Adolescência (Adolescence) – Episódio 1


IMPACTANTE. “Adolescência” é uma das séries mais premiadas de 2025… atualmente, a série conta com mais de trinta prêmios, dentre eles nove Emmy Awards, incluindo “Melhor Direção” e “Melhor Roteiro de uma Série Limitada ou Antologia”, quatro Critics’ Choices Awards, incluindo “Melhor Série Limitada”, e quatro Globos de Ouro – “Melhor Série Limitada”, “Melhor Ator em Série Limitada” para Stephen Graham, “Melhor Ator Coadjuvante em Série Limitada” para Owen Cooper e “Melhor Atriz Coadjuvante na Televisão” para Erin Doherty –, além de uma série de indicações cujos resultados ainda não saíram e que deve contar com mais vitórias para a série. “Adolescência” é mesmo um marco em tudo aquilo em que se propõe, e o primeiro episódio já deixa isso claro.

“Adolescência” é um ensaio poderoso e absurdamente real sobre… muita coisa ao mesmo tempo. Sobre a adolescência em si, sobre as relações interpessoais, tanto com amigos quanto com possíveis interesses românticos e com a família, sobre motivações, reações… é complexo demais para que, em um primeiro episódio, eu consiga chegar a conclusões, e eu adoro isso – é por isso que eu inicio meu texto falando sobre como a série é “impactante”. Eu fiquei preso durante os 65 minutos de episódio sentindo que minha mente estava a mil. A todo momento, eu tinha um zilhão de coisas nas quais pensar, conclusões que eu estava sendo convidado a tirar, e uma convicção de que eu queria esperar mais para emitir opiniões, embora o final do episódio pareça muito claro.

Em termos técnicos, a série também se sobressai… e é justamente essa junção entre qualidade técnica e criativa que a torna tão rica. O episódio é inteiramente filmado em plano sequência, o que quer dizer que foi filmado do início ao fim sem nenhum corte. Além de isso ser incrivelmente difícil e demonstrar um talento e uma entrega magníficos de todos os envolvidos, não é algo meramente estético: o plano sequência desempenha um papel fundamental na narrativa. Com a maneira como o episódio foi concebido, filmado e entregue, o tempo da narrativa é o mesmo do tempo real, e isso ajuda a audiência a se sentir dentro daquela história, quiçá parte dela, como se a estivéssemos vivendo junto com os personagens. Faz toda a diferença para a história que está sendo contada.

Criativamente, é fantástico. Não é o único jeito de se contar uma história, nem mesmo essa história. “Adolescência” talvez pudesse ter sido concebida, por outras mentes criativas, como uma série com pequenos saltos temporais, uma narrativa menos linear e/ou abundância de flashbacks. O descarte disso tudo para a adoção do plano sequência parece tornar as coisas mais reais conforme as respostas não nos são entregues prontas. Cada desdobramento abre um leque de possibilidades, e oscilamos junto aos diferentes personagens, suas reações, suas convicções, suas incertezas… é muito rico, ao mesmo tempo em que é muito incerto, e estamos preparados e antecipadamente angustiados pelos desdobramentos vindouros prometidos pela sinopse…

Jamie Miller é um garoto de 13 anos que, na manhã do dia 08 de maio de 2024, é levado pela polícia para a delegacia sob uma acusação de homicídio. Sua família é autorizada a seguir o carro, mas não a ir com o garoto, e então tudo é preparado para os estudos e interrogatórios vindouros – Jamie fica sabendo de seus direitos, escolhe o pai como adulto responsável para acompanhá-lo e aceita a ajuda de um advogado. Na hora seguinte, que acompanhamos em tempo real, ele é colocado em uma cela, tem seu sangue recolhido para análises e conversa com o advogado e com o pai, que lhe aconselham sobre como deve se comportar quando os policiais vierem fazer perguntas, já que há algumas coisas que ele pode responder e outras que talvez seja melhor que ele não responda.

Algumas coisas chamam a atenção e marcam esse episódio de estreia, dentre elas toda a ação policial que começa com uma invasão violenta da casa da Família Miller e a acusação enfática de quem parece já ter certeza de que Jamie é o culpado e só precisa de uma confissão para dar sequência ao caso. Há algumas quebras nessa dinâmica, no entanto, como o homem atrás do balcão que recebe Jamie e faz perguntas básicas para que ele possa ser levado a uma cela, onde ele poderá comer alguma coisa e conversar com o pai, ou mesmo o advogado, que diz que não está ali para saber se ele cometeu ou não o crime do qual está sendo acusado, mas para ajudá-lo a saber responder sem que se comprometa mais… é ele quem o ensina a responder “Sem comentários”.

Outro destaque desse primeiro episódio, para mim, é a relação de Jamie com o pai, Eddie Miller, e as próprias reações de Jamie. Há alguma angústia e/ou culpa que parecem indecifráveis enquanto não temos informações o suficiente, e o episódio faz com que nos perguntemos continuamente: ele matou ou não matou? Descartando os últimos minutos do episódio e fazendo um comentário anterior àquela gravação, eu não consegui ter completa certeza… Jamie parecia ora culpado e/ou calmo e frio demais, ora angustiado enquanto repetia que “não foi ele” ou que “não tinha feito nada de errado”. E, com o pai, temos dois momentos fortes, um no qual ele pergunta ao pai se ele acredita que não foi ele, e outro no qual o pai pergunta, uma única vez, se foi…

Toda a construção do pai também é fantástica! Sua angústia se encontra com o quanto ele parece perdido porque tudo é muito novo e muito absurdo para ele. Eu chorei quando ele disse ao advogado que não sabia o que fazer e que tinha medo de prejudicar o filho… ainda assim, Jamie o escolhera como adulto responsável para acompanhá-lo o tempo todo. E Jamie Miller, conforme dito e reforçado inúmeras vezes durante o episódio, por diferentes personagens, é “um garoto inteligente”. Não apenas academicamente, como o comentário sobre o seu boletim escolar sugere, mas na maneira como ele se porta, como responde às perguntas ou se esquiva de outras, como deixa escapar algo que deve ser mais notável nos outros episódios quando o policial diz que “pode confiar nele”.

A reviravolta do final do episódio nos pega de surpresa porque, ao contrário do que se podia pensar, não parece que “Adolescência” vai focar na dúvida “Jamie Miller matou ou não matou sua colega de classe?”, no fim das contas. A condução das perguntas sobre a noite anterior, as publicações nas redes sociais, as câmeras de segurança… o vídeo apresentado mostra que Jamie Miller esfaqueou Katie Leonard em um estacionamento. Essa confirmação me deixa ainda mais intrigado com a série, porque é uma história aclamada contada em 4 horas que respondeu a essa dúvida na primeira… portanto, temos tanto ainda a explorar! Não sei dizer bem o que senti com as lágrimas de Jamie ao fim da entrevista/interrogatório depois da apresentação do vídeo, menos ainda com a reação do pai…

Mas há tanto ali! A maneira como o pai está em choque, porque perguntara para Jamie se ele era culpado e ele dissera que não, e agora é como se seu mundo todo desmoronasse… não posso nem imaginar o que se passa na cabeça de Eddie naquele momento. Quando Jamie estende a mão para tocar o braço do pai, ele inicialmente se esquiva, perguntando “o que ele fez”, mas eventualmente ele se volta para o filho de 13 anos e o abraça, enquanto Jamie repete, no meio das lágrimas, que “não fez nada de errado”. Ainda descobriremos detalhes desconhecidos dessa história ao longo dos próximos três episódios, e tenho certeza de que há muito a se saber e a se comentar ainda, mas esse primeiro episódio nos envolve, nos prende e nos choca. Com um episódio, já é uma série e tanto!

Curioso pelo restante!

 

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