Vale o Piloto? – Carrie 1x01 – First Period
“It wasn’t just Carrie”
EU ACHEI ESSA
ESTREIA MARAVILHOSA! É interessante como um autor com tantos sucessos como
Stephen King ainda tenha, como uma de suas obras mais populares, o seu livro de
estreia. “Carrie”, que no Brasil se
tornou “Carrie, a Estranha”, foi
publicado pela primeira vez em 1974 e ganhou algumas adaptações para o cinema
ao longo dos anos. Agora, uma nova adaptação chega em formato de série,
desenvolvida por Mike Flanagan e com Stephen King como um dos produtores
executivos do projeto. A primeira temporada, com oito episódios, foi lançada na
íntegra na Prime Video no dia 07 de outubro de 2026, com Summer H. Howell dando
vida a Carietta/Carrie White.
Ainda temos
muito a explorar, ainda temos que ver como será a abordagem da trama, mas temos
uma estreia acertadíssima com um tom que gera alguma tensão e desconforto, além
do claro tom de mistério que conecta o que estamos vendo agora ao que veremos
depois… já temos uma ideia da destruição cujo epicentro foi o ginásio da escola
no dia da formatura, já vemos o fogo em um cenário devastado e a notícia de 200
mortes, enquanto a polícia colhe depoimentos para tentar entender o que aconteceu – o que levou àquele momento? E,
ali, ouvimos declarações como as de Sue Snell, uma amiga, de Nancy Piper, a
assistente social, e Stella Horan, a vizinha.
Gosto muito
do tom escolhido para o episódio, e gosto de como os depoimentos se tornam
parte da narrativa e como serve como intervenções que nos ajudam a entender a
história. Sinto que, nesse primeiro episódio, são esses três depoimentos
mencionados que conduzem a narrativa: Sue Snell nos ajuda a entender e nos leva
aos primeiros dias de Carrie na Escola Ewen, ao mesmo tempo em que dá dicas
sobre os últimos dias de Carrie na escola.
Nancy Piper, por outro lado, nos revela a realidade na qual Carrie vivia antes de ir para a escola, o que explica
muita coisa. E Stella Horan nos entrega uma das sequências mais bonitas do
episódio, em um dos raros momentos em que Carrie esteve fora de casa.
Carrie
passou aproximadamente 15 anos de sua vida sem
sair de casa. Com uma mãe mais do que superprotetora – uma fanática
religiosa –, ela foi ensinada em casa e não conhece nada sobre o mundo lá fora…
ela nunca usou um computador ou um celular, não sabe viver em sociedade, nunca
teve amigos. Depois da morte do pai, Carrie e a mãe são encontradas por
assistentes sociais escondidas em casa, e agora elas são reinseridas na
sociedade: a mãe de Carrie precisará trabalhar e Carrie precisa ir para a
escola. Ela não está socialmente preparada
para isso. Ela não sabe como se comportar, não sabe como se vestir, não sabe
interagir com outras pessoas da sua idade…
Ela não
conhece o mundo lá fora. E nada sobre ele.
Suas
experiências na escola tendem a ser traumáticas… o primeiro dia não é fácil.
Ela achou que as pessoas conheceriam os livros que ela conhece e que isso lhe
daria algo sobre o que conversar, mas não. E ela tampouco entende bem a maneira
como as pessoas olham para ela, como a julgam com o olhar. Mas o mais difícil
de tudo é um protocolo de segurança no fim da aula: enquanto os demais alunos
tratam com naturalidade a coisa do treinamento do que fazer caso a escola seja
invadida por uma pessoa armada, Carrie não consegue entender o que está acontecendo,
não entende que é tudo “mentira”, e o seu desespero real é angustiante de se
ver…
E, então,
coisas acontecem… o chão treme, as luzes
piscam, uma televisão cai.
Coisas que
já aconteceram antes. Há muitos anos, quando a cerca viva que separava a casa
dos White das demais ainda era mais baixa, Carrie conheceu a sua vizinha,
Stella, enquanto ela lia um livro – e Carrie não conhecia nenhum livro que não
fosse a Bíblia. Naquele dia, ao ser descoberta pela mãe, Carrie foi arrastada
de volta para casa enquanto a mãe gritava com ela e a proibia de falar com a
vizinha, anunciando que a trancaria no “armário de orações” ou qualquer coisa
assim. Pouco depois de a garota ser levada para dentro, choveu pedras sobre a sua casa… pedras grandes e que se limitaram apenas
à sua casa. Depois disso, Stella pouco a viu…
Mas ela
deixava livros para ela em sua caixa do correio.
Foi assim
que Carrie conheceu o pouco que sabe do mundo exterior. Foi assim que Carrie
começou a ler obras como “Anne de Green
Gables”. Mas o que ela não sabe ainda é sufocante. E o problema é a sua
mãe. O fanatismo religioso é uma das coisas mais
assustadoras que conhecemos, e todas as cenas de Margaret White causam um
desconforto gigantesco – inclusive a cena do segundo dia de aula, quando ela vai até a escola para conversar com
o diretor sobre o treinamento do dia anterior e para dizer que a filha não
participaria mais de nenhum, porque ela o considera um absurdo. Foi a mãe quem
a tornou reclusa, quem não ensinou o básico, quem quer que elas voltem a viver
trancadas.
O segundo
dia é deveras traumatizante. Carrie acredita estar mais preparada: ela fez uma
roupa nova para si, que ainda tem o seu estilo, mas não é um vestido que destoa
da roupa de todas as outras pessoas,
mas quando ela menstrua pela primeira vez sem entender o que está acontecendo,
as coisas ficam terríveis… o bullying
enfrentado por ela no vestiário depois da aula de Educação Física não é
necessariamente pela menstruação em si, mas pelo desconhecimento dela, pelo
desespero de achar que “ela está morrendo” porque não entende “por que está
sangrando”, e Christine Hargensen também possivelmente descarrega nela um tanto
de suas frustrações…
E, quiçá, ciúmes de Sue?
A cena toda
da primeira menstruação é humilhante. A maneira como Carrie acaba de roupa e
tudo sob o chuveiro, como Chris lidera um grupo de garotas maldosas
arremessando absorventes nela, como Sue fica estática meio horrorizada, mas
também sem fazer nada para ajudar… Carrie não estava preparada para esse mundo,
e esse mundo não estava preparado para Carrie. Seu grito faz lâmpadas
explodirem e alguém, em uma mansão distante, sentir a sua presença e a sua força.
Em paralelo, assistimos a mais um trecho do depoimento de Sue depois do evento
do ginásio, no qual ela diz que eles
estão fazendo as perguntas erradas… não era só a Carrie.
Ótima
estreia!
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