Chiquititas Brasil (2ª Temporada, 1998) – A escola versus o futebol

Carmem declara guerra à Carolina.

Não tem sido nem um pouco fácil para a Carolina… o maior desafio de um adulto responsável por crianças – sejam pais em casa, professores em uma escola, diretoras em um orfanato ou em qualquer situação – é lidar com a incapacidade que eles têm de entender que, quando não fazemos o que eles querem e como eles querem, geralmente é para o bem deles. Sabe uma mãe que impede a criança de pular de um lugar alto achando que vai voar para que ela não se machuque, mas essa mesma criança fica brava com a mãe por não deixá-la tentar? É mais ou menos o que está acontecendo em “Chiquititas”, quando o começo do próximo ano letivo se aproxima e Carolina tenta fazer com que os meninos se dediquem aos estudos, mas não é ouvida…

Mosca, Rafa, Binho e Thiago são apaixonados por futebol… como muitos garotos de sua idade – eu nunca tive essa fase, mas sei que é a paixão de muitos garotos. Sua dedicação exclusiva ao futebol, no entanto, coloca em risco o seu futuro acadêmico, cuja importância eles negligenciam por a desconhecerem, e agora eles estão entrando em uma fase rebelde que está sendo sistematicamente incentivada por Carmem, que quer utilizar a paixão dos meninos por futebol para colocá-los contra a Carolina. Eu, como adulto racional, estou inteiramente do lado da Carolina, até porque ela precisa, eventualmente, apelar para uma radicalidade que não era necessária e que ela descartou inicialmente, mas ela foi encurralada de uma maneira que não havia outra alternativa.

A primeira tentativa de Carolina não envolvia proibir o futebol. Ela queria que os meninos se organizassem e se dedicassem a um exame importante antes do início das aulas, para que pudessem se dedicar ao futebol mais tarde… eles perdem mais tempo tentando contornar as ordens da Carolina do que perderiam de fato estudando para o importante exame, e eles tiveram oportunidade de estudar… mas eles não quiseram. Vivi foi colocada para ser professora dos meninos até o dia do exame, e eles tentaram várias técnicas diferentes de cola, com uma discrição inexistente, e eventualmente conseguiram a inesperada ajuda da Dona Carmem e de Ernestina, que compraram walkie-talkies e fones de ouvido para que eles pudessem se comunicar durante a prova…

O plano de Carmem é simples: ela quer conquistar os garotos, fazer com que a Carolina pareça a vilã da história e, de quebra, que ela pareça irresponsável, e que forma melhor de fazer isso sendo a grande incentivadora do futebol? Ela fala sobre transformá-los em um time profissional, vende um monte de histórias e possibilidades, os leva à rádio para darem entrevista… impressionáveis e sem noção de responsabilidade, os meninos compram essa ideia facinho, e se voltam contra a Carolina de uma maneira que vai ficando cada vez mais difícil de se assistir. Eu, particularmente, fico com raiva. A cara-de-pau que o Mosca tem de responder à Carolina dizendo que ela devia tê-los como exemplo e, assim, “quem sabe ela passasse no seu próximo exame” é enervante.

Por isso é tão difícil trabalhar com criança!

Não demora muito para que a mentira dos meninos seja descoberta… embora todos estivessem usando fones de ouvido nem um pouco discretos – quer dizer, estamos em 1998, afinal de contas! –, apenas o Thiago foi flagrado pela diretora que aplicava a prova e, por isso, mentiu que ele tinha um problema de audição e aquele era o seu aparelhinho… ele achou que se safaria com essa história, mas a diretora vai pessoalmente ao Orfanato Raio de Luz eventualmente para conversar com a Carolina sobre o problema auditivo de um dos garotos, e Carolina garante que nenhum deles usa aparelho. Daí, não é difícil matar a charada do que de fato aconteceu, mas Carolina ainda tem a confissão de “Ernestina”/Matilde, que pede desculpas e diz que foi obrigada pela Carmem…

Carmem não se importa com nada: ela está satisfeita em ter os meninos ao seu lado e canta vitória dizendo que o reinado de Carolina naquele orfanato está prestes a chegar ao fim. E, no que depender dos garotos, está mesmo. Thiago até se sente um pouco mais culpado por como eles têm tratado a Carol, mas os outros três estão determinados a tratá-la como a vilã perversa que quer proibi-los de jogar futebol – porque, sem qualquer outra alternativa, é o que a Carolina faz: o futebol está suspenso no orfanato por tempo indeterminado. Ela está com a razão: a prioridade é a escola, e antes ninguém dissera que eles não poderiam jogar futebol… é só uma questão de equilíbrio. Carmem, no entanto, garante aos meninos que nada vai mudar e que Carolina não vai “fazer o que bem entende”.

Então, a guerra está declarada.

Difícil.

 

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