Adolescência (Adolescence) – Episódio 4

CERTAMENTE, UMA DAS MELHORES SÉRIES DE 2025. Quiçá, uma das melhores séries da história da televisão. “Adolescência” é, como eu comentei desde o primeiro episódio, impactante. Mas ela não é impactante por uma tentativa vazia de chocar: ela é impactante justamente por ser um retrato sincero da adolescência, da vida em sociedade, da consequência de nossas ações e de nossas omissões… a minissérie é realista e destemida na construção de uma história sem máscaras, imperfeita e que foca em recortes inteligentes que conseguem explorar diferentes facetas de um crime. “Adolescência” nunca focou em perguntar se Jamie Miller matou ou não matou Katie… focou em levantar questionamentos sobre essa ação, seus antecedentes e o que ficou depois.

Agora, tendo encerrado “Adolescência”, eu reforço um elogio que já fizera anteriormente: a série é riquíssima. É absurdo como cada um dos quatro episódios é único e explora seu próprio universo. No primeiro episódio, vimos o dia em que Jamie foi levado para a delegacia e a acusação do assassinato cometido na noite anterior foi oficializada; no segundo episódio, estávamos no terceiro dia do caso e os policiais estavam na escola de Jamie em busca da faca utilizada no crime e dos motivos que o levaram a cometer o homicídio; no terceiro, Jamie já estava recluso há sete meses e tinha sua última sessão com uma psicóloga que escreveria um relatório para o juiz para a ocasião de seu julgamento; agora, treze meses se passaram e estamos a um mês do julgamento.

Esse episódio, no entanto, não é centrado em Jamie… é o aniversário de 50 anos de Eddie Miller, e acompanhamos um pouco da realidade da família, pouco mais de um ano depois da prisão do filho mais novo, enquanto eles ainda esperam o julgamento que se aproxima. É absurdamente tenso em muitos sentidos, e explora os sentimentos e as dificuldades enfrentadas pela família: a ausência constante de Jamie no símbolo de um quarto fechado no qual eles evitam entrar; a culpa que os leva a perguntar o que eles fizeram de errado e/ou o que eles deixaram de fazer para impedir que Jamie se tornasse essa pessoa; a observação e o julgamento constante de toda a sociedade ao redor, representada na forma de vizinhos fofoqueiros ou pichadores da van de trabalho de Eddie.

Cada um lida – ou não lida – de alguma maneira, e há muita coisa guardada e muita encenação para tentar fingir que as coisas não são tão ruins quanto realmente são, talvez secretamente esperando que agir como se não fossem tão ruins as torne menos pesadas. Lisa, a irmã, lida com a ausência, as comparações e o fato de ser sempre chamada de “A Irmã do Jamie”, enquanto sua realidade em casa é marcada por essa tensão constante; Manda, a mãe, lida com o fato de nunca ter visto o vídeo do filho e, portanto, parte dela querer duvidar que ele seria capaz, bem como com o marido constantemente nervoso que quer fingir que pode levar a vida como antes e se recusa a se mudar; e Eddie, o pai, lida com uma culpa marcada e com a pressão colocada sobre si mesmo de “deixar tudo em ordem”.

Tudo é propositalmente doloroso… a tentativa de “um aniversário normal” e raros e curtos momentos de alegria são marcados pela presença de Jamie e do que ele fizera, seja na forma de uma bicicleta na garagem ou de uma pichação na van que Eddie usa para trabalhar… uma pichação cujo intuito eles nem entendem por completo, mas que foi feita para incomodar e para lembrar-lhes que eles estão sempre sendo observados. Há muita força na objetividade com que Eddie vai atrás de um balde, água e sabão, e muita angústia na maneira como ele esfrega desesperado a van sem conseguir tirar a tinta que usaram para pichar a palavra “PERVERTIDO”, como uma mensagem para ele, para o Jamie ou sabe-se lá para quem… nem quem pichou sabe ao certo.

Gosto muito de toda a sequência na qual Eddie coloca a família dentro da van e os leva para uma loja para comprar algo para tirar ou cobrir a pichação, porque ele não quer deixar a filha para trás: agora foi uma pichação, ninguém sabe o que mais podem fazer. É perigoso. A cena é emblemática por tudo o que ela traz e o que ela esconde. A conversa aparentemente leve dentro do carro a caminho da loja não está ali apenas para encobrir a dor do momento, mas para relembrá-los de um tempo em que eles foram felizes… as memórias de Eddie e Manda de sua época de escola os remete a um tempo no qual eles não eram consumidos pela culpa dos erros que podem ou não ter cometido; e a projeção para um cinema e um restaurante mais tarde é a tentativa de seguir em frente.

Acho que o Eddie chega realmente mais leve à loja em busca de um solvente ou de uma tinta nova, mas ele sai de lá muito pior do que ele chegou. O atendimento por um adolescente que o reconhece das postagens na internet, traz o assunto de Jamie à tona e diz “estar do seu lado” o atormenta, e ele está muito afetado quando ele sai da loja e os garotos que picharam o seu carro e estavam do lado de fora da sua casa também estão ali. É intensa e tensa a cena de Eddie contra um dos garotos que ele consegue pegar, porque ficamos apreensivos o tempo todo, e então ele os expulsa dali e manda deixar a sua família em paz, enquanto abre a lata de tinta ali mesmo e a joga inteira no vidro do carro, cobrindo apenas parcialmente a pichação… é uma ação de desespero puro.

O retorno para casa é inicialmente silencioso, todas as cabeças a mil, Manda e Lisa observando Eddie, até que o telefone toca e eles conversam com Jamie… a conversa com Jamie é um dos melhores momentos desse último episódio, e novamente me emociona a posição e a atitude do pai, que aqui tenta esconder tudo o que aconteceu desde que amanheceu – ele nem conseguiu tomar seu café-da-manhã ainda! –, coloca uma voz mais neutra e tranquila, e conversa com Jamie, pergunta como ele está e agradece o “Feliz aniversário” e o cartão enviado por Jamie, com um desenho que ele fizera do pai… quando Jamie diz que, com a aproximação do julgamento, ele decidiu mudar o seu depoimento e se declarar culpado, no entanto, Eddie não consegue responder…

Com Eddie em silêncio, Manda e Lisa assumem a ligação…

Talvez seja melhor assim.

A conclusão do episódio, de volta em casa, traz pequenos e grandes momentos arrebatadores. Destaco o choro desesperado de Manda, sozinha na entrada de casa, antes de subir e encontrar Eddie com uma camisa nova, que ela lhe dera de presente, arrumando-se para, quem sabe, ir ao cinema e sair para almoçar, como eles falaram em fazer… e Manda e Eddie compartilham, aqui, o melhor diálogo desse episódio final. Um diálogo cheio de dor e cheio de dúvida, que vocaliza esse sentimento de culpa que sabemos que eles estão sentindo. Eddie fala sobre como ele foi criado e maltratado e como ele prometeu que, quando tivesse filhos, “seria um pai melhor”, e agora ele se pergunta se ele conseguiu ser um pai melhor… ele acha que, se fosse um bom pai, as coisas seriam diferentes…

Manda fala sobre Jenny, a terapeuta que eles estão frequentando, e sobre como ela pediu que eles não sentissem culpa, mas eles sentem, é inevitável… Eddie fala sobre como achou que estava fazendo as coisas direito, fala sobre como esteve ausente desde que os seus negócios deslancharam e ele teve que trabalhar o dia todo, fala sobre como não estava pendente do que Jamie estava fazendo em seu computador nas horas que passava fechado dentro do quarto, e ele sente que ele podia e que ele devia ter feito mais: ele devia ter observado, ele devia ter reparado que algo estava errado, e talvez ele pudesse ter impedido que aquela garota estivesse morta e que seu filho, aos 13/14 anos, estivesse preso por homicídio. Ele queria ter sido um bom pai, mas não sente que foi…

Embora Manda lhe diga que sim.

Em parte, talvez Lisa seja a prova de que sim. Eles podem ter falhado com Jamie e talvez pudessem ter feito algumas coisas de maneira diferente, mas a culpa não é deles, pelo menos não inteiramente – eles fizeram o que julgaram possível. Lisa se saiu bem, não se saiu? É muito bonita a cena na qual ela aparece no quarto deles, arrumada em ocasião do aniversário do pai, e fala sobre como eles não devem ir embora mesmo, porque não vai resolver nada, e o Jamie é “deles”. Juntos, os três decidem não ir ao cinema nem ao restaurante naquele dia, talvez seja melhor não ir… eles podem assistir a um filme em casa, fazer uma pipoca, pedir comida. Sem palavras, eles reconhecem que as coisas nunca mais serão como antes, mas eles têm uns aos outros e vão ter que superar juntos…

O episódio final me fez chorar várias vezes. É pesado e triste assistir às consequências sobre a família e a vida que nunca mais será a mesma… mas o momento que me desmontou por completo foi justamente a cena final. Antes de descer para a sua “celebração de aniversário” e a tentativa de “continuar vivendo”, Eddie entra sozinho no quarto de Jamie, deixado como era quando ele ainda vivia ali, mais de um ano atrás… a dor pungente do pai se esvai em lágrimas de desespero e dor e um grito abafado pelo travesseiro e pelas cobertas da cama vazia do filho, e aquela é a representação do sentimento causado pelo episódio todo. Então, ele coloca um urso para dormir no lugar do Jamie, beija sua testa e pede desculpas ao filho, dizendo que “devia ter feito mais”.

Doloroso, duro, sincero e emocionante.

Uma verdadeira obra-prima, sem dúvidas!

 

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