Adolescência (Adolescence) – Episódio 3
É FANTÁSTICO
COMO CADA EPISÓDIO É ÚNICO, FORTE E IMPORTANTE. O terceiro episódio de “Adolescência” se passa muito tempo
depois dos primeiros… no primeiro episódio, vemos o dia em que Jamie Miller é
levado à delegacia por causa do assassinato de uma colega de escola e passa por
todo o início do processo de reclusão, até a conclusão na qual o vídeo que prova
a sua culpa nos é apresentado; no segundo, vemos os policiais indo até a escola
na qual ele estudava porque estão em busca da faca que foi utilizada no crime
e, quem sabe, do que o levou a cometê-lo; esse terceiro episódio se passa meses
depois, com Jamie detido em um lugar especial para adolescentes, recebendo a
última visita de uma psicóloga que foi enviada para escrever um relatório sobre
ele.
Gosto muito
de como “Adolescência” é uma série
rica – em temas e em técnicas. Como comentei em meu texto anterior, o episódio
anterior, que se passa na escola, me deixou muito fascinado pela quantidade de
pessoas, de movimento e de situações… esse aqui é, talvez, o oposto daquele, e
eu fiquei igualmente fascinado! Quase que inteiramente ambientado em uma mesma sala,
durante uma sessão da psicóloga com Jamie, o impacto desse episódio está no
texto e nas atuações magníficas de Owen Cooper como Jamie Miller e de Erin
Doherty como Briony Ariston. Um episódio de quase 52 minutos que é conduzido
essencialmente por dois personagens em um mesmo ambiente e, ainda assim, a
audiência fica concentrada, apreensiva e envolvida – essa série é ARTE.
Sempre foi
dito e repetido que Jamie é um garoto
inteligente. Briony não é a primeira psicóloga a visitá-lo, mas ela é quem
mais o intriga – porque ela não faz as perguntas óbvias e, por isso, ele não
entende o que está acontecendo… talvez, se pensarmos bem, as perguntas óbvias
foram antecipadas por ele: ele sabe como reagir a elas, como as responder; o
fato de ele não entender o que Briony quer com a maneira como conduz a conversa
deles o amedronta, porque ele não sabe o que está dizendo e que material está
dando para ela anotar em seu relatório, cujo conteúdo ele desconhece, como
deveria desconhecer. A sessão começa com uma conversa aparentemente amigável,
algumas risadas e a condução discreta de Briony em direção ao que ela busca…
Parte do
objetivo de Briony nessa sessão é entender como Jamie se sente em relação às
mulheres, quais são os modelos de masculinidade que ele tem e que moldaram os
conceitos dele e ela não quer simplesmente perguntar “O que é ser um homem para você, Jamie?”. Essa dança constante é
que define o episódio, com variações de humor de Jamie que são a marca de “Adolescência” – e de fato é assombroso
assistir à atuação desse garoto! A maneira como ele consegue dissimular algum
charme e simpatia sem deixar de apresentar pequenos tiques que exprimem o
quanto ele está se segurando, e como
ele parte disso para algo mais visivelmente incômodo, bravo ou furioso. Existem
rompantes de ira e violência que são seguidos de calma, ironia, talvez deboche.
E essa
transição de lá para cá é ainda mais assustadora que o inverso.
As reações
de Briony também são muito visíveis, e eu admiro o quanto elas podem ser lidas em seu rosto e em sua postura quando
ela está ali sem poder dizer nada.
Jamie se descontrola em dois momentos – no primeiro deles, quando ele se
levanta, joga o chocolate quente no chão e grita com ela, ela se levanta para
dar uma volta e “pegar um chá”; no segundo, ela permanece exatamente onde está,
em silêncio completo, e pede friamente que ele se sente novamente. Discretamente,
ela tem lágrimas para secar dos olhos, e Jamie ri dela por “ela estar com medo
de um pirralho de 13 anos”. No início da sessão, Briony ainda não tinha noção
do que ela escreveria sobre Jamie no relatório para o juiz… ao final dessa
sessão, ela já tem as suas conclusões formadas.
Briony
consegue tirar muita coisa de Jamie, na verdade… sem pudores e fazendo com que
ele pergunte algumas vezes se “ela pode fazer essas perguntas”, a psicóloga
pergunta sobre as experiências românticas e sexuais de Jamie, e embora ele
fique na defensiva em um primeiro momento, ele eventualmente começa a falar –
mentindo, inicialmente, depois remendando suas próprias mentiras e sendo mais
sincero do que talvez esperássemos que ele fosse… mais sincero do que ele mesmo
achou que poderia ser, e não entende por
que está dizendo aquilo tudo. Ele fala sobre como fotos de Katie e de uma
outra garota da sua escola circularam depois que elas mandaram nudes para um
garoto, e ele fala sobre a ter chamado para sair no momento em que “ela estava
mais fraca” porque “achava que ele tinha mais chances”.
Foi depois
disso que começaram as mensagens no Instagram… aquelas que foram interpretadas
de maneira equivocada inicialmente, mas que Adam ajudou o pai a entender
eventualmente. Briony sabe sobre os significados dos emojis colocados nas
mensagens, mas quer que Jamie fale sobre isso, quer que ele explique. Jamie já
tinha contado, em outras sessões, como ele e os amigos não eram populares e
sofriam bullying na escola, até com pessoas cuspindo neles das salas de aula
enquanto eles caminhavam no pátio. Todas as informações juntas permitem uma
visão inusitada de como Jamie se sente feio e como sente que nenhuma garota se
sentiria atraída por ele ou quereria sair com ele, e a história vai ganhando
novos contornos e novas camadas.
Nada muda o
fato de que Jamie matou Katie. Briony
fala sobre isso quando lembra, em um momento delicado, que “Katie está morta”. Mas “Adolescência”
não é uma série sobre “descobrir quem matou”, isso foi revelado no primeiro
episódio. “Adolescência” é uma série,
por mais óbvio que seja dizer isso, sobre a adolescência – sobre as relações
conflituosas, sobre os efeitos das atitudes de uma pessoa sobre outra, sobre
consequências. Jamie Miller é fruto de uma sociedade machista e de uma
misoginia presente no macro e no micro e, quiçá, especialmente no micro… naquelas atitudes que não são reconhecidas
como tal, como quando ele se sente muito melhor que os outros garotos por como
foi falar com a Katie e a chamar para sair quando ela estava frágil.
É a
crueldade, a irresponsabilidade e os perigos da adolescência.
“Adolescência” é dolorosa. Cada episódio
é um soco no estômago. Ao fim dessa sessão, que não sai em nada como o Jamie
planejou, Briony anuncia que esse é o último encontro deles, e você pode notar
o desespero instantâneo de Jamie quando ela diz isso: ele não quer que ela não
venha mais, e ele quer saber se ela ao menos gosta dele, porque existe nele
esse desejo por companhia, por compreensão… esse desejo de saber que ele não é
tão ruim assim e que alguém pode gostar dele. É quase perverso. Quando Jamie é
levado para fora da sala muito agitado, batendo em cada vidro da sala pelo qual
passa, Briony toma alguns segundos para respirar fundo e secar as lágrimas
antes de juntar os papeis sobre a mesa, pegar suas coisas e sair para fazer o
relatório.
Outro
episódio pesadíssimo e brilhante em todos os sentidos.
Que série
fascinante.
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