Primeiro Portão – A Chave de Cobre



Jogador Número 1 é dividido em três partes, e antes de ler eu não entendi o porquê. Quando comecei a ler e me aproximei do fim da primeira parte, parecia ter entendido o motivo, mas só depois que você lê a segunda parte inteira é que você percebe a grandiosidade da divisão que Ernest Cline fez em seu livro. Ele não divide só por tema e como organização do livro (o que também é um dos objetivos), mas ele divide por estilo de narrativa… o livro muda bastante entre uma parte e outra, e é delicioso ler essa mudança!
Como Jogador Número 1 fala sobre o Concurso criado por James Halliday, explicado no capítulo 0, inicial e fora dessas divisões [ótimo, ótimo, ótimo capítulo por sinal], a Primeira Parte do livro se preocupa em nos estabelecer bem nesse mundo. Então se o criador do OASIS, o maior videogame do mundo e onde a humanidade parece confinada no ano de 2044, morreu e escondeu um Easter Egg que representaria um prêmio muito grande para quem o encontrasse, precisamos entender muito bem esses conceitos.
Você precisa ter um conhecimento prévio de videogames em geral e cultura pop dos anos 1980 para entender isso com clareza. Mas o conceito de easter egg é explicado e muito bem exemplificado pelo jogo Adventure – eu não conhecia a história, e fiquei fascinado por Warren Robinett, seu criador. O jogo foi criado em 1979, desenvolvido pela Atari, e é o jogo com o primeiro easter egg de que se tem notícia, ou seja, algo escondido dentro de um videogame, por exemplo, considerado um “segredo virtual”. Nesse caso, em uma tela do jogo encontra-se um pixel cinza que levado a determinada sala é usada para abri-la e revelar o nome do criador do jogo, uma vez que a Atari não colocava o nome do criador na interface de iniciação, naquela época.
Ok, me empolguei.
Mas é esse mesmo o clima que temos lendo Jogador Número 1. O autor se empolga, Parzival se empolga e nós nos empolgamos junto! Então mesmo não sendo teórico e sim repleto de referências evidentes, mas que requerem conhecimento prévio para serem entendidas, às vezes Ernest Cline nos presenteia com histórias como essas, e todas elas verídicas. 2112 eu só conheci por causa do livro, e eu me pergunto como eu não conhecia isso antes? O livro é um achado, certamente. E devo tudo a um aluno meu! Valeu, Guilherme!
Ok, entendido o conceito de easter egg, precisamos avaliar o OASIS como um mundo virtual em que toda a humanidade está conectada. E o OASIS é tão cheio de mundos e mais mundos, com todo o tipo de homenagem possível, que Halliday podia ter escondido o seu easter egg em qualquer lugar. Por isso os enigmas começam e o segredo das três chaves e dos três portões. Cada um com uma referência mor extremamente bem bolada e inteligente! AMEI O LIVRO, já disse isso?
Então a primeira parte do livro nos deixa bem por dentro de tudo isso. Conhecemos um tanto do OASIS, como ele funciona, e como é a humanidade naquele futuro de Cline – imagino um bando de pessoas que não saem de casa e ruas bem mortas, sem cores e um deserto quase apocalíptico… afinal nada no mundo real parece ter importância e não faz sentido ficar fazendo dele um lugar bonito, se o tempo todos eles estão conectados às suas contas no OASIS. E também conhecemos bem o Concurso, e temos uma idéia de como ele funcionará, mesmo que sejamos constantemente surpreendidos. Mas é bom conhecer Wade Watts [Parzival, como é chamado dentro do OASIS] e sua obsessão (compartilhada por todos os caça-ovos) pelo Almanaque de Anorak, e consequentemente tudo o que ele representava, e nós começamos a partilhar dessa obsessão bem depressa…
Como um todo, é um livro bem linear, talvez com nenhuma subtrama, mas com uma trama central tão bem bolada que não precisamos de mais. Antes isso do que o autor se perder em seus mundos, obsessões e referências. E a primeira parte do livro é bem mais positiva, mostra o lado bom das coisas, e dá aquela vontade de viver no 2044 com acesso ao OASIS. Tem todo um sentimento de alegria, de atingir o impossível… conhecemos Wade Watts, queremos estar junto dele e vê-lo desvendar… torcemos por ele, corremos com ele, sentimos suas emoções.
É a parte do livro com mais referências. Elas são tão abrangentes que numerá-las todas é impossível. Mas eu fiz uma lista que trarei para o blog em outra postagem separada. E Parzival ainda está em um momento bom de sua vida, Wade tem amigos, embora seja pobre, bem como seu avatar. É quando queremos estar lá, até que perto do fim da primeira parte, quando já estamos tão viciados quanto Wade no OASIS que não podemos largar o livro, o autor começa com os golpes, constantemente nos chocando e horrorizando com cenas como a da conversa de Parzival e Sorrento…
Não posso dizer que foi totalmente inesperado, mas ainda assim ficamos meio horrorizados com tamanha crueldade e brutalidade, e a que pontos a humanidade chega por causa de poder e dinheiro. O que é uma boa crítica de Ernest Cline, sempre válida, e trazida a nós de uma maneira diferente, dentro de seu universo.
E também é interessante como o autor nos engana, achando que o livro seguirá um rumo e então os Seis aparecem e vemos um rumo totalmente diferente. O que me deixou desapontado à princípio. Desapontado porque Wade não seria o herói do mundo para sempre, como imaginei, seria vulnerável e com competidores tão bons quanto eles ou ainda melhores. O que se mostrou ser perfeito, afinal pudemos ver batalhas realmente épicas dentro dos jogos mais clássicos e cenários mais bonitos! E quando vimos o Top 5 (Parzival, Art3mis, Aech, Daito e Shoto) unidos pela primeira vez, lembro-me de meus pensamentos… totalmente distintos do que vemos no livro nas páginas seguintes…
E livro bom é livro assim: que te faz esperar uma coisa, te apresenta outra e te surpreende. E ainda assim consegue ser bom. E viciante. Se o livro é nosso Almanaque de Anorak, de certa maneira ele também é nosso OASIS, porque desejamos ficar ali presos, sem sair. Pelo menos eu, enquanto lia o livro, parecia entrar em uma espécie de transe, em outro mundo, e não queria largar o livro de jeito nenhum. Lembro-me de sentar na cama, abrir o livro e apagar todo meu quarto da minha mente. Eu estava nos planetas perfeitos que Jogador Número 1 nos apresenta. Novamente fica a dica, um livro fantástico, BOA LEITURA A TODOS! Até mais…

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