Chosen Home – Episódio 10 (Finale)
Representatividade.
SIMPLESMENTE
MARAVILHOSO. Com muita beleza e sensibilidade, “Chosen Home” é com toda a certeza um dos melhores BLs de 2025,
mas, além disso, também é uma ótima série LGBTQIA+, repleta de sinceridade,
inteligência e compromisso – e eu
gosto demais de como existe um quê de metalinguagem nesse último episódio que
evidencia a importância da representatividade real, porque sinto que da mesma
maneira que a existência de Hatano e
Sakuta faz toda a diferença na vida do pequeno Kazuki, a existência de uma
série como “Chosen Home” também deve
conversar diretamente com muitas pessoas, de diferentes idades. O último
episódio é comovente e belo como foi toda a série, e fecha lindamente uma obra
tão linda e tão importante.
Hotaru está
decidida sobre o seu futuro, enfim: ela
quer produzir violões. Para isso, ela planeja ir até uma oficina em Nagano,
e Hatano e Sakuta, como seus pais substitutos e sempre presentes, a acompanham
nessa viagem que a deixa encantada,
porque ela finalmente tem uma visão dela mesma fazendo algo que ela gosta… ela
tem um plano, enfim. É claro que ainda é um processo, mas visitar aquela
oficina lhe enche de esperanças e coloca um sorriso no seu rosto, e ela sabe
que pode dar certo: ela poderá trabalhar durante o dia e continuará estudando
durante a noite, e a vida dela está prestes a mudar, ainda que ela não esteja
indo para tão longe assim… e essa viagem de Hotaru nos apresenta oficialmente a
Kazuki, um personagem importante desse episódio final.
Kishibe Kazuki
é o neto do dono da oficina que eles estão visitando, e é interpretado por
Hinata Hiiragi, um dos protagonistas do filme “Monster (Kaibutsu)”, de 2023, que é certamente um dos melhores
filmes que eu já vi na vida. O garoto, que fica responsável por mostrar
brevemente a oficina a Hotaru, faz um comentário quase solto sobre como “todos
ali tocam violão e talvez ela se sinta perdida por não saber tocar, porque ser
diferente pode ser difícil”, mas a mente dele está em outro lugar completamente
diferente… alguns colegas de escola que veem Hotaru saindo da oficina o
atormentam mais tarde, sugerindo que “o amor finalmente chegou para ele” e
perguntando se a garota “é seu tipo”, e ele mente que sim, para descontar sua
raiva no vento mais tarde, sozinho.
A maneira
como “Chosen Home” e Hinata Hiiragi
conseguem dar profundidade e realidade a um personagem que aparece tão pouco é
fenomenal. Kazuki é um adolescente que está descobrindo que é gay, e ele se
sente de fora, excluído, diferente dos demais… e é angustiante e triste vê-lo
se sentindo “nojento” pelo que provavelmente sentiu quando um colega de escola
o abraçou ou então por ter feito com que ele se afastasse para que “não
pensassem que eles eram gays”, o que encontra paralelo lá na história de Hatano
com Koito na época de escola… ele está sozinho, está perdido, está sofrendo em
silêncio, a e vista de Hatano e Sakuta acaba por ser um inesperado sopro de
esperança e reconhecimento – então, ele aparece de surpresa no condomínio onde
eles moram.
Kazuki
reconheceu os dois em um site por causa dos moletons combinando que Hatano
comprara na oficina de seu avô, e ele percebera a proximidade dele e Sakuta, e agora ele só precisa seguir Hotaru
para saber onde eles moram… a cena de Kazuki conversando com os dois homens é
uma das cenas mais bonitas de “Chosen
Home” – mesmo que a série seja recheada de bons momentos como esse. É
triste e sincero, porque Kazuki está precisando de ajuda, está precisando conversar com alguém… talvez Hatano e
Sakuta não precisem nem dizer nada:
eles só precisam ser dois pares de ouvido que vão ouvir o desabafo de Kazuki e
vão estar presentes se ele precisar de algo, porque o fato de eles estarem ali, de eles existirem, já faz
toda a diferença para o garoto.
Ele fala
sobre como “acha que ele também pode ser gay”, e a voz dele está embargada, os
olhinhos cheios de lágrimas, e ele fala sobre como ele ouviu sobre isso em uma
aula, mas não vê ninguém ao seu redor que seja como ele, e “ele não sabia com
quem falar”. Ele conta sobre o garoto de quem ele gosta, fala de como se sente,
diz que “não gosta de ser diferente dos outros”, e é de uma força e, ao mesmo
tempo, de uma delicadeza quando ele diz que os encontrou na internet e isso fez
com que “ele se sentisse um pouco melhor”. Ele os agradece por isso, e Hatano e
Sakuta estão emocionados ao ouvi-lo… ele vai embora se sentindo melhor do que
quando chegou, e ele pergunta para Inokashira na saída se “ele pode voltar mais
vezes para visitá-los”.
Quando
falamos sobre representatividade, é sobre isso que falamos: é poder se ver no
outro, é poder entender que não estamos sozinhos, que não somos únicos no
mundo, que existem outras pessoas e que pode dar certo… Kazuki se sentiu mal
sem entender o que sentia, achando que ninguém ao seu redor era como ele, e o
fato de ele ver Hatano e Sakuta juntos, felizes e vivendo a sua vida, faz com
que ele veja todo um futuro que não precisa ser cheio de sofrimento ou de
solidão, e elogio imensamente a atuação de Hinata Hiiragi, que consegue
transmitir com maestria e com sensibilidade todos os sentimentos de seu
personagem: as dúvidas, as angústias, o nervosismo, a emoção, a esperança, a
felicidade dando as caras finalmente… que toque especial a esse último
episódio!
Outros
personagens estão ganhando seus finais também. Tomoe está acertando as coisas
com a polícia, por exemplo, e a Sra. Matsu fica responsável por seu caso, mas
ela não vai precisar ficar presa, porque devolveu o dinheiro e foi perdoada
pela empresa; Jin Ichigaya, por sua vez, dá um passo rumo a algo quando escolhe
ser uma pessoa melhor nem que seja para o coelho que ele adotou, e então ele
consegue um emprego na imobiliária na qual Okabe, o amigo de Genichi Hatano, trabalha.
Okabe, por sua vez, tem ideias que contam com entrevistas com pessoas que estão tendo dificuldade para escolher ou
encontrar uma casa, porque acha que isso pode ser útil. Yoshida, por fim,
está tendo enfim a coragem de tirar a aliança falsa do seu dedo e isso
significa muito.
Hatano e
Sakuta são duas das pessoas entrevistadas por Okabe nessa sua nova proposta – é
por causa dessa entrevista que Kazuki pôde encontrá-los, e essa entrevista
também traz algumas conclusões muito boas. Jin se intromete na conversa
perguntando por que Hatano está tão “obcecado” com a ideia de se casar “se isso
não garante felicidade”, e Genichi Hatano fala sobre como ele entende isso: ele
não acha que um papel que diga que ele e Sakuta estão casados vai garantir a
felicidade deles, mas ele quer ser
reconhecido… ele quer, assim como as outras pessoas podem, poder escolher
se ele vai se casar ou não. O sentimento é válido e eu o entendo perfeitamente.
Sakuta, então, o convida a preencher com ele um formulário de casamento, e diz que
eles vão registrá-lo na prefeitura.
Como
testemunhas, temos a mãe de Hatano e Hotaru, e os dois preencher o formulário
de casamento e vão à prefeitura nervosos – mas o casamento entre pessoas do
mesmo sexo não é legalizado no Japão, e eles sabem disso. Eles são obrigados a
esperar por muito tempo porque quem os atende precisa de “orientação”, e são
eventualmente chamados para ouvir que “eles não podem aceitar esse registro de
casamento”. Ainda assim, o homem que os atende pede desculpas e diz que o fato
de eles terem ido até lá para oficializar o casamento será devidamente
registrado. Talvez os esforços não sejam em vão, talvez sejam pequenas atitudes
que marcam uma luta até o momento em que eles celebrarão a vitória… celebrarão
o direito de serem, oficialmente, casados.
O próprio
Kazuki é a prova de que isso tudo não é
em vão.
“Chosen Home” chega ao fim com uma
mensagem de voz que Hotaru deixa para seus dois pais. Ela está bem em Nagano,
está começando a se dedicar a seu futuro, e as pessoas estão seguindo a sua
vida… esse é um grupo riquíssimo de personagens que teriam ainda muitas
histórias a contar, nessas “Crônicas de
um Lar”, mas esse recorte de sua vida valeu cada segundo repleto de emoção,
sinceridade e beleza. Hatano e Sakuta ainda não podem registrar o formulário de
casamento oficialmente, tampouco estão prontos para comprar uma casa nesse
momento, mas eles estão juntos, eles são eles mesmos, eles estão felizes, e
eles têm uma família… eles têm um lar.
E isso é o que importa, pelo menos por enquanto. Essa série deixará saudade,
mas estou profundamente feliz por tê-la acompanhado.
Uma das
melhores no ano!
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