Hairspray: Em Busca da Fama (Hairspray, 2007)
“You can’t
stop the beat!”
“Hairspray” é uma EXPERIÊNCIA
FASCINANTE. Eu tenho uma relação muito íntima com essa obra porque é o primeiro
musical que eu vi no cinema, em 2007, bem como o primeiro musical que eu
assisti ao vivo no teatro, em 2010, então qualquer comentário meu sobre
qualquer versão de “Hairspray” será
sempre bastante emotiva… reassisti ao filme de 2007 recentemente e posso dizer
que ele é UM ESPETÁCULO. Ele corta algumas músicas queridas e faz pequenas
alterações e adaptações na história, é verdade, mas também apresenta mudanças
bem-vindas e mantém o seu objetivo, o seu carisma tremendo e o seu espírito, em
uma obra que transborda cor e música de maneira que é mais do que competente: é mágica. “Hairspray” envolve, diverte e emociona.
A história
de Tracy Turnblad, a garota acima do peso que queria dançar no The Corny
Collins Show, foi contada pela primeira vez em um filme escrito e dirigido por
John Waters em 1988, e ela foi adaptada para um grande musical da Broadway em
2002, o que fez com que a história explodisse e popularidade… um musical
colorido, extravagante e que mesclava humor e crítica social, e que ganhou 8
Tony Aways no ano seguinte à sua estreia, incluindo o de Melhor Musical. “Hairspray” ficou em cartaz na Broadway
até 2009, contando com mais de 2.500 apresentações, e foi adaptado para a TV em
“Hairspray! Live” em 2016. No Brasil,
o musical contou com duas montagens: a primeira entre 2009 e 2010; a segunda,
mais recente, uma produção lindíssima de 2024.
Tive o
prazer de assistir a ambas ao vivo.
Com o
sucesso do musical da Broadway, “Hairspray”
ganhou uma adaptação que chegou aos cinemas em 2007, trazendo Nikki Blonsky
como a adorável Tracy Turnblad, e John Travolta como sua mãe, Edna Turnblad, o
que foi na época muito comentado por ser o retorno do ator aos musicais, depois
dos sucessos de “Os Embalos de Sábado à
Noite” e “Grease”. O elenco ainda
conta com James Marsden como o Corny Collins, Queen Latifah como Motormouth
Maybelle, Michelle Pfeiffer como Velma Von Tussle, Christopher Walken como
Wilbur, Zac Efron como o charmoso Link Larkin, Amanda Bynes como Penny, a
melhor amiga de Tracy, Elijah Kelley como Seaweed J. Stubbs, Brittany Snow como
a maldosa e ambiciosa Amber e Taylor Parks como a Pequena Inez.
A história
se passa na Baltimore de 1962, em um cenário de segregação no qual mudanças não
são bem vistas. Tracy Turnblad é uma adolescente que sonha em dançar no
programa mais badalado da TV local, o Corny Collins Show, embora muitas pessoas
lhe digam que ela nunca vai conseguir por causa do seu peso… quando ela
conquista o coração do dançarino principal do programa e do apresentador e tem
a chance de mostrar seu talento, ela se torna a mais nova integrante do elenco,
cuja popularidade crescente ameaça decisões que parecem cimentadas. Ela chama a
atenção quando é entrevistada ao vivo pelo Corny Collins pela primeira vez e
fala sobre “ser presidente” e, quando perguntada sobre qual seria sua primeira
decisão, ela diz que “faria todo dia ser Dia do Negro”.
Isso porque
o Corny Collins Show, não por decisão do Corny, mas do canal, tem um dia por
mês chamado de “Dia do Negro”, apresentado por Motormouth Maybelle, que é o
único dia que permite que pessoas negras dancem, porque “pessoas brancas e
negras nunca dançaram juntas na TV”. A gratidão imensa que Tracy tem por
Seaweed, o filho de Maybelle, por a ter ajudado a entrar no programa se
transforma em amizade, e ela não entende por
que eles não podem dançar todos juntos… como eles fazem na detenção! E é
assim que Tracy usa a sua popularidade e o fato de ela também ser “uma
dançarina inesperada na TV” para levantar sua voz contra a segregação… é dela a
ideia de uma passeata quando Velma cancela o “Dia do Negro”, por exemplo.
Mesmo que
isso possa lhe custar sua carreira…
Não tem sentido dançar na TV se não for com
seus amigos. Todos eles.
Eu gosto de
como o filme é um grito contra o preconceito. O próprio fato de Tracy chegar
aonde quer e se tornar tão querida pelo público é maravilhoso – eu adoro a cena
das pessoas do lado de fora da detenção balançando seus bilhetes para entrar,
apenas para vê-la, ou da loja do seu pai vendendo um monte de produtos relacionados
a ela, ou as meninas da emissora e da cidade toda usando perucas que imitam o
seu cabelo com uma quantidade exagerada de laquê –, e toda a discussão contra a
segregação é um tema forte do filme, que Queen Latifah abraça com unhas e
dentes, nos entregando momentos intensos como o da própria passeata, assumindo
o protagonismo que é SEU. Chega um momento no qual precisamos “meter o pé na
porta”, nem que seja “um dedo de cada vez”.
No meio
disso tudo, temos Link Larkin… colocar o Zac Efron nesse papel era a escolha
óbvia naquela época, com o sucesso de “High
School Musical”: Zac Efron era o crush
de muita gente, assim como Link Larkin é o crush
de Tracy e, basicamente, de todo mundo! Embora esteja namorando Amber Von
Tussle, Link vai se aproximando de Tracy Turnblad, que sempre sonhou em ter a
atenção do galã da TV toda para si… o galã da TV que curiosamente também é seu
colega de escola! Os dois passam por algumas coisas juntos, mas Link Larkin é
marcado pelo medo e pela covardia que contrastam com a força e a coragem de
Tracy: enquanto ela não teme colocar sua carreira em risco pelo que é certo,
ele pensa nos olheiros que virão vê-lo no dia do concurso…
É isso o que
os afasta antes que eles se aproximem novamente e ele tenha uma atitude
importante no dia do Concurso Miss Hairspray 1962, que é a sua chance de
redenção no filme, que vem tardiamente já que ele não precisa ajudar a Tracy a escapar da prisão como
acontece no musical de palco. A dicotomia de Tracy e Link é uma das forças
de “Hairspray” para mim, porque ele
não é o típico herói. Na verdade, ele é um rostinho bonito que gera um quê de
decepção na protagonista que, por sua vez, não deixa de fazer o que quer e tem
que ser feito por causa do garoto de quem gosta. Conseguimos torcer pelo
romance, com a ajuda de algumas músicas que fazem com que tudo funciona, mas
sem que isso seja o mais importante da
história…
Musicalmente
e em se tratando de um musical, “Hairspray”
é um show. O filme tem números marcantes como “Good Morning Baltimore” em sua abertura e brinca com esse estilo
dos anos 1960 para compor algo alegre e dançante que permanece tocando em nossa
mente mesmo depois do filme. Ganhamos
números como a fofa “I Can Hear the
Bells”, na qual Nikki brilha; “Welcome
to the 60’s”, que é um dos grandes momentos do musical e é uma explosão
gostosa de cor; “Run and Tell That”,
que tem uma força dançante e crítica; “Without
Love”, que é a minha balada favorita na trilha sonora; a emocionante “I Know Where I’ve Been”, que
transcende o filme; e, é claro, a conclusão épica com “You Can’t Stop the Beat”, com tantas camadas.
Menciono
brevemente algumas diferenças entre a adaptação cinematográfica e o musical de
palco, mas talvez a mais notável seja o fato de que, nessa versão, Tracy
Turnblad não vai presa como nas versões de 1988 e de 2002 – o que nos tira uma
boa parte de “Without Love”, uma
reprise de “Good Morning Baltimore”
e “The Big Dollhouse”. Link Larkin
tem um grande momento com “Ladies’
Choice”, música original escrita para o filme, em substituição à Madison,
cujo instrumental é reaproveitado eventualmente, e “It Takes Two” se torna apenas uma menção breve. A adição de Tracy
ao elenco do Corny Collins Show nos traz “The
New Girl in Town”, música que não faz parte da versão final do musical na
Broadway, mas que esteve na versão pré-Broadway da obra.
Em termos de
adaptações e mudanças nas músicas, menciono o que eu menos gosto e o que eu
mais gosto dentre todas – o que eu menos gosto é a retirada de “Mama, I’m a Big Girl Now”, que é uma
das minhas músicas favoritas, embora ela chegue a ser gravada como faixa bônus
da trilha sonora e faça parte dos créditos do filme, na voz de três Tracys:
Ricki Lake, do filme de 1988, Marissa Jaret Winokur, do musical de 2002, e
Nikki Blonski, do filme de 2007; já o que mais gosto é a realocação de “I Know Where I’ve Been”, que se torna
a música da passeata e do protesto no lugar de “Big, Blonde and Beautiful”, e ela é uma música muito mais emotiva,
impactante e significativa para esse momento, transformando a passeata num dos
pontos altos do filme.
Por fim,
gostaria de dedicar um parágrafo a “You
Can’t Stop the Beat”, provavelmente a
música mais importante de “Hairspray”. Eu gosto de como ela é uma grande
CELEBRAÇÃO, mas, além de um número de fechamento do musical, é também uma
música essencial para o desenrolar da trama, que conta com o retorno de Tracy
Turnblad ao Corny Collins Show, a dança da Pequena Inez que a tornará elegível
a Miss Hairspray e, posteriormente, a vencedora (uma adaptação bem-vinda), a
rebelião de Penny, que assume o romance com Seaweed, o clamor por liberdade de
Edna, que arrasa naquele palco, a exposição de Velma Von Tussle e suas trapaças,
o anúncio de Corny Collins de que o programa agora será integrado e as palavras
finais de Motormouth Maybelle…
Tudo com
muita cor, música, dança… e pitadas de deboche.
O que, na
verdade, resume muito bem o filme…
UMA OBRA E
TANTO!
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