois do que aconteceu no episódio anterior… o assassinato de Simon.

Eu gosto de como Nickie mantém-se lúcido do início ao fim. Há algum desespero silencioso em Ralph após a morte de Simon e alguma tentativa de entender o que acontecera sem precisar julgar o grupo de Jack, mas não há desculpas – não tem nada a ver com o escuro, com os trovões, com a chuva… tem a ver com eles. E, como Nickie diz, não existe outro nome: foi um assassinato. Naquela noite, o grupo de Jack invade o acampamento diminuto liderado por Ralph em um ataque que faz com que nos perguntemos no que eles se transformaram, e Nickie eventualmente entende o que eles queriam: eles vieram por fogo e levaram os seus óculos. Nickie e Ralph convocam uma reunião através do sopro da concha, mas eles são um grupo pequeno agora…

Nickie decide, então, ir até o acampamento de Jack, dizer que o que eles estão fazendo não é certo e pegar de volta os seus óculos, e Ralph precisa acompanhá-lo, porque ele não enxerga sem suas lentes… a cena é desesperadora desde o início, com um grupo de risadas, deboches e agressões. Ralph os confronta sobre o horror do que fizeram com Simon, algo que nem Jack nem os demais querem reconhecer. É curioso como aquele grupo perdeu a capacidade de se comunicar. Jack não quer conversar… ele parte para cima de Ralph, o batendo de tal maneira que eu acredito que ele o teria matado se não fosse interrompido. E, enquanto ele faz isso, o restante do grupo assiste com gritos de guerra e satisfação, ou dançam sem assumir o que está acontecendo.

A criação do suspense no episódio é excelente. Enquanto Jack parece prestes a matar Ralph, Nickie grita dizendo que está com a concha e fala sobre ordem e sobre a possibilidade de resgate, mas secretamente Jack não quer ser resgatado… ele gosta do que estão fazendo ali. Então, ele grita para que Roger detenha Nickie e o faça se calar, e Roger joga uma pedra grande do alto, acertando a parte de trás da cabeça de Nickie. A concha caindo e quebrando é a representação final de qualquer esperança de sociedade civilizada naquela ilha se esvaindo. Roger celebra a vitória sobre Nickie, e por um segundo Jack parece reconhecer o horror do que estão fazendo, mas é algo muito momentâneo… é algo que desaparece depressa e é substituído por gritos e caos.

É absurdo de tal maneira que “O Senhor das Moscas” não podia deixar de ser um clássico. Não é absurdo porque não é crível… é absurdo porque é real demais. Se havia qualquer tentativa de “justificar” o assassinato de Simon culpando o escuro, a tempestade e a confusão, aqui não há nada disso: eles estão em uma praia iluminada, todos plenamente conscientes do que estão fazendo… Jack não pode negar o fato de ter batido em Ralph; Roger não pode negar o fato de ter jogado aquela pedra para matar Nickie; ambos fizeram porque quiseram fazer e sabendo o que faziam. Enquanto a tribo de Jack tenta capturar todos do outro grupo que vieram até ali, Ralph apoia Nickie para tirá-lo dali e se esconder no primeiro lugar que encontrar, porque Jack e os demais os procurarão…

Grande parte do episódio se dedica à “despedida” de Nickie. A sua morte lenta que se prolonga por minutos e minutos de inevitabilidade e acentuam a dicotomia entre os comportamentos de ambos os acampamentos. É profundamente doloroso o momento em que, fraco, Nickie pergunta ao Ralph se ele está bem e diz que “não está se sentindo bem”. Ralph vê a extensão do seu ferimento, talvez já saiba, desde então, que não há nada que ele pode fazer naquela ilha para salvar a vida de Nickie, mas ele não lhe diz isso… ele está com ele até o último momento e lhe dá uma morte digna e humana. E ele faz seu melhor, e é o líder que todos sempre quiseram que ele fosse. Ele tenta acalmar Nickie, enfaixa sua cabeça, o ajuda a caminhar, conversa com ele…

Ralph tem noção do que fazer. Ele impede Nickie de pegar no sono, por exemplo, e quando Nickie diz que está com sede e com frio e começa a tremer, Ralph fala de ir buscar água para ele. Com os olhos e a voz fracos, Nickie pede que Ralph não o deixe sozinho ali, mas Ralph precisa… ele sabe que Nickie não aguenta caminhar pelas 81 árvores pelas quais ele passa até encontrar água, tampouco conseguiria correr, fugir e se esconder dos selvagens como Ralph precisa fazer. Por um momento, eu achei que Ralph não retornaria a tempo, mas Nickie ainda está vivo quando ele chega com as águas, e ainda que ele perceba que Nickie não vai conseguir sobreviver, Ralph fica com ele o tempo todo… é uma relação tão preciosa que eles construíram, e uma demonstração de humanidade.

Naquela noite, Nickie pede desculpas “por estar com frio” ou por ter incentivado a ir até o outro acampamento buscar seus óculos, mas ele não fez nada de errado… Ralph também pede desculpas por ter falado de seu apelido, que era para ser um segredo, para os demais. Ralph cuida de Nickie na última noite e o abraça por ele sentir frio, e conforme a câmera se afasta, as árvores ao redor parecem vermelhas… Nickie não amanhece no dia seguinte, e Ralph cava um buraco para enterrá-lo da maneira correta e respeitosa, como ele queria ter feito com o piloto lá no primeiro episódio – onde os indícios de selvageria se mostraram pela primeira vez. O túmulo improvisado, mas decente, de Nickie e o Ralph se afastando em silêncio sozinho ACABARAM COMIGO.

Ralph volta escondido ao acampamento de Jack para contar aos gêmeos sobre a morte de Nickie, mas Roger percebe o movimento e dá um de seus gritos para alertar o grupo, e então aquilo se torna uma perseguição sem propósito – a única coisa que eles querem é caçar… é matar. Gosto do novo confronto entre Jack e Ralph, quando Ralph pergunta “o que ele quer, afinal”, e diz que se ele está fazendo isso tudo para ser chamado de “chefe”, então ele o chama de chefe, porque não quer mesmo ser chefe daquilo… seus amigos estão mortos! Jack chama os demais, e é animalesco, cruel e violento… Ralph foge, corre, se esconde, e os caçadores decidem colocar fogo na mata para obrigar Ralph a sair de seu esconderijo graças à fumaça.

Enquanto corre sozinho pela floresta, algo desperta em Ralph… é a angústia e o acúmulo de tudo. Ele está gritando em desafio por Jack quando ele chega à praia e se depara com algo que parece impossível: um barco pequeno e adultos. Foi a fumaça levantada que chamou a atenção e finalmente possibilitou o resgate… enquanto Ralph se aproxima do adulto salvador, outros garotos chegam correndo e gritando selvagemente à praia, e a partir do momento em que eles veem o adulto e o barco, eles desaceleram, se calam, murcham. Sua parte racional começa a perceber que a “brincadeira” acabou, e que eles não mandam mais. Essa última cena é, curiosamente, uma das mais fortes de toda a série, porque confrontam a realidade da ilha com a fora dela…

O homem quase se diverte, inicialmente, e fala sobre as “brincadeiras de guerra” e sobre como “espera que não tenha corpos”, e Ralph fala sobre ter dois mortos sobre os quais ele sabe, mas provavelmente mais do que isso… é quando ele diz isso e sua expressão mostra o desespero silenciado que o adulto percebe a gravidade da situação, que a sua ficha cai enfim. Winston Sawyers brilha como o pivô da grande cena final de “Lord of the Flies” como Ralph: seus olhos transmitem tamanha dor, misturada a horror e alívio… é a expressão final que resume tudo o que sentimos ao longo desses quatro episódios. É a expressão dele, a expressão do resgate, o silêncio e os passos lentos dos meninos rumo ao retorno à civilização…

Adoro o quanto está dito no silêncio e nas expressões…

De arrepiar. QUE SÉRIE FENOMENAL!

 

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