Corrida dos Bichos (2026)

Como acabar com o jogo?

Rio de Janeiro, 45 anos depois da GRANDE CATÁSTROFE que mudou drasticamente o cenário da cidade. É aqui que se passa “Corrida dos Bichos”, a distopia brasileira lançada no dia 07 de agosto de 2026 na Prime Video, com roteiro de Ernesto Solis e Rodrigo Lages e direção de Fernando Meirelles, Ernesto Solis e Rodrigo Pesavento. A premissa nos apresenta a uma espécie de evolução do Jogo do Bicho, no qual 20 corredores por temporada são soltos em uma cidade destruída para correrem pelas próprias vidas em um jogo no qual tudo é permitido – apenas dois vencedores conseguem levar para casa um prêmio milionário e recuperar a pessoa que deixaram como “seguro”.

Assim, o mundo se divide – de um lado, temos os BICHOS, que são pessoas pobres que vivem na miséria, costumam perder tudo em apostas e arriscam as próprias vidas e/ou as pessoas que amam ao se inscreverem na corrida, em busca da única esperança que conseguem vislumbrar; de outro, temos os JOGADORES, pessoas abastadas que se divertem “controlando” seus corredores como se tudo fosse um videogame, em um espetáculo brutal; e temos, ainda, um terceiro grupo, os CAÇADORES, que vivem dentro do perímetro onde o jogo é odiado, mas suas tentativas de acabar com o jogo ainda são tentativas sem um plano concreto a longo prazo que faça o fim do jogo parecer possível.

O filme consegue criar sua própria identidade e funcionamento em uma narrativa envolvente, cheia de cenas angustiantes, mas inevitavelmente pensamos em outras obras do gênero com as quais compartilha semelhanças. Há um quê de “Jogos Vorazes” na luta pela sobrevivência, na ideia de quebrar a máquina de dentro e na espetacularização da morte e da miséria, bem como algo de “Round 6” na crítica social ou na maneira como pessoas poderosas controlam tudo de fora para seu bel-prazer e divertimento. O cenário devastado e todo o espírito de distopia brasileira me fez pensar em “3%”, a primeira série brasileira feita pela Netflix, da qual eu gosto bastante.

Mano passou muito tempo sendo um dos Caçadores mais famosos, um dos líderes dentro do chamado Perímetro da Morte, convidado constantemente para se juntar à corrida por ser um “excelente entretenimento”, e se recusando até que não tenha escolha – quando sua irmã mais nova, Dalva, se oferece como seguro do namorado, que pretende começar a correr como a Águia, Mano resolve correr em seu lugar em um acordo com Abu, e agora vencer a Corrida dos Bichos é uma questão de salvar a vida da sua irmã. E, assim, ele é colocado em uma situação complicada na qual ele trai a si mesmo, é detestado pelos demais corredores pelo seu passado, e tratado como um traidor dentro do Perímetro…

Ele está quase sozinho.

Sua primeira corrida como o Gato é sangrenta e ele quase é desclassificado depois de um golpe do Touro, o corredor mais popular das últimas temporadas do jogo, mas ele consegue se manter na corrida contra todas as possibilidades atravessando o Perímetro com alguma ajuda. E, agora, ele precisa começar a confiar em Nadine, a sua Jogadora, porque é a única esperança que ele tem… e ela está determinada a vencer, por seus próprios motivos que vão sendo revelados aos poucos. Há uma disputa entre ela e Leon, seu marido e Jogador do Touro, mas também há o fato de ela já ter estado do outro lado e ter sido oferecida como seguro… foi assim que ela chegou ao outro lado e teve a “sorte” de não morrer.

O roteiro é amplo e repleto de possíveis discussões que fazem muito sentido e criam um universo com bastante a se explorar em produções futuras. O remédio caríssimo pago pela Jogadora ao Gato, por exemplo, é “feito de Perdidos” – seguros daqueles derrotados na Corrida dos Bichos são vendidos como escravos e acompanhantes à Cúpula, enquanto outros são enviados para locais em que se transformam em corpos para experimentos, para coleta de órgãos, etc. É todo um sistema perverso que perpetua as diferenças sociais e que só é possível através do controle do dinheiro e do poder por uma parcela pequena da população e a aceitação do espetáculo da morte.

É propositalmente cruel.

Conforme o Gato aprende a confiar em Nadine para ganhar a Corrida e salvar a vida da irmã, ele também se envolve com ela como nunca pensou que aconteceria, e mantém-se no jogo até a final, que é a corrida mais angustiante de todas. Em termos de ação, o filme nos entrega sequências de tirar o fôlego, que envolvem um parkour muito bem coreografado e toda a tensão exigida pelo roteiro. Percebi que, por mais que não acreditasse que Mano não fosse terminar em primeiro ou segundo lugar nessa final, eu estava apreensivo e prendendo a respiração durante toda a reta final, conforme ele se aproxima da linha de chegada e precisa vencer o Touro de uma vez por todas.

O elenco do filme é encabeçado por Matheus Abreu, excelente no papel de Mano/Gato. Temos, ainda, nomes como Rodrigo Santoro como Abu, um bicheiro que se acha poderoso; Isis Valverde como Nadine, a Jogadora do Gato; Bruno Gagliasso, quase integrante da Cúpula, Jogador do Touro e vencedor das duas últimas temporadas; Silvero Pereira como Sinatra, que assume a liderança do Perímetro depois da debandada de Mano e muda a maneira como as coisas são feitas; Grazi Massafera como Micaela, a esposa preferida de Abu; Seu Jorge como Baco, pai de Mano e Dalva, que perdeu tudo no jogo, inclusive a própria esposa; e Anitta como Divina, a apresentadora da Corrida dos Bichos.

Com a vitória do Gato na Temporada 147 da Corrida dos Bichos, o retorno de Dalva para casa e a determinação de Nadine de que a única maneira de acabar com o jogo é desde dentro, o encerramento do filme é claramente o fechamento de um ato, mas não a conclusão da história. Os responsáveis por “Corrida dos Bichos” já demonstraram interesse em transformar a obra em uma trilogia, e isso acaba ficando evidente em muitos detalhes do filme, desde a apresentação de personagens subutilizados, mas com potencial de desempenhar papeis maiores em outros capítulos da história, até a conclusão sem o fim do jogo, porque essa é uma batalha maior ainda a ser empreendida…

Com novas estratégias.

Particularmente, eu quero ver mais!

 

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