Verity (2026)

A verdade existe?

Baseado no livro de sucesso de Colleen Hoover de 2018, com roteiro de Nick Antosca e direção de Michael Showalter, “Verity” é um thriller psicológico interessantíssimo que me deixou tenso e atento do início ao fim… e, depois de deixar a sala de cinema, ainda tenho informações martelando dentro da minha cabeça enquanto tento decidir o que era e o que não era verdade. Verity Crawford é uma escritora com uma série de sucesso na qual cada livro é baseado em uma virtude, e toda a trama do filme se aproxima de suas histórias fictícias e do conceito, com a VERDADE sendo a mais difícil de desvirtuar: até onde se pode convencer alguém de algo antes de fazer com que se questione tudo?

Com um quê de erotismo e um suspense delicioso, o filme é envolvente. Anne Hathaway dá vida a Verity Crawford, a popular escritora que ficou catatônica após um acidente de carro e, portanto, não pode terminar a sua série de livros. Dakota Johnson, por sua vez, dá vida a Lowen Ashleigh, uma escritora menos popular, mas igualmente talentosa, que é contratada pela editora para finalizar a série de Verity em seu lugar, e para isso ela precisa passar uns dias na sua casa, lendo suas anotações e rascunhos, colocando tudo em ordem. Por fim, temos Josh Hartnett interpretando Jeremy Crawford, o marido de Verity que perdeu uma filha em um acidente e a mulher em outro.

Gosto da sensação de mistério. Gosto de como o filme não me deixava acreditar plenamente em nenhum personagem, o tempo todo esperando uma reviravolta. Essa característica ajudou-me a ficar muito fixado na história e, como eu não tinha lido o livro, criando uma série de teorias na minha cabeça – as oportunidades eram infinitas. Há um quê de deslumbramento na vida e no marido que parecem perfeitos, bem como aquele pesar inerente à morte recente e algo de crueldade na condição atual de Verity, escondida da mídia porque “seus fãs não podem saber de seu estado”. Lowen se torna parte desse cenário enquanto tenta entrar na mente da grande Verity Crawford.

E é aí que o filme fica ainda mais interessante. Os livros de Verity são escritos do ponto de vista dos vilões – de maneira perversa e que chama a atenção. Enquanto investiga as anotações de Verity em seu escritório para poder concluir a série com os próximos três livros encomendados pela editora, Lowen se depara com um pen-drive que traz uma suposta autobiografia, e a promessa da verdade: gosto da ideia de que uma autobiografia que tenta te fazer entender e simpatizar com o autor não pode ser uma escrita sincera. Aqui, Verity relata o início do seu envolvimento com Jeremy, a primeira noite em uma limusine alheia, o sexo gostoso e as propostas feitas durante o sexo…

Até que chegue a escuridão.

Tudo se transforma no momento em que Verity fica grávida. Perceber que Jeremy amar mais às crianças em sua barriga do que a ela faz com que Verity deseje nunca ter ficado grávida. Ela odeia as crianças por quem Jeremy “tem um amor incondicional”, odeia ter que dividir a atenção do marido com elas, odeia perceber que sua vida mudou para sempre e que ela está em segundo plano. Então, as passagens que mais chocam e angustiam Lowen vêm à tona: a maneira como ela deixa as crianças, Harper e Crew, chorarem o dia todo enquanto ela desliga a babá eletrônica e dorme tranquilamente, ou como sufoca Harper com um travesseiro, ou como os ressente porque Jeremy não transa mais com ela…

É nesse contexto que vem o “acidente” que tirou a vida de Harper, sobre o qual Lowen ficou sabendo no primeiro dia, quando conheceu Jeremy sem que um soubesse quem o outro era, e sobre o qual pesquisou mais tarde… foi um acidente de canoa no lago do lado de fora da casa – fácil de fazer parecer um acidente, mas também fácil de ser premeditado. Sem coletes salva-vidas, Verity saiu com as crianças para um passeio de canoa no lago e, então, propositalmente virou a canoa para que os filhos morressem afogados. Apenas Harper morreu, e isso não “corrigiu” a sua vida, porque “Jeremy virou um bebê chorão e um chato” depois da morte da filha.

Então, ela cogita acabar com a própria vida e jogar o carro contra uma árvore.

Os efeitos de todas essas páginas escritas por Verity sobre Lowen são curiosas… e incertas. Há um quê de horror, incredulidade e revolta que a fazem correr para o banheiro e vomitar em passagens mais absurdas, mas há também um desejo irracional de ser a Verity, de alguma maneira. Ela está assumindo a sua série de livros, está dormindo no seu quarto, escolhe conscientemente o vestido que Verity usou na primeira noite com Jeremy quando ele a convida para sair para jantar para celebrar seu aniversário e ela morde a cabeceira da cama durante o sexo, tal qual Verity fizera – a descrição nas primeiras páginas de seu manuscrito e a marca dos dentes ainda na cabeceira.

Ainda que não seja necessariamente o melhor recurso, o filme se aproveita de jump scares em momentos específicos, como quando Verity parece olhar diretamente para ela do lado de fora da casa ou quando Verity aparece na cozinha enquanto Lowen e Jeremy se beijam pela primeira vez… quando Lowen tenta arrancar de Crew alguma coisa sobre o acidente da canoa e o garoto diz que “a mãe pediu que ele não dissesse nada se a Lowen perguntasse sobre ela”, ela percebe que Verity está apenas fingindo estar catatônica. A virada não é totalmente surpreendente, mas é muito bem executada… e é, talvez, a concretização dessa ideia de que, no fundo, Lowen “quer ser a Verity”.

Ela fala sobre “tirar tudo dela”: sua casa, seu filho, seu marido, seus livros, seus fãs…

Talvez ela estivesse apenas tentando arrancar uma reação. Mas eu não acho que seja “apenas” isso. As coisas mudam quando Lowen mostra a Jeremy o manuscrito com a confissão de Verity sobre como ela matou a Harper e sempre odiou os filhos, e então ele confronta a esposa supostamente catatônica, e o momento em que Verity se vira para ele, pede por favor e diz que “pode explicar” deve ser o meu favorito do filme. Então, Jeremy mata Verity em um acesso de ódio – e ele o faz não apenas com a anuência de Lowen, mas com a sua ajuda… ela o ajuda a matar e a ocultar o corpo de uma maneira que ele não vá ser culpado por isso… de uma maneira que vá parecer um acidente.

Há uma última reviravolta, sete meses depois, que engrandece muito o filme a meu ver, e que é o que faz com que a história permaneça conosco. Lowen de fato ficou com tudo que prometera ficar: ela e Jeremy estão em um relacionamento, ela está grávida, Crew gosta dela, o novo livro da série está para ser publicado… mas quando eles estão esvaziando a casa, Lowen descobre uma carta de Verity escrita à mão que pode mudar tudo no que ela acreditara ao ler o manuscrito do pen-drive. Talvez o que estava escrito lá fosse um exercício de fuga, feito para que ninguém mais lesse, mas Jeremy o lera e acreditara nele, e por isso tentara a matar usando a ideia das últimas linhas…

Verity escrevera a própria morte?

A grande sacada do filme é justamente essa. É essa subversão da verdade. Ao lado de Lowen, acreditamos piamente nas palavras escritas por Verity sobre o assassinato de Harper, mas a carta final altera o cenário tornando uma outra narrativa plenamente possível: ela se encaixa e faz sentido tanto quanto o manuscrito e Verity deixa de ser a vilã. E terminamos com a mesma dúvida de Lowen: em quem acreditar? No manuscrito? Na carta? No Jeremy? Felizmente, não precisamos viver com a culpa e a dúvida que Lowen carregará consigo para sempre: se a carta de Verity Crawford é a versão verdadeira de sua história, Lowen a julgara a partir do manuscrito e ajudara Jeremy a matá-la.

Quanto mais eu penso, menos certezas eu tenho, mas gosto das possibilidades e dos argumentos… e há um quê de paradoxo na pergunta primordial de ser ou não verdade o manuscrito da “autobiografia” de Verity: ela conseguiria escrever com tantos detalhes e de maneira tão convincente porque ela é uma boa escritora famosa por escrever do ponto de vista de vilões cruéis ou ela consegue escrever tão bem do ponto de vista desses vilões justamente porque ela mesma tem uma mente perturbada capaz de odiar os próprios filhos de maneira tão profunda a ponto de planejar o seu assassinato? O que veio primeiro? Seus próprios instintos ou sua escrita?

Em parte, fico inclinado a acreditar nas palavras do manuscrito, até porque os primeiros capítulos são “verdade”, sobre como Verity conheceu Jeremy, então por que ela começaria dizendo a verdade e iniciaria um exercício apenas depois? Logo em seguida eu me lembro, no entanto, que a única indicação de que aqueles capítulos são verdade vêm de uma fala do próprio Jeremy quando Lowen lhe pergunta sobre como eles se conheceram, e se o que for verdade for a carta encontrada depois, Jeremy lera o manuscrito e, portanto, pode ter se apropriado daquela história do bar e da limusine, sendo ela verdade ou não. E caímos novamente na ideia de que não há como saber.

Não há verdade absoluta.

Se o manuscrito é mentira, ela estaria em condições de escrever coisas tão nojentas e perversas sobre a filha que acabou de perder, ainda que como um exercício? Mas, se o manuscrito é verdade, ela teria coragem de escrever aquelas palavras mesmo sabendo que podia ser pega e acusada de assassinato? E a carta descoberta sete meses depois parte do pressuposto que Jeremy leu o manuscrito e acreditou nele, por isso se voltou contra ela e tentou matá-la, mas o filme insistiu, em vários momentos, que Jeremy não lia seus manuscritos desde o do primeiro livro, então por que ele teria lido esse? Nesse sentido, parece falha a concepção da carta que a inocenta e, portanto, mentirosa.

Não há uma resposta definitiva. E não é para ter.

E isso é parte do motivo pelo qual eu gostei tanto do filme!

 

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