Sozinha no Mundo (Marcos Rey)

A jornada de Pimpa!

Crescer na década de 1980 e 1990 como leitor era se apaixonar e se aventurar pelas histórias narradas na Coleção Vaga-Lume – ainda hoje, reler grandes obras que fizeram parte da minha infância, como “A Ilha Perdida”, de Maria José Dupré, ou “Zezinho, o Dono da Porquinha Preta”, de Jair Vitória, é uma experiência literária nostálgica, deliciosa e recompensadora! De todos os incontáveis livros que me acompanharam na Coleção Vaga-Lume, o meu favorito sempre foi “O Mistério do Cinco Estrelas”, de Marcos Rey. Voltei a lê-lo novamente há algum tempo, e continua sendo uma obra fantástica, repleta de mistério, investigação e perseguições eletrizantes – uma característica dos livros do autor, responsável também por títulos como “O Rapto do Garoto de Ouro” e “Um Cadáver Ouve Rádio”.

“Sozinha no Mundo”, publicado em 1984, deve ter sido um dos primeiros livros da Coleção Vaga-Lume com que eu tive contato… afinal de contas, era o livro favorito da minha mãe na sua juventude – e eu acho curioso que ambos tenhamos obras de Marcos Rey como as favoritas na coleção! O livro entrega tudo aquilo que as eletrizantes histórias do autor prometem: mistérios, assassinatos, personagens carismáticos… como fruto de sua época, é importante notar que o livro tem, sim, seus problemas, especialmente na representação da personagem Marina e a constante ênfase no seu peso, mas é um discernimento que precisamos ter ao olhar para trás e para uma obra que foi publicada há 40 anos – e que bom pensar no quanto evoluímos em algumas coisas nesse tempo!

Pimpa é a carismática protagonista de “Sozinha no Mundo”… ela e a sua inseparável oncinha de pelúcia, chamada Lila, que é a sua grande companheira mesmo quando Pimpa precisa ficar correndo de um lugar para o outro para fugir de uma bruxa perfumada que se finge de assistente social e a persegue incansavelmente. Gosto muito de Pimpa e, especialmente, de sua relação com Lila – é curioso como Marcos Rey “aproveita” Lila para nos permitir conhecer/saber mais da própria Pimpa: no fundo, eu acho que Pimpa sabe que Lila é apenas um bicho de pelúcia, mas é o seu conforto, e através do que algumas dúvidas, pensamentos, reações, medos e cautelas de Pimpa são revelados e explorados, porque ela “projeta” isso na sua fiel companheira de todo tempo!

É muito astuto!

No início de “Sozinha no Mundo”, Pimpa está vindo de Serra Azul para a capital com a mãe, que acaba falecendo no ônibus antes de elas chegarem a São Paulo. Então, Pimpa recebe a ajuda de Noel, um cineasta iniciante, e Dona Berenice, sua mãe, com quem Pimpa faz amizade ainda no ônibus: eles a acompanham até o juizado e Dona Berenice pede ao juiz que a deixe cuidar de Pimpa enquanto ela não consegue identificar o tal “Tio Leonel”, que é quem ela e Dona Aurora vinham buscar em São Paulo – sabendo que estava doente, Dona Aurora queria falar com Leonel, que enviava mensalmente dinheiro para elas. Não tarda muito para que as coisas fiquem complicadas para a garota, no entanto, quando uma suposta assistente social aparece querendo levá-la.

Então, começa a grande fuga de Pimpa.

Sozinha no mundo, Pimpa precisa encontrar maneiras de se virar enquanto é perseguida, tentando ela mesma encontrar o tal Tio Leonel, porque isso esclareceria tudo e ela não precisaria ser levada para uma instituição… a garota, no entanto, está correndo perigo, cada vez mais evidente, com a tal “Gertrude”, a mulher perfumada que a segue em um fusca preto e sempre parece saber onde ela está – e que, eventualmente, descobrimos que quer matá-la. Gosto muito de como Marcos Rey constrói a sua narrativa, de como as coisas são rápidas e eletrizantes, e de como não sabemos bem quem Gertrude é ou por que ela quer tanto colocar as mãos em Pimpa… mas queremos ver Pimpa conseguir escapar! E o autor explora muito bem a ação.

No caminho, Pimpa passa por vários lugares e conhece várias pessoas… umas boas, outras nem tanto. Da casa de Noel e Dona Berenice, de onde ela tem que fugir, ela acaba no Lar São Leopoldo, onde Dona Regina, uma mulher com quem a mãe se correspondia e que supostamente conhece Leonel, pode lhe ajudar com informações sobre o seu “tio”, mas Regina está em um estado muito mal e não se lembra de nada… às vezes nem mesmo de quem é. Então, Pimpa sai de lá antes de ser encurralada, e acaba encontrando abrigo no “Parquinho da Viúva”, onde conhecemos alguns dos personagens mais queridos de “Sozinha no Mundo”, como a Dona Carolina, a viúva dona do parquinho, e Hugo Cassini, o ilusionista que a ajuda a escapar da “assistente social” quando ela aparece por ali…

Do Parquinho da Viúva, Pimpa acaba caindo nas garras do “Professor Bandeira”, um homem que pega meninas como ela da rua para usar em assaltos, como um organizado em um shopping center – e que não dá nem um pouco certo… toda a sequência de Pimpa na casa do tal “professor” é profundamente angustiante, porque não sabemos exatamente o que ele pretende fazer, e é um alívio quando o assalto dá errado e Pimpa consegue escapar, deixando a malinha para trás, é verdade, mas encontrando a sua melhor amiga quando chega a um Pensionato para Moças: Marina. As cenas com Marina são maravilhosas, e é graças a Marina que Pimpa vai a uma gincana no Parque Ibirapuera, onde ela acaba reencontrando o Noel e vencendo com ele a competição.

A dupla 13 estava com tudo!

Eventualmente, Pimpa precisa também fugir do Pensionato, onde é descoberta pela tal Gertrude (!), e as coisas começam a ficar cada vez mais complicadas. Pimpa é sequestrada pela Gertrude e o fusca preto, mas consegue escapar em um semáforo, se infiltrar em uma passeata feminista e despistar a vilã, e então ela retorna atrás de Dona Regina, que agora está morando em um cortiço depois de sair do Lar São Leopoldo… e ela descobre que a mulher foi assassinada em sua cama – na verdade, Pimpa é a primeira pessoa a encontrar o corpo ensanguentado, de forma traumatizante, e ela sai fugida dali antes de ser acusada pelo crime! De lá, Pimpa conhece a simpática Marta Vidal, uma ex-atriz que cuida de todos os cachorros que encontra na rua, e acolhe também a garota.

Por fim, quando a falsa assistente social chega também à casa de Marta Vidal, Pimpa escapa às pressas, é atropelada e termina na mansão do “Doutor Júlio”, que ela acredita, inicialmente, ser mais um benfeitor que a acolhe como fizeram Dona Berenice, Dona Carolina ou Marta Vidal, mas acaba sendo um criminoso perigoso que está por trás de tudo de ruim que lhe tem acontecido desde que ela chegou a São Paulo… ela está na boca do lobo. Eu gosto muito dessa vibe meio Agatha Christie de revelar os detalhes do caso no fim do livro, e tudo é encaixadinho perfeitamente quando descobrimos que Júlio é o próprio Leonel Malheiros (!), Patrícia é a sua esposa, que se fazia passar por Gertrude, e eles queriam matar a garota para ficar com o dinheiro que seu pai ganhara depois de abandonar a ela e à mãe.

Uau.

Ah, isso sem contar a sequência ELETRIZANTE da Pimpa no muro, tentando fugir e conseguindo ajuda dos transeuntes!

A leitura de “Sozinha no Mundo” é extremamente prazerosa. Instigante do início ao fim, Marcos Rey entrega mais um excelente romance policial, como tantos outros que ele escreveu durante a sua carreira para a Coleção Vaga-Lume. Trata-se de um interessante caso enigmático cheio de elementos que vão se unindo aos poucos, mas também é um livro cheio de coração, e eu acho que isso torna “Sozinha no Mundo” tão memorável: o fato de que realmente nos importamos com Pimpa e adoramos acompanhar a sua jornada, conforme ela encontra pessoas boas e pessoas más no seu caminho… talvez fosse legal reencontrar Pimpa e Noel em outro romance de Marcos Rey, como aconteceu com os personagens de “O Mistério do Cinco Estrelas”; ao mesmo tempo, no entanto, Pimpa merece descansar…

Que bom saber que ela está bem!

 

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