Lord of the Flies (2026) – Episódio 3: Simon
“Do you think any of this is about
finding the beast?”
Eu não estava emocionalmente
preparado para o horror que eu acabei de assistir… parcialmente centrado em
Simon, o terceiro episódio da adaptação de 2026 de “Lord of the Flies” é excelente, mas é daqueles episódios que
angustiam e embrulham o estômago. A proposta da história sempre foi a
sobrevivência de um grupo de meninos em uma ilha deserta depois de um acidente
de avião e como essa tentativa de criação de uma sociedade acaba levando à
barbárie – se a sequência da morte do porco no episódio anterior já foi gráfica
e enervante, os minutos finais desse terceiro episódio são o ápice da
selvageria, a ponto de um grupo inteiro desses garotos estarem irreconhecíveis.
É uma produção intensa, repleta de temas e com qualidades técnicas inegáveis.
No episódio anterior, Jack
encontrara o diário de Simon, e agora ele o lê, com registros que vão de 15 de
dezembro até 04 de janeiro e que talvez revelem tanto sobre o Jack quanto sobre
o Simon. Em muitos sentidos, o episódio é sobre a relação dos dois, e Simon é
claramente a pessoa que melhor conhece o
Jack – ele é o único que o vê
além da máscara que ele usa quase que o tempo todo e que o tornou líder dos
caçadores no atual cenário. Em uma conversa com Ralph, porque Simon ficou no acampamento liderado por ele e não
pelo novo fundado por Jack, Simon fala sobre como ele mesmo é um covarde e
sobre como o Jack também é, mas ele
nunca vai admitir isso para ninguém. Simon sabe que Jack está tão assustado
quanto os outros, por isso eles precisam de Ralph…
Ele precisa de Ralph.
Ralph é quem instiga Simon a
falar, quando ele diz que “não entende ele e Jack”, e Simon fala sobre coisas
que as narrações em voice over das
entradas em seu diário, estejam elas sendo lidas por Jack ou não, também
revelam em paralelo: Jack é mais legal quando eles estão sozinhos, e eles
acabam passando bastante tempo sozinhos quando os outros meninos vão para casa
para feriados e recessos e eles ficam na escola, mas ele o deixa de lado a
partir do momento em que os outros garotos retornam, como se eles nunca tivessem
sido amigos… para Simon, “o Jack é mais legal do que as pessoas pensam”, mas
ele está secretamente começando a duvidar disso. Não, na verdade ele está
percebendo como o medo faz com que ele enterre essa parte sua cada vez mais
fundo…
Até que não seja mais visível de
nenhum modo.
Na próxima reunião com ambos os acampamentos, a principal
discussão é o avistamento da besta/fera/monstro sobre a qual os pequenos estão
falando desde sempre, e então fica definido que “eles vão caçar a besta” –
Piggy/Nicky é o primeiro a perceber que isso não é sobre a besta… é uma
demonstração de liderança, um desafio para ver “quem é melhor”, uma encenação
gigantesca e, quiçá, patética, que pouco se importa de fato com o medo dos
pequenos e com o que existe nessa ilha que os assusta… a travessia de Ralph por
um lugar perigoso seguida de perto por Jack é a materialização dessa competição
sem sentido que é pouco sobre, de fato, proteger os meninos pequenos ou matar o
monstro que vive ali e assusta a todos.
Eventualmente, o grupo é
reduzido… conforme anoitece com uma escalada grande à frente, Nicky e a maioria
dos outros meninos retornam para o acampamento, enquanto Ralph, Jack, Simon e
dois outros garotos continuam a suposta “caça”. É nessa parte da expedição que
Simon consegue conversar com Jack e pedir
o seu diário de volta, dizendo que “nem se lembra do que escreveu”, embora
tenhamos certeza de que ele se lembra de cada detalhe, e Jack responde
maldosamente que “é a história mais triste que ele já leu”. Pouco depois, eles
“veem a besta”. Jack e os demais meninos correm desesperadamente montanha
abaixo de volta ao acampamento, e Simon é o único que fica para trás, embora
assustado, para tentar entender que o que eles veem como um monstro talvez não seja.
E esse é o conceito do episódio.
Jack, que sempre desdenhara e
debochara da concha de Nicky – que é uma inusitada marca da civilidade –, a
sopra e clama a palavra por a estar segurando, e quando aquela reunião
improvisada se torna uma briga entre ele e Ralph, ele bate nele com a concha e
o deixa quase desmaiado no mar, de onde Simon o tira… também apenas uma amostra de tudo o que está por vir. Jack
anuncia que eles avistaram a besta e que “só existe uma pessoa que pode
defendê-los, e não é o ‘chefe’ que eles escolheram”. É a consolidação da
selvageria conforme Jack e seus seguidores se convertem em animais… muito do
que poderíamos dizer está estampado no rosto de Simon: suas reações e seus olhos dizem tudo aquilo que as palavras não dizem.
Naquela noite, antes da caçada à
besta, Simon vai escondido até o acampamento de Jack e recupera o seu diário,
que ele lê novamente durante a noite, relembrando coisas que entendemos durante
o episódio, sobre como ele via um Jack que ninguém mais via porque Jack não
permitia… um Jack que talvez não exista
mais, de todo modo. Sem alarde, durante uma conversa com Nicky e Ralph,
Simon joga o seu diário na fogueira que eles observam e o deixa queimar,
deixando para trás, também, parte de sua história – e quando lhe perguntam onde
ele estaria agora, Simon fala sobre como, se pudesse escolher, ele escolheria
estar ali, porque se sente muito feliz ali. Curiosamente, Simon é quem mais
mantém a sua lucidez… até mais que Nicky
e Ralph.
Os caçadores aparecem no
acampamento de Ralph para convidar todos para uma refeição, já que mataram um
novo porco, e Simon é o único que percebe que é uma armadilha – ele tem a sensação de que coisas ruins vão
acontecer. Tudo a partir dali é sombrio e macabro. Usando máscaras improvisadas
e gritando exageradamente, os caçadores parecem selvagens. Há algo em seus gestos, em seus gritos, nos sons que
fazem que os afastam cada vez mais da humanidade e é assustador. Ralph aceita
um pedaço de carne oferecido para ele, enquanto Simon se afasta, enquanto os
demais começam a perceber que ele estava certo o tempo todo… aquele “jantar” é
uma tentativa de recrutamento, com o Jack os convidando para a sua tribo, “onde
tem comida e onde eles não têm medo da besta”.
“Eles são fortes o bastante para
matá-la”.
A questão é: o que eles consideram a besta? Aqueles garotos se afastaram tanto
da razão e atingiram um nível tão absurdo de selvageria que não há
discernimento algum… os paralelos são intensos: o Simon correndo sozinho na
floresta, atormentado com tudo; os gritos dos bárbaros, cada vez mais
animalescos; os sons da tempestade se aproximando; o Ralph gritando e tentando
levar de volta aqueles que vieram com ele, dizendo que “esse é um acampamento
ruim para pessoas ruins”. O caos toma conta, o espírito ritualístico é sombrio,
e tudo intensifica esse sentimento de desconforto e horror na audiência, que
aprende a esperar pelo pior… Ralph está em choque e Nicky dá passos cautelosos
e silenciosos para trás, se afastando daquilo.
Daquilo que não quer fazer parte.
E, então… o ápice do horror. Nós
não vemos o que é a “besta” que os garotos estão atacando de maneira tão animal, mas nós sabemos que a) não
existe nenhuma besta; e b) eles estão cegos o bastante para não olhar para que
o fazem. Depois de os meninos “matarem a besta”, enquanto eles saem cantando a
canção da vitória sem olhar para trás, ouvimos uma última entrada no diário de
Simon, do dia em que os outros garotos retornaram: Jack foi legal com ele no
café-da-manhã, mas já se afastou no almoço e quando Maurice e os demais
chegaram, é como se ele nem existisse. E enquanto ouvimos essas palavras, a
câmera nos encaminha para a “besta” brutalmente morta pelos caçadores – e é o
corpo sem vida de Simon, ensanguentado, boiando na água.
Eu terminei o episódio destruído.
QUE SÉRIE FORTE.
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